CRÔNICAS/CONTOS


Inimigo particular

Me incomoda o barulho que fazem os ponteiros desse velho relógio. Estão postos em um centro arredondado de cor de ouro, são pretos e se destacam nessa sala, estrondosa apenas pela manhã. Agora, na calmaria de tantas horas, esses ponteiros me esgotam. Parecem aqui de dentro o sino da catedral lá do centro, que toca a cada meia hora e desperta as andorinhas e as corujas, o padre, a beata e os vizinhos.
Parei para admirá-los e percebi o quão injusto sou com os dois ponteiros maiores, que me avisam todos os dias a hora de parar. Não são eles que gritam a cada segundo. Mas há ali um outro ponteiro, pintado de vermelho brilhante, um pouco desgastado por tantas voltas que já deu, e que insiste em gritar a essa hora que os outros marcam.
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac...
O café que passei há alguns minutos já esfriou e depois desse gole gelado aumenta ainda mais a minha insatisfação com esse barulhento, impávido, inóspito ponteiro vermelho.
Mas não posso engavetá-lo. Também não posso jogá-lo na parede, destruí-lo em mil pedaços, dar-lhe um banho de água fria, colocá-lo embaixo do colchão. Não posso perdê-lo sem querer em um dia de faxina. Preciso dele. Preciso desses ponteiros que me regem, desse vermelho que me afronta.
Meus olhos já estão cheios de areia e ele não para... não para... Tic-tac. Tic-tac. Tic-Tac... Tic...
Escrevo este texto com os olhos vidrados no relógio à minha frente, encarando-o como um leão a sua presa, o lutador a seu rival, o vilão ao mocinho, torcendo por um final feliz que nunca chega. Mas quando decidi pôr um ponto final nesse duelo e jogar a bandeira branca da derrota, ele silenciou...
Lá no centro o sino da catedral esbraveja, o padre já está de banho tomado. Os carros passam, passarinhos cantam, o galo amanhece seu dono, as crianças vão para a escola e os pais vão trabalhar, o moço da laranja grita a promoção, a vida acorda... E o ponteiro se aquieta.
Perdi o meu tempo planejando pará-lo. Mas na próxima madrugada eu prometo que não deixarei o meu café esfriar.

Crônica do arrependimento

Finalizo agora este texto.
Depois de ter tirado do fundo da terceira gaveta da mesa antiga, colocada no escritório bagunçado, a caneta de tinta azul por acabar, a mesma que me presenteei há alguns anos e que foi a responsável por eu chegar até aqui.
Agora, a caneta está quieta, gelada. Chateada, não quer mais trabalhar.
Conversei com ela tal qual alguém fala com seu amigo. Expliquei os motivos de tê-la deixado de lado por muito tempo, como jamais costumei fazer. Ao contrário: ela sabe que sempre foi a melhor amizade dos meus dias. A deixei guardada no escuro da gaveta, junto a papéis amassados e ideias que perdi. Entendo, agora, o seu desgosto e porque não quer colocar nestas linhas as minhas desculpas.
Ela é muito bonita. Tem a pele dourada com detalhes prateados e brilha como seu protagonismo. A maciez com que versa nas linhas de qualquer papel me deixa confortável para nunca mais tirá-la do meu lado. Mas, um dia foi preciso. A deixei.
Me lembro bem a última frase que ela me ajudou a desenhar. Falávamos, como sempre, do amor e dizemos poemas para uma folha amarela de um caderno de brochura. Tínhamos a combinação perfeita, mas as letras que aprendi a registrar não estavam a sua altura. Pobrezinha nunca interpretou outras ilusões, outras caligrafias mais bem-feitas. Mas, nunca reclamou. Até agora, que não quer trabalhar.
Então, liguei o computador. Deixei a caneta de lado com um nó na garganta e me aproximei dessas teclas desgastadas, vítimas do tempo e exaustão após muitos textos que registraram.
Letras brancas de um teclado preto barulhento, que me ajudariam a escrever nestas mesmas linhas um artigo opinativo sobre a política de nosso país. Mas que se comoveram, como os dedos que as examinam, por uma caneta de tinta azul e corpo dourado, jogada no fundo da gaveta, que foi por tanto e tanto tempo a minha melhor amiga.

A exótica beleza das pessoas que amam

Ele acordou pela manhã, quase tarde, olhou para o lado e viu um par de olhos negros fechados, um respirar profundo, sentiu um ar de beleza pouco comum em qualquer canto da cidade.
Ainda naquela manhã, quase tarde, sentou à mesa depois de planejar um café forte com frutas amargas. Sentiu que o café estava doce, assim como as frutas, que de amargas não tinham nada. Sorriu ao ouvir um bom dia daquela voz delicada.
Saiu para trabalhar atrasado, mas não tinha problema. Deixou para trás a saudade de segundos. Entrou no elevador cantarolando uma música que nunca tinha escutado. Virou compositor. Deu um abraço no porteiro do prédio, o mesmo que ele ignorava no resto dos dias da semana.
O terno e a gravata hoje não o incomodavam, apenas o faziam ficar mais apresentável. Chegou a seu destino. Preencheu relatórios, fez pesquisas, reuniões, foi promovido, por engano. Foi rebaixado, ouviu críticas, sugestões. Xingou o chefe, foi demitido. Jogou o terno e a gravata no lixo da sala, foi embora com um sorriso de orelha a orelha. Seus dez anos de empresa não se justificaram. Ninguém daquele escritório entendeu.
No caminho de volta à felicidade a chuva apareceu. Como no filme da semana passada, ele não viu problemas. Abriu os braços. Enquanto as pessoas em volta corriam atrás de abrigo, ele, sem terno e gravata, sentia as águas do céu e caminhava lentamente de volta para casa.
Viu o vendedor de flores parado na esquina. Comprou violetas; rosas tinham espinhos e eram muito comuns. E agora, com as cores do arco-íris indicando seu caminho, ele prosseguia saltitante ao final feliz.
Cumprimentou a vizinha chata. Fez carinho no cachorro bravo. Felicitou o carteiro. Deu adeus ao seu João e um sorvete à menina. Molhado, feliz, sorrindo, gripado, com um amor que acendia seus olhos.
Abriu a porta, colocou as violetas em cima da mesa, gritou para seu amor, ninguém respondeu. Procurou na sala, nada. No quarto, nada. Nos fundos, apenas o varal. No banheiro não estava. Na cozinha estava apenas um papel grudado na geladeira. Se sentiu aliviado, desfez a cara de susto.
Começou a ler:
“Olá. Foi um imenso prazer ficar com você. Desculpa se te fiz perder a hora do trabalho, acho que dormimos demais (também, depois de uma noite daquela...). A comida estava ótima. A sua companhia é bem agradável. Adorei te conhecer. Mas agora vou voltar para meu mundo e conhecer outras camas. Te fiz um desconto, o troco está em cima da mesa. Ah, essa semana estou com a agenda cheia, mas quando quiser me liga, o meu celular continua o mesmo. Beijos, felicidades”.
Então ele amassou o bilhete e jogou pela janela. Voltou para sua rotina triste. No outro dia saiu para procurar emprego, sem cumprimentar o porteiro.

O estranho prazer pela desgraça

Hoje um rapaz que estava na padaria da esquina pediu o seu café matinal, um pão na chapa com manteiga e um jornal. Enquanto o café preto esfriava, e depois da primeira mordida na metade do pão, o homem deixou de lado a maioria daquelas folhas e deu a sua atenção exclusivamente à página policial do periódico.
As notícias estavam espremidas, eram muitas para pouco espaço. Uma única página não dava conta de tantos fatos. Assassinatos em cima. Latrocínios embaixo. Sequestros no meio. Traficantes presos no canto.
Enquanto lia aquelas pautas, o cara de uns 30 anos ou mais, vestido de terno e gravata, com barba a fazer, algumas vezes mostrava indignação, balançando a cabeça de um lado para o outro, outras vezes, soltava um sorriso sem graça e comentava a notícia com a moça que estava ao lado, saboreando um cappuccino com morango. Uma bela mulher, que disse: “este País está perdido”.
Ele dobrou a página 5 e a colocou debaixo do braço, pegou a pasta preta que carregava, pagou a conta e saiu. O homem esqueceu mesmo das outras páginas do jornal. Deixou de lado, então, notícias que certamente são mais importantes do que prisões. Não ficou sabendo da greve dos caminhoneiros, do preço da gasolina e nem ao menos o que vai acontecer na novela das 21h.
Eu também fui embora. Cheguei em casa e liguei o rádio para ouvir o noticiário da manhã. O âncora falava do mato alto e do buraco na rua. Achei estranho quando ouvi o repórter incentivando o munícipe entrevistado a discordar de qualquer atitude dos responsáveis pela cidade, ele queria mesmo era polemizar. Nenhuma crítica construtiva para contar história. Aproveitei para sair daquela frequência... E não voltei mais!
Resolvi acessar as redes sociais e os sites de notícias. Percebi que a matéria que estava na página policial do jornal era a mesma que contava com ilustrações no noticiário virtual. A rede social denunciava que aquela era a principal notícia do dia. Homem morto, traficante preso. O jornal da TV, então, nem se fale. Era a mesma manchete do começo ao fim.

Percebi o que já estava explícito há muito tempo. A desgraça é a audiência. A população se acostumou a isso. A notícia de uma morte é maior do que a de uma vida. Há, aqui neste mundo, um estranho prazer pela desgraça alheia.

Confusão

Há algumas coisas por aqui que não consigo entender. Talvez não preciso entender. Ou então, não quero. Mas deveria. Há algumas coisas por aqui que são incompreensíveis. Tangíveis, inatingíveis, eis que tem coisas por aqui que não entendo. Muitas coisas por aqui, aliás, não me entram na cabeça.
As coisas que não entendo, na verdade, não são entendíveis. Apenas aquelas pessoas que conseguem entender isso e aquilo sabem o real significado do que realmente significa você entender uma coisa que não entendo.
Eu não entendo isso e aquilo. Não entendo nada desse mundo. Você pode achar eu maluco, burro, ignorante, mas eu simplesmente não entendo. Não entendo o que, porque, não entendo você, não me entendo.
Não me entendo. Não entendo porque, então, eu não entendo nada, não sei nada. Não sei mesmo. E não vou saber.
Ou você entende?
Entende a jovem que morre mais cedo. A mãe que mata o filho. O filho que mata a mãe. A criança que usa drogas. O mendigo que implora perdão. O político desonesto. O dinheiro de seu imposto. As filas nos hospitais. O menino afogado. O assalto na avenida e no metrô. O abuso em cada esquina. O dia que não nasce como o que passou.
A verdade é que eu não entendo. E nem quero entender.

Liberdade, liberdade...

Estendo as condolências aos meus parceiros de profissão

Se um dia me disseram ‘liberdade’, talvez eu não ouvi direito, ou então, não entendi o que tal palavra significava. Perguntei a outras linhas sábias: “Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, é a sensação de estar livre e não depender de ninguém...”
Sou jornalista e tenho minhas dúvidas quando o assunto é a senhora Liberdade. Você já deve imaginar a que tipo dela me refiro. Muitas vezes as linhas que aqui você lê, são algemas disfarçadas ou bombas prestes a incomodar alguém. Sim, me refiro a essas que virão logo abaixo. Não se assuste, caro leitor. Apenas irei expor neste espaço alguns argumentos relativos à minha profissão e sei que a carapuça vai servir para muita gente...
Estou cansado. Os ponteiros do relógio já se juntaram no escuro do quarto. Há por aqui apenas uma janela aberta, um som da meia noite e de meus dedos encontrando as teclas apagadas deste calejado teclado. E um café para me acompanhar.
Essa velha cadeira carcomida pelo tempo já me seguiu por entre histórias e histórias. Hoje ela canta a música de Chico, versando neste fatídico texto libertário: “Alô, liberdade...”
Dizem os mais experientes que a dor da ditadura jamais passará. Nem ao menos o gosto doce da mudança irá tirar o nó na garganta daqueles que enfrentaram os tempos em que falar era sinônimo de coragem.
Mas, poderão concordar os focas e dinossauros: pior que isso, e aqui não cabe qualquer comparação com o passado, é viver em um tempo onde expressão e liberdade se confundem em pré-julgamentos e em teorias que levantam a bandeira de que vivemos em um país onde qualquer cidadão tem o direito de se expressar, agarrados no conceito democrático, muitas vezes desconhecido e mal interpretado.
Não, não posso escrever aqui o que gostaria que você lesse. Isso prejudicaria a mim e a você que poderia deixar de acompanhar meus próximos textos. Digo isso, pois, já tive a dolorosa experiência de receber severas retaliações sobre minhas opiniões e meus contundentes argumentos sobre assuntos sociais, políticos e ideológicos.
Já me disseram que a sua liberdade, a de expressão que vem ao caso, acaba quando interfere na do próximo. Concordo, respondi. E disse, ainda, que minha opinião pode ser interpretada de diversas maneiras, gerar inimizades e cumprimentos, ser contestada e entendida, recortada ou amassada. Mas deve ser respeitada. RESPEITADA!
Existem por aqui alguns assuntos em que os nossos subconscientes engravatados nos aconselham a não falar, e como de praxe, a política está no meio. Cidade pequena sofre com isso. A inversão de valores é imoral: não falar é ter liberdade de expressão.
A confusão se dá quando suas opiniões não dialogam com a de outros, que são momentâneos ocupantes de cadeiras administrativas. O jogo político de nosso país chega a enojar as páginas de jornais e revistas compradas para falar bem desse ou daquele partidário. Isso também significa que qualquer um que ousar dizer o que não se quer ouvir será posto contra os muros da liberdade.
Compreender e respeitar é muito difícil para as pessoas. Culturalmente, talvez pela doutrina imposta por veículos de massa e por retaliações da opinião pública, abaixar a cabeça é a alternativa plausível para se livrar deste mundinho perdido. Eu gostaria de dizer aqui o que não concordo, sem que minutos depois alguém diga para eu rever as minhas argumentações.
Eu sigo em frente. Sei que é complicado lidar com conceitos e pré-conceitos. A senhora Liberdade existe aos cegos. A opinião é abafada. O negro é injustiçado. A mulher é desrespeitada.
No samba de roda que os jornais anunciaram, homens e mulheres jogavam capoeira. Era lá que, ao fundo, eu ouvia a música da moda: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós. E que a voz da igualdade, seja sempre a nossa voz...”

Macondo

E como diria meu compadre Aristóteles, inspetor de alunos na Escola Municipal de Macondo: ‘Tudo nessa vida passa, e se não passa, fica’. Sábio Aristóteles. Conhecedor profundo das maldades das crianças daquele colégio, que adoravam irritar o inspetor, apenas para ver ele correr atrás das pernas pequenas, segurando a calça e a raiva.
Como diria o seu idealizador, Gabriel Garcia Marquez, Macondo é "uma aldeia de casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos". A escola é por minha conta. Aristóteles também.
Naquele vilarejo, sorrir era uma enorme conquista para os olhos tristes e amargurados. Senhoras com sacos de roupas na cabeça, cantarolando músicas que passaram por gerações, meninos pelados e sem vergonha, brincando no rio de águas transparentes, dividindo espaço com os peixes do jantar. Apesar de pobre, era um lugar feliz. Menos para o inspetor da escola.
Aquele educandário era o único que se encontrava em Macondo. Era lá que as crianças aprendiam o alfabeto e comportamentos religiosos. A escola era feita de madeira velha, carcomida por algum inseto típico da região e pelo tempo que por lá parecia passar mais rápido do que em outro canto.
Dois professores se revezavam no ensino às crianças. Não eram muitos os frequentadores das salas de aula, mas davam trabalho. Por isso se fazia necessário o revezamento, que acontecia a cada dia. Aristóteles trabalhava sozinho e seu salário era apenas um prato de comida e um canto para dormir. A escola era sua morada.
Por isso presava respeito daqueles moleques pequenos, atentados, esfomeados, amigos. Eram eles a sua distração diária, os responsáveis por um sorriso largo depois de correr e deixar a calça cair, mostrando as partes para quem estivesse por perto. Era um homem sofrido, solitário, que via a possibilidade de alento em qualquer abraço de Macondo.
Morando tantos anos no colégio pequeno, aprendeu a ler depois de muito custo. No começo, achava desnecessário, mas a insistência da professorinha Callie Nunes, e o seu jeito encantador, o convenceram da necessidade de juntar letra por letra e formar frase por frase. Assim, começou a contar sua história...
Criado na rua, sem pai nem mãe, com fome todo dia. Tinha marcas do sol estampadas na testa. Tinha as pontas dos dedos moídas de tanto carregar pedras pontudas, alicerces do vilarejo. Era mais forte do que se apresentava, mas ninguém apostava um peso em sua vida.
Aristóteles, meu amigo. Seu nome mesmo era Pablo Rincón, mas ninguém sabia. Lia tanto por aí, que conheceu o filósofo grego e adotou um pseudônimo. “A cultura é o melhor conforto para a velhice”, dizia, copiando o parceiro famoso.
Aquele povoado se desfez... Gabriel criou e colocou Macondo abaixo. Uma gigantesca tempestade de vento a limpou do mapa.
Me desculpe, Gabriel, por reinventar a sua obra nestas linhas. Mas, disse Aristóteles que “nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura”. A minha se mostrou relembrando ‘A revoada’, ‘Cem anos de Solidão’, à beira de um rio de águas calmas e diáfanas, num vilarejo de 20 casas, que se tornou perene no que ainda chamam de literatura.

Um jantar à luz de Velas

Quando ela se cansou de esperar, levantou, pegou sua bolsa de grife preta com detalhes dourados, comprada no Braz, juntou o seu orgulho e decidiu ir embora. Havia tomado um copo d’agua gelada para aliviar a ansiedade. Seus dentes, meio sensíveis, chegaram a gemer. O calafrio subiu às espinhas, e a marca do batom avermelhado fixou-se naquela taça de um vidro caro qualquer.
As marcas de seus lábios denunciavam a insatisfação de estar ali, sozinha, perdida na ilusão da espera. Não aguentava mais. Olhou e desolhou o cardápio dezenas de vezes. Chamara a atenção alguns gourmets caros, em especial o denominado ‘Lagosta ao Thermidor’. Na descrição dizia que a lagosta viria gratinada na própria casca, com molho bechamel; um acompanhamento de purê de batatas, que na apresentação do prato serve de base para montar a lagosta.
Nunca havia comido uma lagosta, sequer uma casquinha de siri. No máximo uma sardinha gratinada na farinha de rosca e bem frita, que a fazia lamber os dedos no fim de semana, na casa da avó materna. Mas, naquele lugar o seu pedido era a ‘Lagosta ao Thermidor’.
Com o que tinha no bolso não pagava nem o serviço da cozinheira. Mas, não era ela o banco da noite. Pode ser que quando a Lagosta chegasse se transformaria em um bicho de sete cabeças, e ela não saberia nem por onde começar a degustação. Mas, daqueles pratos descritos no cardápio preto, com capa aveludada e linhas pratas finas, era o único nome que soava familiar.
Os casais iam chegando. Mulheres pomposas, com vestidos longos e chamativos, nariz empinado, salto alto de dar dor nas juntas no dia seguinte, e um ar de esnobe a qualquer cidadão comum que ousava cumprimenta-las com um boa noite. Eram seguidas por homens de barba feita, e velhos parecidos com políticos, de gravatas borboletas e terno espremido, lembrando um pinguim ao caminhar.
Os sorrisos falsos e as falsas conversas rodeavam por todo aquele ambiente caro. Ela ainda estava insatisfeita. Esqueceu o celular no táxi, como já havia feito outras três vezes, não tinha, então, contato com o mundo lá fora. Baseava sua paciência pelo relógio de ouro maciço que era embutido na parede de sua frente.
Já fazia meia hora e nada. Tudo bem. Uma garoa fina que caia pelas ruas da cidade atrapalhava o intenso trânsito. Ouvira no rádio do taxista que a greve do metrô continuava a toda, e apenas alguns ônibus ainda circulavam pela cidade. Era difícil chegar a qualquer lugar. É de se entender o atraso.
Talvez o seu celular esteja vibrando como um louco no banco do passageiro do carro amarelo. Ou então a associação dos taxistas já viu todas as fotos que ela costuma tirar depois de uma boa noite de prazer. Se aqueles homens sedentos conseguirem abrir a pasta de vídeos, então... sua reputação de mulher respeitada desceria a ladeira. Mas, ainda não era hora de pensar nisso.
Estava se sentindo mal. De todas as mesas do lugar apenas aquela servia uma pessoa. As mulheres estavam todas acompanhadas, e ela disfarçava com um sorriso amarelo, mentindo que seu parceiro foi ao toilet ou conversar com o gerente do restaurante. Na verdade, ela estava sozinha ali há uma hora.
Os garçons andavam a sua volta, esperando a decisão pelo jantar. Alguns deles já comentavam entre si que aquela bela foi passada para trás na noite fria e chuvosa, propícia para um jantar à dois. Ainda assim, ela conseguia manter a sua pose.
Agora, já enganava a si mesma. Percebeu, enfim, que terminaria a noite sozinha, no cachorro quente da esquina. A lagosta ficaria em seus sonhos, quem sabe um outro dia.
O batom paraguaio desbotava em seus carnudos lábios. Seus dentes brancos e seu sorriso largo se despediram por instantes. A mulher feliz e esperançosa por uma noite de amor sem fim entre quatro paredes, depois de um jantar à luz de velas com vinhos caros e pratos chiques, essa mulher se desfez.
Passeando sozinha pelas ruas da cidade grande, olhava as estrelas e ia embora andando até a sua casa. Não era tão longe assim. Cansou dos saltos, que já estavam em suas mãos. A garoa fina molhava seu corpo e os seus sentimentos apaixonados. Por vezes as gotas do céu se juntavam às do seu rosto, e unidas tocavam juntas o chão.
Deixou pra lá o cachorro quente. A tristeza matou a sua fome.
Abriu a porta da casa, que fazia um rangido chato e lento. Não acendeu as luzes. O silêncio daqueles cômodos quietos era ensurdecedor. Deixou os sapatos pelo chão, e o casaco vermelho também. De pés sujos e orgulho ferido, deitou na cama grande e abandonada.
Sentiu um cheiro familiar. O perfume que a encantava e aflorava seus desejos mais amorosos possíveis. Saiu da escuridão quando ligou a luz fraca do abajur, que iluminou a foto de cabeceira. Ela e seu amante, namorado, marido. Abraçados em um dia feliz numa hora qualquer. Hoje, ele a abandonou. Ontem também.
A mulher viva e contente, que dizia bom dia aos vizinhos e esbanjava carisma, agora está morta. Se foi com seu amor, que morreu de coração há alguns meses. A deixou sozinha, sem pudor, sem razão e sem alma.
Ela ainda não se acostumou com a ideia. Toda semana sentava na mesa do restaurante caro, aquele mesmo que ouviu o pedido de casamento, olhava o mesmo cardápio, gravava seus lábios no mesmo copo, acendia as mesmas velas. E ia embora para a solidão.

A porta da igreja está entreaberta

Dízimo. Dízimo era o que ele pedia ao bater na porta da rua 3. De casa em casa, da manhã ensolarada até a tarde chuvosa. Não aguentava mais se empanturrar com cafezinho preto que tomava nas residências maiores daquele vilarejo.
- Entre agora menino. Venha receber o dízimo – dizia a senhora que sentava no primeiro banco da igreja pequena, que recebia semanalmente o povo do vilarejo, sedentos de palavras de conforto, e de uma fofoca ou outra que sempre sobrava no final.
- Venha ver a minha santa ceia. Ganhei do meu sobrinho, que foi até Roma, levou a namorada, mas voltaram logo, o pai dela passou mal – ela não parava de falar. E continuou... - Mas, ele lembrou de mim. Menino bom, puxou a mãe. Porque o pai...
A mãe do sobrinho era a sua irmã mais velha. Uma mãe que não teve. Uma gorda feia e chata, daquelas que os vizinhos abominam e as crianças adoram irritar. Isso não vem ao caso.
Recebeu, finalmente, todo o dízimo da semana. Levou ao padre, que lhe deu umas moedinhas em troca, e completou dizendo: Deus o abençoe e lhe dê em dobro, meu caro. E virou-se a batina rumo a santa missa do domingo.
Missa que atraia fiéis que não seguiam em momento algum o título a eles concebido. Fiéis apenas nos olhares invejosos e nas frases maldosas que formulavam em suas cabeças, enquanto o sacerdote seguia as palavras bíblicas lá na frente.
A Maria adorava chegar cedo. A igreja era pequena. Não seguia as tradições daquelas catedrais milenares, com vitrais bonitos e bancos de madeira maciça, feitos a mão. Mas era aconchegante, e conseguia abrigar mendigos friorentos nas noites de julho.
O que realmente chamava atenção naquele santuário era a hora da missa. Um novo conceito de missa. Ninguém olhava para o padre. E ele falava...falava...Lia e folheava as folhas do livro sagrado. Mas, ninguém o escutava.
Era um burburinho aqui, outro ali. Umas mulheres com panos na cabeça, escondendo a vergonha, ajoelhavam e fechavam os olhos do início ao fim da celebração. Outras, angustiadas, fofocavam e riam alto o tempo todo. Os jovens trocavam mensagens nos celulares. Os mais fogosos se encontravam no lado de fora para namorar. As crianças, aquelas que não eram coroinhas, pintavam e bordavam pelos pilares da igreja.
Mas, ainda assim existiam aquelas pessoas que juravam de pés juntos, saber virgula por virgula todas as citações do pároco. Mas, se alguém as perguntasse, não saberiam responder. Na verdade, são duas ou três madames, que levam os filhos para brincar, pagam de santa, mas apenas prestam atenção nos mínimos detalhes das roupas das mulheres vizinhas, assunto elementar no próximo chá da tarde.
Certo domingo santo, todos os devotos desceram o vilarejo rumo aquela igreja, como sempre faziam...
As madames vestiram preto e sapato de salto alto, uma delas até colocou chapéu e óculos escuro, aproveitando o sol da tarde quente do último dia do horário de verão. Na verdade, era apenas para chamar a atenção.
Outras senhoras, da primeira fileira, se encontraram três esquinas antes, e desceram explanando sobre a filha da outra vizinha de baixo, que casou grávida com o namorado desempregado. Assunto pertinente, mas que ficaria apenas entre elas... Ou não.
Duas adolescentes chegariam atrasadas. Entrariam depois do padre. Horário calculado, afinal a chapinha no cabelo e a maquiagem na cara, eram produções demoradas. Tudo feito para impressionar os outros playboys que as encontrariam no lado de fora. Missa que nada!
Tradicionalmente a missa acontecia assim que os sinos da igrejinha dessem o sinal. Sete fortes batidas que faziam a vizinhança afastada despertar. E aí entravam pelo corredor: os coroinhas, a bíblia o dízimo e o padre.
Naquela fatídica última tarde do horário de verão, desciam todos os fiéis para a santa missa do domingo. Ao chegarem não viram as luzes da igreja acesas. O carro do padre não estava no lugar reservado, como sempre aconteceu. As janelas estavam fechadas. A rua estava escura. De um lado nada, do outro também.
As especulações do povo falastrão começaram por ali mesmo. Teorias mirabolantes eram expostas. Chegaram a falar que o padre sumiu com todo o dízimo da comunidade. Alguns, mais comedidos, diziam que ele morreu.
As meninas, que chegariam atrasadas, apareceram assustadas na hora que os sinos balançavam. As crianças choravam, queriam brincar. As mulheres de preto e salto alto já não conseguiam ver a roupa de ninguém. Escureceu, o sol se foi. As fofoqueiras eram as investigadoras mais assíduas, e inflamavam o povo com suas mirabolantes teorias.
O padre, coitado, era acusado de tudo. Era inadmissível aquela igreja estar fechada. Não estava certo. As pessoas deviam sentar, ajoelhar, rezar, era obrigação de cristão. Deus não os perdoaria por faltarem à missa. Coitado do padre.
Em um ato de desespero, uma das senhoras frequentes, percebeu que a porta do lado estava entreaberta.... Ação contínua: empurraram a porta e entraram todos, desesperados. As luzes se acenderam, os sinos fizeram ainda mais barulho. E mais alto, e mais alto...
Não havia ninguém. Tudo vazio. Um olhou para o outro. Cadê a santa missa?
Uma voz, lá no fundo, se destacou sob o silêncio ensurdecedor que afetava aquele lugar. Voz conhecida, do padre. Ufa! Ele não morreu e não nos roubou. Vai ter missa!
Voz de padre, representante de Deus, dono daquela casa santa. Que contou toda essa história sem ninguém o escutar... Coitado!
Ainda pairava no ambiente as risadas grosseiras de mulheres fofoqueiras. Os olhares invejosos das madames do chá da tarde. A inquietação descontrolada de crianças mal-educadas. A despretensiosa paixão das meninas pelos adolescentes folgados. E os coroinhas, que vira e mexe pescavam um grande peixe em seus sonhos enquanto a palavra santa era dita.
Ninguém ali escutou a história contata pelo sacerdote.
Na outra semana, a porta da igreja estava entreaberta. E o dízimo não estava mais no seu lugar.

Crônica de uma morte anunciada

O título deste texto é o mesmo de um livro do autor colombiano Gabriel Garcia Márquez, onde ele relata em uma reconstrução jornalística, o último dia de vida de Santiago, num quebra-cabeças envolvente cujas peças vão se encaixando pouco a pouco através da superposição das versões de testemunhas que estiveram próximas ao protagonista.
Imitei o título, pois, trato aqui de um assunto infame e delicado, que literariamente poderia se extinguir, ou poderia ao menos se entender, em uma crônica jornalística ou em uma falácia literária. Em sua obra, Gabriel fez.
Disse que nos anunciaram a morte desde o dia do nascimento, e mesmo assim não aprendemos a lhe dar com ela. Antes da vida ter início, nós sabemos o seu final. E durante este caminho, o que cabe a nós é aproveita-la da melhor maneira possível. Juntar todas as pedras que encontrarmos, e com elas construir um castelo. Ainda lembro de Machado de Assis, e tento entender essa lástima da vida: “Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!”
Mas, pergunto ao meu Deus, o mesmo de todos nós, e no meu questionamento, lembro-me de Renato Russo, que diz “É tão estranho, os bons morrem jovens”. Digo isso porque os bons e os jovens estão indo embora daqui, tão cedo que não nos da a chance de argumentar, e achar alguma explicação.
Partem desse mundo, chegam ao final de seus caminhos, sem mesmo querer. Acidentes, acasos, mortes não anunciadas, suicídios. É mesmo, tão estranho. Os noticiários nos confirmam o caos, e nos faz refletir sobre a vida.
Quem me dera se ainda pudesse dizer, em um segundo de conselheiro, às pessoas que partiram em momentos de loucura, eu citaria Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las...Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas!”. Que triste as vidas senão as amarguras. Feliz, na verdade, é aquele que já teve a glória de chorar.
Não faço de meus dias, dias para se espelhar. Mas, como o mendigo da rua, eu tenho a minha história e sigo o caminho que escolhi. Não sei se o que faço é merecedor de algum lugar melhor, mas eu me atrevo a dizer que sou digno da vida que me foi dada. Eu a vivo intensamente, fortemente, literariamente. Mas, não sei o que me espera neste próximo segundo.
Assim como não sabiam as pessoas que se foram, em fatos noticiados nos últimos dias. Como o estudante que se afogou, o ciclista atropelado, a jovem e o delegado que se mataram, o trabalhador que foi assassinado, e tantos outros casos por aí. Não há de se entender. Nem a música mais bela ou a crônica escolhida. Nada há para decifrar. Mas, para viver bem, não pense na resposta. O final já foi anunciado.
A verdade é que pra mim o mundo seria todo ao contrário: os amores não habitariam o coração, pois um dia ele para. Por mim, os amores viveriam em almas, pois elas são eternas. Alias, quem disse que amores inacabáveis não existem? Basta admirar a chuva, antes de se encantar com o arco-íris.
Pense nisso!

A história do menino que queria ser lixeiro

Todos os dias, às 18 horas, passava pela rua de terra daquele bairro afastado o Caminhão de Lixo, fazendo um barulho que se ouvia do outro lado da vila. A dona de casa saia correndo com as sacolas nas mãos, e colocava no portão da casa, ou na esquina da rua, aqueles sacos fedidos. Dali a pouco passavam os homens em cima do caminhão, pegando tudo o que ali estava jogado.
Tinha um menino, menino pequeno de pernas magrelas e de sonhos de gente grande. Ele ficava encantado com todo aquele furdunço que no final da tarde se acontecia no bairro. Ficava cativado com aqueles homens em cima do caminhão, que detinham o poder de dez minutos depois das seis, deixar toda a rua limpinha.
Certo dia o moleque resolveu imitar os seus heróis da limpeza. Pegou duas almofadas, que mais pareciam com sacos de lixo; subiu no armário da sala, que mais parecia um caminhão, e fazia um barulho com a boca igual ao do motor daquele carro grande. Era a sua melhor brincadeira.
Enquanto fazia isso, a molecada vizinha batia bola na rua. Dois times formados, e os sem camisa foram campeões. Mas, brincar no caminhão de lixo era mais legal, muito mais interessante! E o menino, com toda sua inocência de criança, dizia a quem quisesse ouvir que aquela era a brincadeira de seus sonhos...
E o pior, ele não entendia o porquê tantas pessoas davam risada quando ele falava sobre suas pretensões. Afinal, ser lixeiro é tão digno: eles limpam, reciclam, e deixam qualquer cidade mais bonita. Mas, quando um amigo seu gritava que no futuro gostaria de ser jogador de futebol, os adultos todos aplaudiam. Não há de se entender!
Certa tarde, em um de seus jeitos de criança curiosa, conversou com aquele gari que limpava a rua de cima. E o garoto, que queria ser lixeiro, desistiu.
O homem de roupas reluzentes e boné na cabeça, que tinha o rosto cansado, com marcas do tempo, que tinha as mãos calejadas e o olhar despretensioso, mas que continha um sorriso mais brilhante do que o imensurável valor de sua profissão, disse boas verdades de realidade àquele menino.
Ele disse que depois de décadas e décadas de profissão, ainda não se acostumou com o preconceito. Não falou nada de sua cor. Mas, o preconceito das pessoas que não têm qualquer tipo de respeito com o ambiente onde vivem. Jogam na rua qualquer coisa. E pensam que a cidade é um imenso lixo.
O homem contou ao menino um pouco dos valores de sua profissão. E disse dos percalços e dos lixos humanos que se encontra no meio dos sacos pretos. Lembrou que trabalha para sustentar sua família, e que recebe pouco mais de um salário mínimo. Que enfrenta todos os dias a dura batalha de pegar do chão o papel de bala que o playboy jogou. E ainda ser avacalhado pelo motorista do carro da moda, que pede licença enquanto o gari limpa a rua que ele sujou.
E as ruas limpas iam ficando ainda mais limpas. Os lixeiros mudavam de rostos semanas em semanas. Os anos passavam.  As ruas limpas iam sendo ainda mais limpas. Passaram as estações; as páginas do livro; as ilusões do garoto...
O menino não entendeu nada mais, ficou perplexo. Percebeu que as almofadas não eram sacos de lixos, e que o armário não fazia barulho nenhum. Alias, o garoto aprendeu mais do que isso: ficou sabendo desde cedo o tamanho da desigualdade desse mundo, e continuou a ver o jogador de bola receber milhões, enquanto o gari luta para sobreviver.
E então, foi viver outro sonho...

Os Anjos


Quem são os Anjos que me dominam? Onde estão seu tempo, suas invejas e emoções. Quem são os Anjos que fazem dessa terra um lugar para se viver. Minha luz e proteção, meu Anjo.
Eles, que são mensageiros de Deus, iluminam o nosso caminho. Mostram lá no final a luz que tanto faltava. “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou, a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa e me ilumina.” Amém!
São crianças, disfarçadas de Anjos, ou vice-versa. Mas, onde estão todos estes protetores de mim mesmo? Quando peço a eles que olhem para o lado, que levem minhas preces até Deus Pai, às vezes eles não me escutam. Pedi que eles acabassem com esse mundo ao contrário. Não consegui.
Descobri porque os Anjos não me ouviram. Eles desistiram. Estão lá fora, brincando de fazer brincar. Pulam corda, brincam no balanço, na gangorra, de pega-pega, pique esconde, e sorriem como se nada nesse mundo pudesse ainda ser iluminado.
No terreno das lendas que já vi e vivi, os Anjos estão disfarçados. Eles são o céu e o sol, o sorriso e a lágrima. Santo Anjo do Senhor. Parem um pouco com essa brincadeira. Saem do quintal, voltem para dentro de mim, e me escutem.
Vi, ontem, uma chacina que matou jovens sem qualquer motivo; eu vi o pai brigar com a mãe, o filho sair de casa. Vi por esses dias que a mulher grávida perdeu a vida, o seu marido a aniquilou. Anjos, sentem aqui e prestem atenção: eu vi crianças, como vocês, vendendo drogas, e vi no semáforo dessa cidade, outros meninos oferecendo balas. Não era para eles estarem ali. Eu estou vendo tantas e tantas barbáries.
Os Anjos, através de Renato Russo, me responderam: “Hoje não dá. Hoje não dá. Está um dia tão bonito lá fora e eu quero brincar. Mas hoje não dá. Hoje não dá. Vou consertar a minha asa quebrada e descansar”.
E assim, sem tendências, sem melhoras. Eu vejo no mundo daqui pra frente um enorme descaso. Um desafeto sobre-humano. Não temos as perspectivas que tínhamos na época de meus avós. Tenho medo! Medo de colocar meu filho nesse universo louco, ouvindo as canções da moda e se interessando pelos vícios da moda. Ah, essa juventude, que nem acredita nos Anjos...
Sentei-me para ouvir a resposta plausível que aqueles cabelinhos encaracolados me diziam. E cantaram, através de Renato:
“Gostaria de não saber destes crimes atrozes, é todo dia agora e o que vamos fazer? Quero voar pra bem longe, mas hoje não dá, não sei o que pensar e nem o que dizer. Só nos sobrou do amor, a falta que ficou”.

Rugas


Há alguns dias conversei com amigos sobre o assunto “velhice”.  Dissemos que nos custa a nos acostumarmos com o tempo que passa depressa, sem pedir licença. Tempo que deixa suas marcas e desafios, e ainda lembranças de uma vida bem vivida. E então, nos perguntamos: como será de ser a nossa velhice? Não sei!
Desenterrei algumas fotos que estavam guardadas dentro da gaveta da estante velha da sala. Algumas delas, empoeiradas, me faziam espirrar, e todas elas me trouxeram recordações tristes e felizes. Sinceras e esquecidas. De todas elas, recordações. Algum tipo de lembrança.
Comecei a reparar nos personagens daquelas fotografias. E percebi que o tempo voa mesmo. E para todo mundo, não pergunta a sua classe social, ou seu time de coração, ele apenas passa, corre.
Algumas daquelas pessoas que encontrei na caixa de fotografias já partiram dessa vida. Outras partiram da minha vida. E muitas delas ficaram, e envelheceram comigo. Ao ver fotos da minha infância, ao lado de meus falecidos avós, e algumas no colo aconchegante de meus pais, eu sorri por não ter nada a fazer. As lembranças foram minhas amigas. Minha infância foi cheia de amor familiar (o melhor de todos).
Enfim, voltei a me dedicar a analise dos rostos daquelas pessoas. E me abismei ao comparar a pele macia de minha mãe, que ainda continha linhas tênues de expressão, definindo suas bochechas rosadas de maçã.
Me assustei, pois as linhas tênues cresceram. E por mais que ela lute com o tempo, como toda mulher vaidosa faz, minha mãe envelheceu. Suas mãos estão calejadas. Seus olhos cansados. Seu sorriso ainda é encantador, mas, não ilumina o mundo inteiro como fazia antigamente. O tempo passou. O tempo passa para qualquer um, não se preocupe mãe. Eu já tenho barbas.
Chico Buarque, por exemplo, galanteador em sua época, com seus olhos de poeta e palavras de namorador, está velho. Mentes brilhantes também envelhecem. E suas marcas de expressão são tão evidentes quanto os seus sinais de cansaço. Para ele o tempo também passou.
Não me imagino, ainda, na posição de avô. Mas espero que minha idade avançada evidencie apenas sinais de experiência, e eu deixe por onde eu passar algumas garantias de felicidade e lembranças.
Acredito que a velhice é coisa da nossa cabeça, mãos, pés, joelhos, braços... O tempo passa, nada por aqui é eterno. Fotos talvez sejam eternas, e não evidenciam as inevitáveis marcas que o tempo deixou.

O contador de histórias

Em histórias contadas a gente muda o mundo. Muda as pessoas que aparecem lá e muda até as flores que se destacam nos jardins. Colocamos cores nelas, muitas cores. E as regamos conforme a nossa paciência. As flores, nas histórias, têm vida eterna e são comparadas com sentimentos, também eternos. Tudo muda com o poder de uma história.
Como aconteceu certa vez com o Senhor de terno e gravata que morava trancafiado dentro de sua enorme casa, cercada de seguranças por todos os cantos. O homem era muito sério e não dava bom dia nem ao motorista. Era sozinho, ou melhor, era casado com seu trabalho.
Ali ao lado se encontrava um garoto sonhador, metido a sabichão. Ele ficava admirado pelo tamanho daquela casa, e mais fascinado por nunca ter visto nem sequer o rosto do morador da tal mansão. Certa vez, em sua escola, uma das atividades sugeridas pela professora era descrever em detalhes o teu vizinho. O garoto nem pestanejou. E começou a escrever uma história contando em detalhes como era a vida de seu vizinho.
Mas como escrever uma história contando realmente como eram os passos do morador daquele casarão, se nem sequer passos ele dava? A imaginação do contador de histórias se aflorou, e por incrível que pareça o tal vizinho ganhou uma vida que ele sempre sonhou em ter.
O menino resolveu colocar uma cópia de sua história na caixa de correio do vizinho, com a esperança de que ele, ao ler a fábula, compreendesse o que aquelas palavras queriam dizer. O Senhor leu o que o garoto havia escrito. Então, a partir deste dia, resolveu pelo menos conhecer a sua vizinhança.
A história descrita pelo garoto dizia:
“Meu vizinho é legal, e sempre conversamos quando eu tenho tempo. Ele está sempre cercado de amigos que andam de preto, e aparece toda manhã com um sorriso no rosto andando pelas ruas do bairro. O meu vizinho me conta as suas peripécias de quando era criança e é um bom contador de histórias. Meu vizinho compra pão toda manhã e se estiver quentinho, ele da um trocado ao padeiro. Meu vizinho é legal... Mas às vezes eu acho ele meio calado, deve ser porque ele nunca leu uma história que valesse a pena.Pode ser porque ele ainda não recebeu um abraço sincero, ou talvez ele nunca regou as flores do seu jardim”.
Ao corrigir a redação do menino, a professora, que sabia onde o garoto morava e conhecia bem o homem que vivia naquela mansão, rabiscou a folha com os dizeres: “nota 10 pela imaginação...” e completou: “melhorar a letra”.

Sonhos, versos e poesias

Lembro bem do meu primeiro verso, olhando para aquela garota de cabelos longos e cacheados, e olhos negros de jabuticaba (lembrando a Capitu de Machado), e interpretei meus autores favoritos, escrevendo em linhas tortas e analfabetas em um pequeno gesto de ternura.

Dali, então, não mais parei de me ver em prosas e em literatura. Não mais parei de pensar naquela donzela, mulher de meus sonhos e poemas, de versos e pensamentos. Passei a me ver nas linhas versadas da vida, e em tudo fiz poesias, rimei as rosas e os espinhos, transformei o tempo em meu livro de composições.

Consegui encontrar em alguns segundos dos meus dias inspirações para escrever. Comecei a entender o sentido das pedras e dos espigões, e me vi a vontade para contemplar as rosas que encontrava pela estrada. Que estrada árdua e longa.

Estou caminhando, por vezes vagamente, lentamente, por vezes rápido demais. Tão rápido que não penso nas consequências e me deixo levar por absurdos cometidos por minhas limitações. Ainda estou caminhando em direção ao amanhã e enxergo a eternidade em cima do pico, o mais alto lugar da vida. Lá que eu quero chegar.

Abri um livro de poesias, que belo livro de poesias. Lá eu me esbaldei; me encontrei,e tomei um novo rumo. Foi naquele tempo o meu primeiro livro de poesias, que continha entre outras palavras, algumas frases sobre a sinceridade do amor, e dizia em entrelinhas a divindade que se espera de quem vive para amar ao próximo.

Escrevi, então, num papel de guardanapo a minha primeira impressão sobre o amor. Que tanta dor ele causa, pois, porque tanto sufoca o amor? Amar é para os nobres, pobres são aqueles que não têm prazer de amar nem olhos de jabuticaba. Esqueci por segundos de adorar a mim, e pensei em tantas pessoas... Tanta família... E que segundos intermináveis.

Os meus pensamentos se transformaram em prosas. Prosas de amizade, entre alma e coração. Foi essa a intenção divina de Deus, descobri. Ele me enviou para amar e seguir o teu mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que este”.

Continuarei caminhando, contemplando em dias chuvosos e de sol o pico mais alto da montanha da vida. Lá estão os sonhos, a realização, é lá que eu vou chegar. E depois, quando eu já estiver extenuado de tanto me entregar aos meus objetivos, vou traçar outros planos e caçar outros picos. Amarei ao próximo em todos os meus segundos e chegarei aonde meus passos quiserem me levar.

Do amor e outras providências

Calafrios! Foi isso que eu senti: calafrios. Senti calafrios quando o defeito dela chegou ao meu lado. Não foi nada tão normal e bom como eu imaginei que seria, sonhando acordado na noite anterior. Mas, foi seco e fiquei perdido, me perdi do mundo e do tempo, e me perdi em seu perfume, em seu beijo: o meu primeiro beijo.

Acho que ela já era experiente, ao menos demonstrava ser, pois, me deixou sem jeito quando teve a iniciativa que toda mulher ou menina espera de um homem apaixonado. E eu era apaixonado, e mesmo sem saber o que era paixão, eu me cativei por ela. Alguns meses depois, eu a esqueci. Paixãozite aguda, que logo acaba e que nunca passa.

Talvez todas as pessoas desse mundo romântico saberão que o primeiro sentimento bom não dura tanto tempo assim, e é apenas a porta de entrada para o amor, que um dia irá durar para sempre.

Nunca mais a vi. A última notícia que tive daquela primeira paixão foi a de que se casou e se separou, mas casou novamente. Ela com certeza não se lembrará de mim. Mas não me importo, eu me lembro daquele dia em que ela abriu as portas da minha covardia.

Depois de então conheci outros lábios e outros defeitos. Confundi-me entre amizades e namoricos que não eram para acontecer. Suspirei e me entreguei a corações que não mereciam e até derrubei lágrimas por uma solidão desvairada e desesperada. Passou.

Até que encontrei o prometido sentimento eterno, aquele mesmo que ouvi dizer em histórias de contos de fadas e livros que ninguém lê. O amor acontece, e comigo aconteceu lá pelo século passado. Encontrei-a numa festa boba do meu coração, que acordou em um dia nublado e quis-te ter. Desde aquele dia meus conceitos mudaram, e os dela também se esqueceram.

Menina bela, tão bela e inteligente. Conhecia como ninguém os meus segredos, e revelou até as minhas doces artes de enfrentar o mundo sem medo algum. Ela me mostrou que é importante ter medo, pois, o medo te da uma sensação de liberdade, depois de enfrentá-los. Lembrei-me do meu primeiro beijo, na verdade o esqueci. Pois, com ela, eu realmente comecei a viver.

Juntamos os trapos, os corações, as nossas rotinas. Passamos um bom tempo planejando como seria a nossa longa estrada, cheia de flores, pedras, montanhas e pensamentos positivos. Talvez tenha sido esse o nosso combustível para ainda, depois de cinco décadas, conseguirmos nos cativar por nosso olhar.

Não conquistamos tudo o que planejamos, não. Mas, entre todos nossos mirabolantes planos, não constava viver tanto tempo ao lado de uma pessoa. Vivemos juntos. E ela partiu. Não faz muito tempo, talvez 2 ou 3 anos. Talvez 2 ou 3 séculos, ou meses, horas. Talvez ela ainda esteja aqui.

Me conforta saber que irei de encontrá-la em breve, em qualquer lugar por aí. Enquanto isso, eu tento decifrar os pensamentos da atual juventude, que, infelizmente, não sabe o que é ter medos e sentimentos.

Sentei-me na praça, no mesmo lugar onde meu coração festejou a chegada do eterno, ainda na época do preto e branco. Tenho vontade de mostrar registros daqueles dias ao casal de enamorados que está no outro banco, mas aqueles fatos estão guardados apenas em minhas memórias. Certamente o menino de 13 anos e a garota de 12 não irão ouvir um velho romancista do século passado.

Então, deixo que o tempo cure as minhas dores. Deixo que o tempo apresente ao mundo o medo, o primeiro beijo, a paixão, a solidão, a sensatez e o amor, que, para quem ainda acreditar, durará para sempre e depois da eternidade... E depois...E depois...

Enquanto a cidade dorme

Lá fora, entre os galhos secos de uma árvore velha e entre os gestos hipócritas de uma cidade quieta e infeliz, um homem sobrevive andando pelas ruas escuras, becos e calçadas estreitas. Chutando pedras e amassando flores, poetizando as suas decepções, procurando um bom motivo para começar a sua vida, assim que o dia nascer.

Ele não é capaz de fechar os olhos e apagar a luz de seu quarto, como todas as noites as pessoas normais fazem. Aquele nobre rapaz não tem quarto, e nem luz. Ele não fecha os olhos, com medo de deixar passar a oportunidade de sua vida. Quem sabe, numa dessas esquinas ele não encontra o fim do túnel? Acontece que ele já foi feliz e já adormeceu no aconchego de um abraço. Abraço apertado que se desfez.

Era tão contente que jamais imaginou que a sua grande e plena felicidade deixaria a sua vida. E mesmo com os olhos vidrados em um mundo desonesto, que consumia as suas vontades dia e noite, ele ainda pensava em presentear a sua alma com sorrisos, em vão.

Ele era grande, um enorme e formidável Senhor dos negócios. E vivia em sua vida ofertando mansões e aquisições ao seu ego. Se gabava, esbanjando seus bens da moda por toda a cidade pobre. Tinha ao seu lado pessoas bonitas por fora e pobres de alma, que sumiram do dia pra noite, depois que tudo adormeceu.

E o rapaz perdeu o que tinha, e ficou apenas com sua alma lavada, depois de viver apenas no consumo e esquecer o quão bom é viver em sentimentos. Arrependeu-se. E se partiu ao meio. Encontrou um tal de “sentimento bom” nos olhos de uma amada. Os olhos dela: eram jabuticabas, que o devoravam durante intermináveis segundos.

A noite caiu. Os olhos se abriram. O sentimento bom acordou daquele sonho. Sua vida se desfez. E por um segundo ele ouviu a voz da razão:

- Calma rapaz, calma. Não tente ignorar o mundo inteiro com o teu sorriso que não tem alento. Não tente me dizer para seguir os teus passos, sabendo que nem mesmo você sabe para onde eles vão te levar.

E enquanto a cidade dorme, ele continua procurando a luz no fim do túnel, ou um sentimento bom, capaz de deixar essa esquina da vida se perder por aí.

João-de-barro

Disse a ela.
Não vá embora.
Nem te atrevas com outros pensamentos.

Não vou deixar você partir, nem por um segundo sequer. Longe daqui não conseguirás viver, nem em pensamentos. E suas lágrimas serão frequentes em teu rosto, elas encontrarão brevemente o chão. Os teus sorrisos amarelos e esquecidos, as tuas felicidades serão raras. Quantas são as alegrias que te ofereço, mesmo sem eu merecer? Então fique, fique aqui.

Eu a supliquei que não partistes, por muitos e muitos anos, pois, maior em mim era o medo de perdê-la. E ela amava-me quieta, sem dizer a essa vida. Um dia ela me ensinou que de repente, o amor não merece a solidão. O amor em silêncio é como o medo. É defeituoso, é incoerente. Amar em silêncio é como perder um dom divino, é não ensinar ao infeliz como é bom viver em alegria.

Talvez por besteira de ser um garoto mimado, mal educado exatamente por você, eu a prendi em meus sentimentos e você ficou nessa casa pelo resto da vida, e a vida ainda não passou. Fiz em termos e em horas a sua felicidade resplandecer.

Você sorria de manhã, ao pensar em meu bom dia, e dormia com a felicidade em teus sonhos, por estar ao meu lado. Era amor. Eu não sabia e nem você. Nem o mundo sabia o que era o amor: não passou! Nós o cultivamos, e o mundo ainda não aprendeu a amar.

Ainda pequenino e quieto, na contramão de todas as tentativas de acertar, eu fui incorreto com os teus trejeitos, pois, não os entendia. Quem me dera, agora, depois de velho, compreendesse tamanho sentimento que você demonstrava ao dizer que jamais me amou. As pétalas vazias da rosa que te dei e que foram jogadas ao vento, ainda me recordam a você.

Nunca se esqueça. Se um dia eu partir desse mundo e não te levar, compreenda tamanha generosidade, eu te prenderei dentro de mim, na casa do meu coração. Eu te cuidarei. Jamais vou te deixar, e nem ao menos deixar partir o teu amor. Em qualquer solidão sem fim, grite à tristeza o teu sentimento, e mude o teu semblante. Eu ainda estarei com você. Em teu esplendor, na tua face, em teus olhos, no teu futuro, na tua casa.

A minha milésima poesia

Engana-se quem imagina que encontrará nas palavras expostas nas linhas deste texto um tom romântico. Mas entende-se, quem já leu ao menos um dos outros 999 textos de minha autoria, que eu não saberia escrever sem adequar às minhas palavras um bom tom de poesia. Pois, eu simplesmente entendo que a poesia deveria reger o mundo, e quem sabe, todas as escrituras expostas por aqui.

Hoje eu escrevi a minha milésima poesia, e afirmo que difícil não é escrever mil poesias, o difícil é ter para quem escrever apenas uma. Vivemos em uma absoluta e absurda comodidade com a leitura, com frases e mesmo com o diálogo cotidiano, o famoso olho no olho, que também não deixa de ser poético. As pessoas não mais se interessam por palavras ditas e nem por flores ganhadas, muito menos por um olhar sincero.

E por que escrever poesias? Não é apenas por mim e para acalmar a minha alma. Não é apenas para expressar o que sinto quando encontro o perfume de minha amada. Não escrevo poesias apenas para demonstrar o meu amor ao mundo. Mas também escrevo frases poéticas num papel qualquer, para fazer alguma pessoa sorrir, e continuo a escrever para fazê-la chorar.

Poesia! Não a encontramos apenas em palavras, mas ela se estende a tudo o que é de mais especial em nossa vida. O Alento se encontra na tempestade e no sol que chega pela manhã. No arco-íris no fim do dia, e no amanhecer da outra estação.

Eu desejo ao mundo metade de minha poesia. Uma parte de meus sentimentos bons e um pouco de meus defeitos. E espero, sinceramente, que todos os que aqui habitam consigam honrar com os meus sonhos e esperanças.

O mundo precisa de uma parte de cada um de nós. A parte boa e linda que vigora um sorriso sincero e um doce desejo de mudança. Somos o sentimento do mundo e um pouco mais que isso: somos poesia, mil e tantas poesias.

Eu não vou escrever mil poesias para ela.
Mas vou a sorrir mil vezes, enquanto ela precisar.

Velhos adoram gatos

Como é difícil o fim da vida. Permanecer sentado e a pensar em tudo o que já se passou durante os anos, tentando em vão mudar alguma cena, algumas palavras e tantas pessoas. Em certas histórias nada valeu à pena, as estações passaram como dias e noites, os anos voaram como os sorrisos sinceros, e já se planeja um lugar ao céu.

O fim da vida remete às mais honestas sensações de tranquilidade, esperando, numa cadeira de balanço na varanda daquela casa afastada da cidade, a luz do fim aparecer. Sensações que desaparecem em algum tipo de emoção. As mãos limitadas e calejadas, e os cabelos brancos que relatam experiência, são sensações de que a intensa vontade de viver não foi mero costume.

É perto do fim que se percebe onde aconteceram os erros e acertos, e define-se que bem aventurada é aquela pessoa que passa pelo mundo com maestria. E um sorriso solitário, em meio ao nada, significa um tempo a mais para viver. Os amores que passaram fazem falta, principalmente em dias frios.

No fim desse mundo é que se percebe onde residiram as suas amizades, e o quanto significa as suas ausências. Aquelas que moraram durante todo tempo em seu coração e outras que permaneceram apenas em certos momentos. Nessa vida, e no final dela, é que se entende o tanto de importância que uma amizade te representou. A amizade é tudo, inclusive lembrança, saudade.

Antes de perguntar a um Senhor sobre o que ele acha da vida, resolvi questioná-lo sobre a morte. Ele me disse que a morte tem dele apenas o perdão e a vida tem a sua eterna gratidão.
Eu, admirado com sua resposta e um tanto impressionado, aprofundei-me no tema. Ele então me explicou metade de sua existência, desde o primeiro minuto em que ele lembrou existir.

O Velho me ensinou sobre as amizades. Sobre livros e sobre flores. Me falou sobre os teus momentos felizes e as lágrimas que um dia insistiram em cair. O Senhor, de tantas décadas vividas, terminou a sua prosa acariciando um gato que considerava ser o seu melhor amigo.

O gato não tinha nome. E atendia a qualquer chamado. Curioso sobre a existência desse bichano eu perguntei ao Velho o porquê, depois de tanto tempo de amizades e amores, um gato se transformou em seu melhor amigo.

Ele meramente me respondeu:
- Velhos adoram gatos, eles não abandonam ninguém, muito menos no fim da vida.


A crônica da vida que me inspirou você 

Por diversas vezes li aquela Crônica em que o menino dizia à bela moça sobre o seu amor. E por tantas e tantas vezes eu resolvi escrever minhas palavras sinceras, inspirado por aquele texto, de autor desconhecido.

Descobri então o poder de um belo texto harmonioso, que da razão a uma vida e alimenta um destino. Cansei de ver a menina chorar pelos sentimentos do poeta, que se expressava em uma estrofe torta, em palavras bonitas. O poeta, que na verdade sofria por alguém, era o dono da frase de destaque do diário da jovem princesa.

E não há motivo maior do que uma frase num diário, para inspirar um autor. Pois, o autor se inspira com a emoção de seus leitores. Mas a jovem perdeu o seu diário, e derrubou suas lágrimas no chão...

E isso se transformou em poesia. Como pode o sofrimento de alguém ser a inspiração de outro nome. Mas, quando o amor faz sofrer, qualquer Ser de bom coração se transforma em poeta e escreve, mesmo que num papel rasgado, lindas frases e melodiosos sentimentos. Passei todas essas estações escrevendo poesias pra você.
Pois, o nosso romance começou há mais de uma década.

E quando eu digo para qualquer pessoa sobre o tempo em que estamos juntos, alguns olham torto, outros não acreditam, e determinadas pessoas superam as expectativas e enfim exclamam: “está na hora de casar!”. Eu abro um largo e vasto sorriso, respondendo à altura, digo sobre a nossa data, e por muitas vezes me empolgo e conto por um longo tempo a nossa história.

Há pessoas que não têm paciência de ouvir, outras não me deixam terminar. Mas não tem problema, eu consigo chegar até na parte em que te amo. Pois, essa parte está bem no começo: numa roupa azul, da cor do céu, e nos olhos grandes e brilhantes, encantadores, que me dominaram desde a primeira vez que te vi.

Enfim, depois de passar por tempestades e saudades, chego ao tão esperado momento de terminar essa história, e convido o ininterrupto ouvinte, a comparecer ao nosso casamento, no local, horário e data em que está marcado no convite de papel honroso, munido de linhas finas douradas.

E nesse convite está uma breve explanação sobre o nosso sentimento:

- O nosso amor não é apenas um sorriso. Ele já foi a solidão, a saudade. O nosso amor não é apenas esse olhar apaixonado. Ele é o ciúme, é vontade. O nosso amor não é apenas um beijo e um abraço. É o respeito, o tempo, é a nossa história O nosso amor, enfim, é um plano de Deus, o nosso amor é um sonho realizado.


Prefácio 

Eu sou feliz por mil e dois motivos, mas não saberia dizer cada um deles, e nem explicar a quem quiser saber. Nem sequer alguns desses meus sentimentos são explicáveis. E não conseguiria apontar o caminho para o meu sorriso ao andante da rua de cima.

Na verdade, passei por mil e três dificuldades antes de me tornar um alguém sorridente. E não foi tão simples, como possa imaginar. Antes, eu era doente. Um acamado, desistente. Tudo por causa da solidão sem fim, que insistia em me derrubar. Que solidão eu sentia, mesmo rodeado de tanta gente do bem.

E foi entre as idas e vindas de meu sorriso, que aprendi a dar valor até para a solidão. Quando eu insistia em saber onde estaria o caminho da felicidade, deixei de viver. E quando eu desisti de procurar, aprendi a ser feliz. Descobri então que não existe nesse mundo a felicidade plena. Temos que passar por tantas razões de infelicidade, antes de encontrar e viver sob a eterna alegria.

Encontrei a alegria e vivi por meus motivos. Até eles me abandonarem. Não sou mais feliz, pois, pensei que eu não precisava me preocupar com o caminho para a alegria. E ela me abandonou.

Agora, estou em busca dessa diretriz, e prometi a mim que não deixarei jamais de procurar por um sorriso radiante e sincero. Aprendi, então, que não existe o caminho para a felicidade: a felicidade é o caminho!

Mas, antes de ser feliz, deve-se aprender a sofrer. Senão, o seu livro da vida não terá uma introdução à altura. E depois não saberás dar valor ao que te faz feliz.


As raridades dessa vida 

Passei pela rua detrás daquela grande escola estadual, e vi um garoto, parecendo um bicho, mexendo e remoendo o latão de lixo, até encontrar alguma sobra da feira livre, que aconteceu naquela rua, naquela manhã. Talvez ele encontrasse massas de pastéis mordidos, pedaços de frutas e verduras rejeitadas por quem passou por lá. E o menino encontrou. Ele encontrou um pedaço de pão recheado com queijo, o suficiente para fazer a sua primeira e última refeição do dia.

O garoto de meia estatura e calça rasgada não era aluno daquela escola, e de nenhuma outra da cidade. As brincadeiras dele não eram de bola e nem de peão, a brincadeira preferida era lutar por sua vida, e comida, em plenos 10 anos de idade – no máximo. O curioso, mais do que ver uma criança morando na rua, aconteceu quando aquele menino sentou em frente à escola estadual para se alimentar, e ficou olhando as outras crianças de sua idade, bem arrumadas e humoradas, correndo e brincando na hora da saída. E como se ele fizesse parte da brincadeira também, gargalhava vendo as peripécias daqueles outros meninos.

A raridade aconteceu quando a malícia e inocência de qualquer criança fizeram com que ele fosse convidado a participar da brincadeira também. Mas ele se assustou e correu em direção a outro lugar. Reação tão rara de se imaginar em outros tempos, quando em brincadeiras de crianças de 10 anos sempre cabia mais um, e não existiam sustos e nem medos, muito menos próprios preconceitos.

E caiu a chuva no final da tarde, chuva forte com um vento da mesma coragem, quebrou as telhas de casas pobres, e os vidros dos carros que estavam parados na rua naquele momento. Atingiu densamente os moradores de rua, a ponto de um deles ir parar no hospital. A chuva era tão forte que desmontou um dos jardins da cidade. Mas uma flor daquele jardim não se moveu. E no outro dia, quando o sol raiou, ela era única, e de tão rara coragem que alimentou os moradores em volta do jardim de esperança. A tão rara esperança!

Esperança era o motivo do olhar brilhante que munia uma garota, chamada Flor. Ela estava dormindo quando a força do vento e da chuva destruiu o seu lar, e levou embora as poucas conquistas de sua família. E o jardim em que ela brincava de cantar e dançar, todos os dias, não estava mais lá. A garota perdeu o seu sorriso ao ver ir embora o de seus pais. Mas ao caminhar entre os estragos, encontrou um Ser do mesmo nome que o seu, e tão viva quanto a sua doçura.

Ela correu para falar a seus pais que nem tudo estava perdido, e que uma pequena flor a chamava para brincar e construir todo aquele jardim novamente. As frases daquela garota foram a razão para que o antigo vilarejo com um pequeno jardim se transformasse em um grande bosque, perfeito para sonhar, e apelidado de Esperança.

A tão rara esperança, tão difícil de encontrar, tão rara quanto pessoas que não acreditam que o impossível não existe para quem sabe sonhar. São raros os sorrisos, e os sonhos realizados. Porém, há uma raridade na vida que alimenta o meu jardim de esperança: o amor. E amor a qualquer Ser e a qualquer desejo é o começo de novos sonhos. E assim, nessa vida, em uma brincadeira de criança ou num dilúvio vindo do céu, a raridade será a tristeza, mas da tristeza é fácil cuidar: deixa que o amor sabe o que faz!



Poeme-se

Quando quiser dizer a alguém sobre o tamanho do seu afeto e, por um descuido, faltar a palavra dita, acalme-se, fale com os olhos, e deixa o teu coração te dominar, como se fosse um poema. Mexa-se como um poema de Drummond. Pois, os poemas de Drummond não são nada mais do que almas do bem, que se vestem de versos e declarações.

São versos escritos em qualquer papel e ditos no silêncio de qualquer anoitecer, que alimentam os amores jogados por esse mundo. Os amores não seriam tão idolatrados se não existissem alguém a declamá-los. Então, não passe por essa vida sem um tanto das palavras de Leminski e Quintana em sua alma.

Leia um poema em seus dias tristes e em seus dias alegres. Leia um poema em qualquer hora, em qualquer lugar: poeme-se. Leminski-se. Drummonde-se. E que o mundo Quintana-se.


Minhas velhas percepções de Paris 

Como eu posso esquecer do dia em que estive naquele lugar, deitado na grama verde, imaginando em como seria a minha descrição do céu, que contemplava o dia com suas nuvens, formando lindos desenhos e ilustrando a minha vida.

Não sei descrever o que meu coração sentiu ao passear pelas ruas molhadas de sereno e vento gelado que ousava a minha rotina por aquele lugar. Quando o Senhor quieto, que vestia uma boina e deixava sua bengala de lado, sentado no banco da praça mais perto, alimentava os pombos brancos e negros, e a sua rotina de um homem esquecido, eu anotava tudo dentro de minha memória.

Vaguei por aqueles lados românticos imaginando o que falaria à minha amada ao chegar ao seu encontro. Não sei se descreveria a mulher mais linda de toda a rua, que me deparei em uma esquina, ou então, mentiria que ela é a mais admirável desse planeta. Resolvi ousar dizer que aquele lugar não faz parte desse mundo terráqueo: é mais belo.

A minha amada não andou pelas ruas ao meu lado por medo de se perder em tentações, pois as tentações estavam por todo canto, desde joias ricas por si só, até em vontades e pensamentos que eu não poderia presenteá-la.

Os homens altos e encapuzados, cachimbando e andando depressa, não poderiam saber como era bom se libertarem de seus casacos peludos e por um segundo se transformarem em pessoas de boa conversa.

Andei por becos escondidos, pequenos e escuros, passei por bares e lares em que fiquei mais de um bom tempo os admirando, e a cada passo que eu dava naquelas ruas históricas e inesquecíveis, o vento me chamava a ficar.

Eu sorria com as crianças brincando de correr no Parque mais lindo que já se viu, banhados por um Sol que entendia a hora de se esconder entre as nuvens e a hora de aparecer para irradiar a brincadeira. Naquele lugar, eu não vi flores murcharem.
Pois as flores que vi nascer, eram feitas de amor e regadas com uma dose de afeto.

Naquele tempo, e naquele lugar, eu não me deparei com guerras e nem com algum tipo de desagrado. As pessoas eram tão sonhadoras quanto eu e as vontades do mundo eram tão surreais quanto as minhas velhas percepções de Paris.



Se eu falar com uma criança 

Se eu fosse falar a uma criança sobre a beleza de uma música ou de uma poesia, se eu fosse explicar a ela sobre a importância de se ler livros de histórias e de contos, eu ficaria enchendo o seu tempo por muitos minutos. E ela não ligaria às minhas ponderações, pois, gostaria de sair correndo dali e ir brincar pra outro lado.

Porém, mais tarde eu insistiria, e voltaria a explicar a essa criança sobre o poder de uma poesia, ao som de uma bela música ao fundo. E ela enfim me escutaria com atenção, e ainda, como toda criança tão inteligente que é me questionaria a cada três palavras ditas. E eu a responderia com o maior prazer.

Digo isso, pois gostaria de presenciar outro mundo daqui a alguns anos. Digo isso, pois criança deve saber o poder de coisas boas e não apenas presenciar as armadilhas da vida. Digo isso, pois as crianças que aprendem sobre poesias e brincam com livros de contos são a minha esperança.

Se um dia eu fosse falar a uma criança sobre como é bom brincar de bola ao invés do vídeo game e como é legal ler um livro ao invés de computador, certamente eu a encheria com palavras chatas por algum tempo. E mesmo assim eu insistiria até ela me entender, apenas para sair dali e ir para o seu mundo virtual.

Mas, mesmo assim, eu ficaria satisfeito por ter plantado naquele pequeno Ser uma sementinha de curiosidade, por um livro ou por uma bola. E eu sei que mais tarde ela iria procurar saber o que tem de tão interessante num livro de capa dura.

Se eu fosse falar com uma criança sobre o seu futuro e o meu presente, ela pensaria na mudança desde já e faria os seus planos mais inteligentes... E seria a diferença, e gostaria de ler, e diria a seus amigos palavras bonitas, brincaria na chuva e na terra, aprenderia a rezar. Se eu fosse falar com uma criança, eu seria o “Tio” chato, mas sentiria muito orgulho de ter ensinado a ela as coisas boas e essenciais da vida.



Amar, remar, re-amar 

Eu descobri, em meados dessa vida, qual é o câncer do mundo; o grande mal de toda a hipocrisia que nos aproxima, a cada dia mais, do caos. Descobri, observando ações e expectativas de muito Ser Humano. E hoje concluí que a maioria das pessoas não sabe diferenciar o amor da vaidade, e sobrepõem a mentira em suas vidas, mentem a qualquer alma, e não descobriram ainda que mentir para si mesmo é sempre a pior mentira, como dizia o poeta.

Perguntei a um apaixonado velho bardo sobre os teus sentimentos do mundo. Ele disse, olhando em meus olhos, que todos deveriam aprender a amar como em sua época. Todos que hoje vivem aqui deveriam saber que o amor é muito mais do que simples abraços e palavras de carinho, o amor é a consequência de outros símbolos de uma vida correta, como o respeito, a admiração, a paciência e a inteligência.

Disse ele que as pessoas, em toda essa estação, não conseguem amar, e nem se preocupam em aprender essa dádiva. E isso é um dos desprazeres desse mundo, e deveria ser o motivo de uma manifestação plausível pelas ruas. Deve-se aprender a remar contra o desamor.

Depois de ouvir com calma as palavras daquele Senhor paciente, admirável e inteligente, eu descobri qual é o mal desse universo: a falta de todos os símbolos que os nossos antepassados cultivaram, e que agora são deixados de lado.

As pessoas devem aprender a dar a volta por cima, e a não viverem presas no seu passado, é preciso criar um novo futuro. Deve-se aprender a re-amar, e para isso, é preciso superar os males, e conviver com a derrota. Para re-amar é preciso descobrir que a vida não é feita apenas de conquistas, e chorar é uma glória.

Ainda leio livros e acompanho histórias de últimos romances, e me alimento de poesias escritas por Drummond. Ainda ouço a canção da moda de 80, que tocava nos rádios de pilha frases de Renato e outros ícones sonhadores daquela geração. Eu ainda acredito que sou o começo da mudança, para que um dia o mundo seja feito apenas de amor.

“Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.”


Violetas 

Hoje o dia está parecido com você: lindo, lindo. Olha lá, os pássaros voando, as nuvens andando, o mundo girando... Como faço para me apresentar?

Eram esses os pensamentos do garoto apaixonado.
Ela era linda, linda como um dia de sol. Morena dos cabelos cacheados, voz doce como um perfume de rosas, cheiro de violetas, um sonho de amor. A perfeição tomou conta do seu ser, e fez dela a mais bela daquela cidade.

Ele, tímido, educado, bobo, enciumado, ficava de canto admirando a plenitude. E num gesto de amor (amor sincero, como nunca se viu) num bilhete ele se declarou. Jeito simples de dizer que ela o encantava como nunca alguém já tinha feito.
Naquele banco da praça, quebrado, vazio, rasgou um papel e num garrancho improvisado ele disse em seu momento de Shakespeare: “De todas as rosas do meu jardim, você é a violeta”. Frase cômica com um fundo de ilusão, verdade precisa.

Ela era a violeta. De rosas já bastavam os clichês. E as violetas são sensíveis, precisam de carinho, amor, precisam de atenção. As rosas todo mundo quer, qualquer um tem, qualquer normal gosta.
Ela sorriu. Mostrou o mundo. Abriu um coração e entrou, sem pedir licença. E ficou, e está lá até hoje, num cantinho especial, ao lado de sua flor.

E então o mundo o provara. Cada um para o seu canto. Cada olhar para seu lugar. Os dois foram iluminar outras vidas.
Ele, com seu jeito de romântico, um antigo apaixonado, cantou macelas por onde passou. Cedeu sua vida por outras, fez-se de sorrisos e carinhos. Foi bobo, confundiu acalantos com amor, paixão com juízo, e sofreu.

Ela, com sua perfeição de menina, dedicou seu tempo a outros amores, foi motivo de paixões, loucuras e desespero de garotos fogosos. Fez-se de tempos em tempos, mudou seu jeito, rubricou sua beleza, e continua a venerar as violetas.
E um dia, quando tudo ainda tiver sentido, e o dia de sol lindo fizer lembrar um bilhete escrito por um coração, eles vão se reencontrar. E assim amar, como se as violetas nunca tivessem murchado. Como se os sonhos fossem reais. Como se a eternidade dependesse de um único amor.

‘De todas as rosas do meu jardim, você é a violeta’.



Lá pras bandas de um coração 

Quando você chegar lá, sente-se, respire. Vai estar cansado de tanto procurar e andar por aí ouvindo a canção mais bonita de seu figurino. Vai estar exausto de tanto e por tantas vezes mentir para si mesmo, e não vai nem sequer pensar em partir pro outro lado.

Ao chegar lá, não se assuste com as lágrimas que espontaneamente cairão, e nem com o sorriso que francamente vai iluminar o seu mundo. Não se apavore com os segundos intermináveis que farão o seu coração parar, nem com os primeiros e últimos pensamentos do dia, que serão os mesmos. Você vai entender que tudo o que passou e que por onde caminhou, tem o seu propósito.

Quando você chegar lá, segure com força, agarre, não deixe partir e não se deixe mentir de novo. Esqueça a inveja dos alheios, e saboreie a razão de sua existência. Quando você chegar lá, fique até a eternidade, e depois que ela passar.

Lá, pras bandas de um coração, você vai cantar o pra sempre, vai dar valor ao suspiro demorado, e para as pétalas que secaram... Lá, pras bandas de um coração, a trilha sonora é o som dos anjos, e o amor é a missão divina, que Deus te enviou para cumprir.

Seja feliz lá pras bandas de um coração.



As minhas chuteiras ainda são pretas 

Posso escrever os meus versos tristes para te dar, que você vai dar vida às minhas palavras e vai alimentar os meus dias de esperança. Você, apenas com o teu sorriso de topázio, ilumina o mundo inteiro, inclusive o meu. Mas não vou aqui dizer que colocarei o seu nome nas nuvens, com uma declaração de amor sob o sol, ou que escreverei junto às estrelas o quão é lindo sentir o teu sentimento. Nem vou falar a você três palavras belas e depois te dar uma rosa, pois o tempo já levou tudo isso embora daqui.
Hoje as declarações não existem em forma de canção, nem plagiadas de Renato Russo e Cazuza, não existem mais os poetas da madrugada, que em serenatas criam frases sinceras, e o mundo nem é assim tão romântico, ou tão antigo.
Só peço um minuto da atenção das mulheres de Vênus, e do tempo desse tempo. Um pouco de coração no ser humano que hoje vive aqui, só queria no mundo um pouco de antigamente. Não estranhe, então, se nessas frases eu me declarar, e me instigar com seu amor. Pois quando penso nos teus olhos sorrindo por essas citações apaixonadas, me lembro da frase que minha avó dizia: só é amor, quando acontece.
E que pena que os netos de hoje não ouvem os seus avós. Se soubessem o tanto que eles têm a ensinar, o tanto de sonhos bons que têm para compartilhar. É difícil de imaginar esses avós sem netos para ouvir. Quanto desperdiço!
O tempo da brilhantina passou. As rosas murcharam. O destino é hoje. E não é como um dia alguém sonhou. Não mesmo! Pois não acredito que alguém um dia tenha planejado viver em rebeldias, ouvindo a canção da moda que fala da guerra, e esquece a paz. Não me contento em pensar que talvez um dia alguém tenha planejado venerar a felicidade, antes de encontrar o amor. Não acredito em felicidade sem ele.
Ontem, eu me vi acordando em plena luz do mundo, e não queria sair de onde eu estava, no acalanto demorado de minha mãe. Escuro, quente, quieto, como imaginava que o mundo iria ser. E acordado, chorei feito gente grande, pois estranhava estar ali, num lugar tão gigantesco. Mas não demorou a me acalmar, nos braços firmes e aconchegantes de uma donzela. Eu mal sabia que tantos anos depois, o meu desejo é voltar àqueles braços. Me digas que sou antigo e antiquado demais por ainda venerar o teu afeto, e considerar ele a parte mais importante de meus dias.
Não me chame de maluco, então, por estranhar o futebol de ontem, onde teve momentos em que eu não sabia se prestava atenção nas chuteiras dos jogadores ou na partida emocionante que acontecia naquele gramado. Antigamente, as chuteiras eram apenas pretas, e o amor era o enredo das lindas histórias contadas por meus avós.


Uma crônica de amor 

Tem horas que o melhor a fazer é fingir ser mudo, surdo, cego, errado.

Assim, você evita as falácias, as malícias, o mal olhado.

Mesmo se estiver correto, o mundo falará ao contrário
E se estiver agindo certo, o mundo irá para o outro lado.

As vezes, tem dias, que o sol nasce apenas para algumas pessoas.

Tem noites que as estrelas aparecem apenas para certos olhos

Tem horas que é melhor estar bem com a sua sombra do que com o mundo

É melhor amar a si antes de se importar com outro coração
As vezes, tem dias, que o melhor a fazer é fingir ser errado, surdo, cego, mudo.

Mas o mundo não diz, o mundo condiz.

Aprenda: errado mesmo é mudar a sua essência para agradar outro alguém.

Se é amor, meu amor...
Qualquer amor lhe convém.



Uma poesia escrita por Deus 

Tarde da noite de ontem eu fui ao encontro de sua beleza, e minha euforia era tão inevitável que eu abria um largo sorriso a cada três palavras que você cantava. Não queria deixar de olhar em seus olhos, e nem ao menos deixar-te pensar um pouco, por medo de te perder.

Mas logo me absolvi de toda a alegria que eu sentia, entendi, enfim, que um coração apaixonado sorri sozinho, sem motivos, sem razão, é bobo, é deslumbrado. Descobri sobriamente que você era a razão daquele calafrio em minhas mãos.
E quando olhei para o céu, percebi: as estrelas brilhavam para te contemplar e a lua era a única luz que nos iluminava, soube que eu não estava ali por acaso, e não era o acaso que me fez te encontrar.

E assim, lindamente, as tristezas de meus dias de poeta se transformaram em poesias, percebi que tudo o que escrevi até agora, nos domingos chuvosos, nas madrugadas em solidão, na flor que se revela, era pensando em você, pois, o meu destino já te namorava, sem me dizer.
Chegou a hora de te encontrar. E faz parte de minha lista de desejos segurar o seu mundo em meus braços, e apertar, e guardar, e amar como se fosse meu. Não entenda isso como um defeito de gente grande, os meus sentimentos são tão honestos quanto os de uma criança.

Não precisa dizer o que sente por mim, meu coração está feliz.
A flor desabrochou no canto escuro dessa solidão e respondi a ela sobre o meu passado: ‘eu não vivo mais lá’. Assim, sorri e olhei para você, que com um beijo me lembrou o amor.

Amor? Ele está a um passo da paixão. É a consequência de nós dois. É um defeito que se abstrai. Uma luz que se acende. Uma dádiva de Deus. O nosso próximo passo.
Digo isso para a minha ilusão, que estava perdida por aí, procurando um sentimento para se agarrar. E como vou deixar você partir, sem ao menos dizer o que sente? Não me diga que quer acordar, bem agora que esse sonho começou.

O meu destino te esperou e enfrentou todas essas angústias para um dia te apresentar a eternidade. Quem entende de sorrisos, sabe que nem todo palhaço é feliz, e minha vida, até agora, sorriu sem saber, sem pensar, sem você.
Enfim, sei como é bom sorrir por outro sorriso. Enfim, sei para quem são essas poesias que escrevo, nas linhas tortas de minha vida. Enfim, descobri que é para você as minhas sinceras palavras de amor.

Entendi, ao fechar os olhos no fim da noite memorável: o amor não é acaso, ele é uma prosa dos anjos, uma poesia escrita por Deus, pensando no destino, pensando em nós.



Uma vida para Reis

Rua vazia, chuva caindo sem parar e um vento gelado, faziam da noite de domingo o horário propício para uma sopa quente de feijão e uma cama aconchegante. Mas para Reis o dia não era nem de domingo. O vento frio que cortava a pele e a chuva que não cessava eram costumes do seu corpo. Indivíduo forte e simpático, morador de rua, passava a noite em qualquer banco de praça, a não ser em tempos de chuva que se deitava no canto da prefeitura.

Reis conheceu os becos nem sabia como. Era negro, tinha barba grande, cabelos cumpridos e grisalhos, usava um conjunto de moletom de cor bege e um ex chinelo branco. Carregava nas costas um saco de lixo com seus pertences, talvez uma troca de roupa e alguns pães, e tinha um sorriso tão vasto quanto o seu sofrimento.
Nasceu na rua. Ainda criança foi condenado como infrator ao roubar dois cachos de uva de uma quitanda para matar a fome, por isso ficou retido em uma casa para menores até completar a maioridade. Quando, por preconceito, não conseguiu emprego voltou a seu lugar de origem. Não tinha amigos nem família e vivia à custa da sociedade. Com uma esmola aqui, outra ali, conseguia se sustentar e foi se acostumando à vida.

A vida? Enquanto ligou para ela Reis não sorriu. Já se sentiu tão humilhado e injustiçado que pensou em ir embora desse mundo por conta própria. Porém, conversando com seus pensamentos, decidiu viver, do seu jeito, até alguém resolver te levar.

Em frente a prefeitura, onde ganhava a maior quantidade de mendiga, ele viu muitas injustiças e fez parte delas por tantas vezes. Era de lá que saiam carros de luxo, pessoas de terno, damas com vestimentas requintadas. E era lá que Reis enxergava a luz no fim do túnel: uma casa, um banho e talvez um almoço.
Leigo no mundo da política o mendigo apenas pensava em dizer coisas sem sentido, a pergunta era: por que tantos têm tudo, enquanto outros nada? E não encontrava as respostas nem nos seus pensamentos idealistas.

Ele ainda mantinha a esperança de que algum homem de terno viria oferecer um chuveiro e alguma dignidade aos olhos da sociedade. Mas tudo não passava de esperança, isso era certo quando os políticos o olhavam com desprezo.

Numa manhã de sábado, se ouviu camburões, alarmes e gritaria. Reis acabava de levantar do canto seco onde passou a noite, próximo à escadaria da prefeitura municipal. Viu apenas algumas sirenes, um mundo de curiosos e vidros estilhaçados pelo chão. Ao se aproximar da cena, como mais um enxerido, foi bruscamente acusado com os dizeres: “foi ele, foi ele”.
Sem qualquer reação, o pedinte quieto e sujo, não entendia nada. Viu um carro grande e preto com vidros quebrados e portas arregaçadas. Indagado pelas autoridades, Reis não viu motivo para mentir e disse onde passou a noite.

Algemas nas mãos, alguns tapas na cabeça, e suas afirmações sem efeito algum diante dos policiais. O carro preto era de um vereador, alinhado e um dos principais personagens da cidade desonesta. O seguro saldava sem qualquer burocracia os danos causados no carro, mas encontrar o criminoso que cometeu tal ato era muito difícil. Fácil era apontar, sem receio, como autor do crime um pedinte, sem família, amigos, casa e sequer um advogado.
Rotulado como vagabundo Reis entrou no camburão da PM, lágrimas de tamanha injustiça caiam sobre seu rosto. Os populares, sem ter o que fazer, aplaudiam a ação rápida da polícia, enquanto o vereador os cumprimentava pelo “apoio” recebido e lembrando, é claro, as eleições municipais que vinham por aí.

Espremido no “chiqueirinho” da viatura, Reis estava quieto, pensativo e inconformado com tal absurdo.

Lembrou do seu passado na casa de menores infratores e pensou na injustiça cometida mais uma vez com a sua vida. Chegou a uma conclusão, sólida e real sobre o país em que vive:

“Já me conformei, eu vivo no Brasil. Um país repleto de repressões e desigualdades, onde os fracos (grande maioria) são os injustiçados e condenados a pegar pelo maior crime já cometido: terem nascido”.

O vereador? Virou prefeito. E o Reis? Vai apodrecer na cadeia.


Um filme e você 

Um filme americanizado, de ternura, loucuras e tristezas, era o programa íntimo daquela fatídica noite fria. De um lado o amor, do outro o romance. E deitados na espaçosa cama, apertados de propósito, o casal da vida se deliciava por um sentimento. Incontrolavelmente ele e um beijo na nuca, um abraço apertado. Tudo correspondido pela donzela dos sonhos mais bem sonhados.

Nas cenas de Hollywood a mocinha chora por um considerável momento triste. E nas cenas da noite, o romântico truculento afaga as lágrimas espontâneas de seu par. Tudo como um roteiro planejado por diretores mais bem conceituados no ramo de histórias com destinos.

O enredo do filme era mais do mesmo. Sempre a princesa chorona e feliz que encontra dificilmente o tão esperado amor. E na trama da vida, o espontâneo sorriso e o anseio de amar fazia o tempo se perder, como numa função de controle remoto.

No começo, tudo bem. Atores conhecidos, admirados. A história parecia valer a pena. Naquele dia a vontade de se apaixonar mais ainda e se entreter numa noite impar, imperavam nos pensamentos do casal extasiado.

Enquanto a canção planejada, no momento deprimido do filme, era entoada, a princesa real encosta sua cabeça em qualquer parte de seu amor, como se estivesse precisando de proteção. E ele faz um carinho sincero nos cabelos naturais de sua inocente.

A chuva cai vagarosa dentro da tela e curiosamente toca a janela do quarto quieto. A cena alegre tira um sorriso meio combinado dos espectadores, que não se limitam à inocência de um longa feito para isso.

A mocinha conhece seu preterido. E um suspiro profundo denuncia a igualdade nos corações do jovem casal de pombos. A vida dos personagens se desenrola como aquilo que já era esperado.

Quando o canalha marido faz a sua companheira sofrer, tira um comentário romancista da namorada observadora. Quase tão natural quanto um beliscão no garoto distraído ao ver a linda atriz principal se despindo lentamente, em uma das malícias hollywoodianas.

E no momento do ensaiado beijo romântico sob a forte chuva, o mesmo ato faz a noite amolecer e quase o filme ficar para depois. Porém, o final previsível do drama estava perto, prendendo a atenção do casal de espectadores.

E o final não podia ser assim...

Os olhos se encheram de lágrimas e alguns comentários inconformados foram feitos.  O príncipe do filme foi embora dessa vida, a donzela se viu sozinha e esperou o tempo passar, tão triste e deslumbrada com o seu destino.

Os créditos já subiam com a linda música de fundo. O namorado se vira e os olhares se elogiam, conversam e refletem uma paixão. Com aquela frase que um dia disseram significar alguma coisa, a linda princesa da vida real só pensa em dizer, tão sincera e certa: “Eu te amo”.  E num ato que podia ser encenado por intérpretes.

O entrelaçar das mãos e um beijo com o coração, antes da cena picante e romântica de um casal feito por um amor verdadeiro. Como nos programas realizados em dias chuvosos. Ou um filme e você.



Um frasco rosa e você

Todo mundo tem um dia triste, e quando estou assim eu recomendo ao meu coração uma dose de você. Uma dose não, o dia todo, minuto por minuto. E deixo... E vai longe... Até ele se perder e não conseguir mais voltar. Aí fica com você mesmo.

E fica com você por que ele sabe que vai ser acariciado, você é mulher, é anjo, e como diz Fernando, o Veríssimo, “mulher não é humana”. E você, ainda menos.

Assim, quando estou meio diferente, é que esqueço que tenho um coração. Dou para você cuidar, como se fosse teu. Abro as portas e você rouba, como se fosse fácil. Agradeço e você sorri, como se fosse o único propósito da sua vida. E da minha também.

Santo Deus que se esqueceu dos homens, e jogou toda a fórmula da perfeição no frasco rosa. Fez-se a felicidade, a sobriedade, a tentação em um único ser. E que ‘Ser’... Senhor!

Ah, se não fosse por você, os problemas seriam irresolvíveis, o mundo seria preto e branco, a vida seria uma aventura policial, sem um final feliz, alias.

E às vezes, aquelas vezes em que eu questiono esse seu jeito de perfeita, não liga não, é inveja de homem desprezado, como todos os outros maridos. Eu queria experimentar esse poder de fazer da vida um motivo, como você sabe: naturalmente, desde que nasceu.

Ah, aquele frasco rosa no centro da mesa abençoada de Deus. Tomara que ele tenha misturado uma boa dose de eternidade. Talvez por engano, descuido, ou então, como estamos falando de Deus, e de você... Por sabedoria.



Um pão de vontades 

Eu tenho receio das minhas vontades, elas sempre me enganam.

São terríveis, não escutam, não falam, nem pensam. Minhas vontades apenas agem e me deixam com medo.

Medo das consequências, e dos desafios. Tenho medo até do que não deveria. Ah, minhas vontades.

Tenho vontade de tudo: conquistar o mundo, como nos desenhos.

Queria ser o herói e o vilão, o mocinho e o bandido. Na verdade sou a margarina, as vezes o pão. Casca dura em um dia, no ponto certo em outro, quente ao sair do forno, e de se renovar ao me esquecer. Mas quer saber? Ninguém vive sem um pão.

Minhas vontades motivam as minhas lembranças. São mandadas pelo coração, inimigo da razão.
Tenho vontade de amar, e não ser julgado. Vontade de tornar o impossível apenas real.

Tenho o anseio de querer, e não poder. Queria ser como todos, mas não sou. Queria ser como muitos, mas nem isso... Tenho vontade de ser apenas eu, eu, eu.

Tenho vontade dos gestos e não das palavras. Vontade de gritar, mas sem causar espanto.

Tenho vontade de viver, como em novelas.

Ah, minhas vontades. Deixam-me com medo. Um medo terrível,  de conseguir realizá-las.



Um velho apaixonado 

Há tempos que essa solidão despedaça o meu peito, e hesito em amar outro coração. Afinal, tudo se ignora em dias comuns, como um sorriso em meio a guerras, liberdade e paixão.

É o meu peito, que tão só, precisa de você.

Não precisa vir e dizer três palavras lindas, me fazendo acreditar. Nem ao menos sentir o que não sente, apenas para me ver sorrir. O que quero de você, tão pura e simplesmente, é o seu amar.

Há tempos que insisto em dizer para o meu ego, que vou te encontrar. Numa esquina, num bar, no cabaré da meia noite, ou num navio rumando a Paris. E a solidão, tão incerta e maleável, me responde, no vento que toca a janela, na chuva que cai no domingo frio.

E eu te invento em meus sonhos, tentando esquecer os meus anseios. Sinto o perfume que deixou em mim, quando passou por minha vida. Sinto minhas lágrimas insistindo em tocar o chão, pois não consigo controlar essa saudade que me faz sentir.

Não nego, errei. Em te conhecer, em dizer o meu amor, em insistir para você ficar, e ficou. Agora de mim não sai, nem de meus pensamentos inusitados.

E agora, eu com meu desejo de um homem triste, insisto em te dizer. Eu te amo, mesmo não te conhecendo, e te invento em meus momentos de um jovem rebelde.

Quer saber? A eternidade é coisa boba. Eu quero é ser feliz, meu amor.


Pedido de Natal 

Olá Papai Noel, tudo bem?

Lembra-se de mim? Sou aquele garoto (agora de 9 anos) que no ano passado pediu um cobertor para meus irmãos e uma bicicleta para o meu pai ir trabalhar, lembra?
O cobertor nem precisou! Encontrei alguns panos velhos perto de uma estamparia, e estão durando até hoje. Enquanto a bicicleta, eu sei que o senhor não deve ter tido tempo de vir até aqui, é longe, perigoso e na minha casa nem chaminé tem.

Mas pode esquecer a bicicleta, meu pai não trabalha mais. Foi mandado embora logo depois que escrevi a carta.
Papai Noel, eu fui uma boa criança esse ano. Quando não fui à escola, foi porque não deu mesmo, teve dias em que chovia muito e minha casa parecia desabar, então eu tive que ficar aqui, cuidando dos meus irmãos e acalmando a minha mãe, que é doente do coração.

É Papai Noel, esse ano foi difícil, assim como o ano passado, o outro, o outro... Meu pai não conseguiu um emprego, minha mãe doente e não pode fazer esforço e eu tento ajudar a sustentar meus dois irmãos mais novos vendendo balas no sinal da avenida principal.
Falando nisso, Papai Noel, esse ano eu queria te pedir uma coisa: que todas as pessoas do mundo gostassem de balas e que elas precisassem de balas para sobreviver e que eu seja o único vendedor de balas do mundo. Assim eu acho que conseguiria vender algumas jujubas por dia.

Papai Noel, não quero mais aquela bola de futebol que te pedi há uns dois anos atrás. Na última enchente perdemos tudo por aqui e eu não aguentaria me distanciar da minha bola. Então, não quero mais. O dono do mercadinho da outra rua nos deu uma de plástico, é boa e da pra brincar nos fins de semana.
Papai Noel, esse ano não quero nada demais. Quero apenas que minha mãe seja atendida por um médico no postinho do outro lado da cidade e que a minha casa não tenha medo e não fique tremendo quando chove. Quero que meu pai arrume um emprego e eu venda 1 milhão de balas por dia...

Papai Noel, o senhor está perto de Deus, não está?

Então fala pra ele construir uma chaminé na minha casa, para que o senhor possa vir me visitar?
Obrigado Papai Noel.
Feliz natal!



Se um dia você souber o que é amor...

Ainda não sei se escrevo poesias, crônicas, ou apenas exponho os meus pensamentos. Contudo, expor minhas frases e citações adversas é a minha formidável e tolerante sentença de vida.

Não sei e nem quero pensar em dizer tudo o que o mundo precisa ouvir, também é convicto que ele, o mundo, não faz questão de convir com as mais belas artes de amar. E amar.

Ah, quem saberia, poderia, ousaria me dizer. Amar? Ninguém. De Aristóteles a Platão, ou de William Shakespeare a Fernando Pessoa. Todos os gênios pensadores que nasceram para a história, não parafrasearam a divina questão de um único sentimento.

Tentar se fazer de um válido mundo de paixão é a derradeira questão das músicas e sonetos. Até de poesias, crônicas ou qualquer montante de palavras certas, ou não. Falar de amor é fácil.

Não é?

Então sente e escreva pensando na chuva, na música, no beijo, abraço, perfume, sorriso, saudade. Vai ser o mais belo texto escrito por seus pensamentos inusitados e divinamente sem explicação.

Por que escrever sobre o amor, além da justificativa de ser simples e facilmente entendido?

Não nos contemos em saber apenas um ou dois segredos da vida. Ainda queremos mais, queremos saber o que, quem, onde, como, porque e quando foi inventado o verbo Amar. Mas ainda assim, já que é para conjugar, só tentamos entender, bruscamente, baseados em uma única conjugação de amar, quando: eu amo, tu amas, (se) ele ama, nós amamos, vós amais, eles amam. Explicado. Não, é claro. Nem sempre, e na maioria das vezes não é assim.

As frases bonitas, os versos repetitivos e lindos, as palavras e conjugações perfeitas em cada ocasião, não são mera coincidência. Alguém um dia disse que, sentir o mesmo beijo para o resto da vida, saber sem pensar a roupa que ela usa nos dias frios, sentir o seu perfume em qualquer flor-de-lis, se chama amor.

Não me aventuro a dizer, não sei o que é. Eu sei que sinto, por isso escrevo. Fácil é escrever sobre o amor, difícil é tentar explicá-lo. Se um dia você souber, não se limite, grite para o mundo inteiro ouvir.



Ser criança novamente 

Queria voltar a ser criança, andar com os pés descalços, brincar na lama, tomar chuva e não me preocupar com que os outros vão dizer.

Queria não saber que o futuro me espera, não ter planejado nada, brincar de pega-pega, esconde-esconde, brincar de viver. Voltar de novo ao passado, conhecer de novo você.
Me pego pensando no sorriso em que eu me encantei, nos sonhos que um dia sonhei, nas cartas de amor, nas lágrimas de menino, no olhar sincero e o jeito meigo.

Queria voltar pro passado, ter encontrado você de novo, falado mais um pouco de tudo o que me fazia sentir. Voltar a te chamar e sair correndo, te ligar apenas pra ouvir sua voz, queria ter ciúme novamente e te amar intensamente, como um dia eu fiz.
Queria deitar no travesseiro, e ter a certeza que vou te encontrar, sonhar com você a noite toda, acordar correndo pra te ver, chegar ao seu lado e fingir não te conhecer.

Como eu desejo voltar aos tempos da felicidade só pra perguntar por que você não esta aqui, tentar entender o que eu fiz de errado, por não sorrir como um dia eu sorri.
Queria desaprender a amar, só pra você me ensinar novamente, do jeito que, sem querer, você fez, com o seu olhar apaixonante, seu jeito viciante e um perfume único que jamais esqueci.

Apenas gostaria de começar a construir meu caminho, sabendo que você estaria do meu lado, pensar no futuro e saber que seria amado, queria não acreditar que um dia você deixaria meu coração.
Queria voltar à época em que eu não podia pensar num futuro sem você, escrever coisas bobas, falar coisas tolas, ter a única certeza que jamais iria me esquecer. Saudade dos tempos em que imaginar outro alguém do seu lado me fazia chorar.

Apenas queria viver tudo novamente, provar seu beijo, não deixar você sair de mim, ouvir seu bom dia, me apaixonar a cada dia mais.
Como eu queria ser criança novamente só pra acreditar que você não sairá do meu lado, saber que meu futuro é com você, e que nunca vou te perder.

Apenas queria ser criança novamente, pra te conhecer do jeito que aconteceu, e acreditar num futuro diferente, que um dia um coração me prometeu.


O meu primeiro amor 

Nessa cidade encontra-se um casal de enamorados, que todos os dias depois das 18 horas se beijam na praça da catedral, ao som dos sinos de Belém, munidos por um jovem e eterno sentimento chamado de paixão.

Ele acaricia a face da bela assustada que está ali escondida de seus pais. O pai dela é um antigo delegado da cidade, rústico, bravo, dominador. E como um pai tão bravo que se preze, não deixara sua filha, agora com 17 anos, de namorico na praça da matriz.

Mas seu namorado não liga, e nem ela. A sensação de perigo rondando aquele pôr do sol até que é boa e renasce a vontade de nunca mais deixar a pessoa partir. Ele, o namorado, também com 17, é jogador da vida. A sua única preocupação é encontrá-la no mesmo horário, no mesmo local, faça chuva ou sol, com um bombom acompanhado daquela própria flor, tirada do jardim da rua de trás.

Os sorrisos são espontâneos e a troca de olhares única, como se o dia e o mundo parassem. Não há mais nada nessa vida a não ser aquele amor, o primeiro amor. E primeiro amor a gente sabe como é. É leal e inesquecível. Alias, é o único sentimento sincero: nunca acaba, é eterno.

O casal de enamorados conheceu o primeiro amor. Ela se tornara os primeiros e últimos pensamentos dele. E ele se tornara a razão dos sorrisos mais espontâneos dela. Na verdade, quando estão juntos não há palavras, o silêncio é a melhor resposta.

Coitados! Mal sabem que todo primeiro amor merece uma dose de sofrimento, um pouquinho de lágrimas e um bom terço de angústia. O tempo não para como imaginam. A noite chega, e a saudade também.

Amanhã eles não vão mais se encontrar naquele lugar. Os pais dela irão se mudar de estado e ela vai partir, deixando para trás o seu primeiro amor. Aquela noite passou como nenhuma outra, não passou!

No outro dia, às 18 horas, ela já estava longe, chorando como quando nasceu. Enquanto isso ele apanhava a flor com as pétalas mais belas e ia ao encontro de sua amada. Sentou-se no último banco da praça, o mais escondido, e a esperou. Passaram-se os minutos, as horas, o sol. O tempo mais longo de sua vida. Como era desesperador olhar no relógio e ver os ponteiros correndo, e ela não chegava, onde poderia estar? Com quem estaria? Por que o abandonou?

Abaixou a cabeça e trilhou o caminho de volta, duas horas depois do horário combinado de se encontrarem. Devolveu a flor ao canteiro da outra rua, guardou o bombom de chocolate e avelã em seu bolso, junto com o anel de compromisso que daria a ela no pôr do sol.

A chuva fina começa a cair trazendo toda a melancolia de uma solidão, tarde demais para esquecê-la, pois, já tomou conta da sua jovem essência. Cabisbaixo, as lágrimas começam a encontrar o chão e a sua única saída é voltar no dia seguinte e esperá-la ansioso.

Então, ele estava lá às 18 horas, e no outro dia, e no outro, outro... Até o seu coração parar e dizer: viva, seja feliz, ela se foi.

No estado tão distante, tantos anos depois, a doce mulher apaixonada, agora com três filhos e um amor que não queria, senta-se à mesa da copa, descobriu o endereço do seu primeiro delírio, e num papel de carta escreveu sobre sua saudade.

Dizia com letras bonitas e desenhadas que jamais o esqueceu, e partiu para deixar em seu peito a vontade de voltar. Proferiu sobre o amor, sua vida, sua história e o que fez depois de tantos anos, e implorou o seu perdão. Escreveu apenas agora, pois, o medo da renúncia era maior, e não sabia sequer se ele ainda a lembrava.

Nas linhas escritas, disse que suas melhores lembranças incluem um amor e uma flor retirada de qualquer jardim. Completou confessando o seu maior sonho: voltar ao banco da praça, às 18 horas, encontrá-lo e aprender novamente a amar.

Depois que terminou de ler aquelas folhas, o rapaz enxugou as suas lágrimas, e sentado no banco da praça deu um beijo na flor e admirou o anel que ele nunca entregou ao seu primeiro amor. Apreciando o pôr do sol e com uma saudade que não cabia em seu peito.



O pai da noiva 

Minha filha vai crescer como uma princesa, mas nada de riquezas materiais: ouros, diamantes, cama de veludo com travesseiros de penas de ganso. A maior fortuna que vou oferecer é o meu amor, que, alias, já está sendo modulado antes mesmo de ela chegar, e mudar o meu mundo.

Ela vai nascer do ventre de uma donzela, a mulher dos meus sonhos, aquela que Deus escolheu e meu coração aceitou, como se tivesse feito já em vidas passadas: a mãe da minha menina.
Minha filha vai brincar na rua, na chuva, de casinha, de boneca, andar com os pés descalços, chorar por querer uma pipoca doce e ir à igreja toda semana. Ah, minha filha vai ser o oposto de sua geração.

Quero acordar toda manhã e receber um beijo de amor, e ir dormir apenas depois que ela pegar no sono. Eu quero ouvir um ‘eu te amo’ tão sincero quanto o meu pra ela, e ser o seu melhor amigo.
Ela vai ouvir músicas infantis, enquanto pula em cima do sofá, e depois que se cansar vai dormir, como um anjo feito de amor.
Vai crescer sendo a melhor aluna da sala de aula. Matemática? Tira de letra. Português? Francês, Espanhol... Vai ser o orgulho da tia do primário, o exemplo da professora do ginásio, a melhor aluna do colegial.
E eu vou a ver mudar o seu rosto, corpo, ideais...

Um dia ela vai chorar em meus ombros por uma paixão não correspondida, e eu vou consolá-la, como se tivesse experiência nisso, me corroendo de ciúmes por dentro.
Vou estar na minha poltrona preferida, tomando um chá da tarde, assistindo ao futebol, e ele (o meu pior inimigo) vai entrar pela porta da sala, tremendo suas pernas, vai me cumprimentar de cabeça baixa e depois de dez minutos vai dizer: posso namorar a sua filha?

E eu vou olhar para ela, e ver os seus olhos brilharem de ansiedade, segurando a mão de sua mãe, desesperadas por minha resposta. Vou me levantar, olhar para a janela, ver o cachorro brincando lá fora, e lembrar de toda a minha vida ao lado dela: a minha princesa.
Minha filha vai se casar. E no seu casamento eu vou chorar feito criança, caminhando do seu lado até o seu futuro. E ela vai construir uma linda família, e me presentear com a consequência de todo o amor que um dia eu lhe ensinei.

E minha casa vai se encher de netos e depois bisnetos, correndo para todos os lados, comendo bolinhos de chuva no domingo à tarde, e indo pescar comigo nos feriados prolongados.
Até o dia em que eu esteja ajoelhado aqui, nessa casa triste cinzenta, nesse cantinho improvisado ao lado dos santos, ouvindo ao fundo Chico Buarque, e agradecendo aos anjos que um dia trouxeram a minha princesa. Suplicando para que os pais sejam pais, e não apenas de nome e sobrenome.



O Pássaro Azul

Ontem, no finalzinho do dia, um Pássaro Azul pousou em minha janela, com o seu amor que confortou a minha solidão. E tantos defeitos me fizeram repensar, qual seria  a dor que o pássaro ressentia enquanto voava livremente nesse lindo céu de sua cor.

E era obvia a resposta. Não há dor em um Pássaro Azul. Nem ao menos um pouco de solidão. O Pássaro Azul sabe viver! Ele sobe aos céus, perto de Deus, e recebe dos sãos a inveja por voar tão, tão distante.
O Pássaro Azul não se distrai com a chuva. Não ama a qualquer um. Ele ama quem merece, e canta aos que o retribuem. E canta apenas como um Pássaro Azul sabe cantar.
Lindo, tão lindo, que me deu vontade de nunca mais fechar a janela. E deixar entrar toda a sua alegria, sua sinceridade e a canção de sua vida.

Fiquei admirando a sua beleza reluzente, enquanto o sol se deitava, torcendo para ele se eternizar naquela sacada de madeira carcomida pelo tempo. Como poderia agradecer a esse ser de outro mundo, vindo do céu, enviado por Deus, que me fez esquecer a dor que eu sentia, na solidão de meu lar.
E me remeteu a sonhos lindos, como não imaginava conseguir alcançar naquele momento de minha vida. Pensei em como seria ser livre assim e não pensar apenas em mim, frequentar as sacadas daquele vilarejo povoado por sofredores, e mudar as suas vidas, com o meu canto de Pássaro Azul, ou simplesmente com a minha presença.

E descobri que esse ser é um dom de Deus. O seu cantar, a sua beleza, a presença que ilumina uma vida, e deixa saudade, esperança, lembrança do eterno paraíso. Não era apenas um Pássaro Azul, mas um anjo disfarçado de amor.
- Não! Não voe minha ilusão.

E quando ele partiu tudo voltou ao comum, o mundo era preto e branco novamente. E minha sensatez lembrou a solidão daquela casa cinzenta de meu bem.
O sol se pôs. A janela se fechou. As estrelas brilharam.
E desde então espero o Pássaro Azul retornar e provar a minha existência, como fez nos segundos daquele dia.
Mas quem sabe dessa vez ele possa trazer de volta o meu amor, que agora mora ao lado de Deus, perto da casa daquele Pássaro Azul.


O filme de sua vida

Ainda que o conhecessem não podiam compreendê-lo. Era estranho olhar nos olhos, fazia pensar, ninguém nesse imenso mundo de poesias e besteiras decifrava o seu olhar.

Caminhava na direção do nada em busca do não sei, chutava pedras e mais pedras, formando uma cortina de poeira que o escondiam no seu caminho.

Baixinho e devagar pensava no que fazer; sumir, morrer, chorar ou ser feliz. Nada disso tinha sentido, um filme construído ali o distraia, a trilha sonora era o barulho do seu sapato tocando o chão de terra.
No romantismo de sua vida, tudo o que fez chegar até ali. A lembrança das loucuras do coração vividas nos tempos em que o amor era necessário, as noites jogadas fora por quem não sabia viver, o tempo perdido procurando a razão.

Já fazia tempo que tudo tinha acontecido, mas nada nem ninguém apagou de sua memória as fases de sua intensa vida. As cenas eram montadas vagarosamente, as lembranças do tempo em que as lagrimas representavam força o faziam chorar, naquele caminho particular, sozinho na escuridão de sua vida ele pensava no que fazer.
No seu filme os protagonistas eram sempre os mesmos, os cenários não mudavam, ele não se lembrava de quando não vivia.

Cabelos compridos e morenos, olhos de jabuticaba, sorriso intenso, perfume venenoso, um jeito viciante e uma boca feita para o desejo. Era a pessoa em que se espelhava, a sua mais fascinante aventura de amor.
Se conheceram num dia chuvoso de um janeiro típico, raios e trovões fazia da pacata cidade a mais tenebrosa, uma tarde perfeita para um encontro casual em frente ao shopping em busca da melhor posição para se esconder das incríveis gotas de água.

Caminhando nas ruas obscuras e estreitas, entra em ação no longa sua principal aliada, as finas gotas que caiam do céu eram suficientes para esconder suas lagrimas que insistiam em encontrar o chão. O filme de sua vida chegava ao fim assim como o deserto caminho que seguia com a cabeça baixa e as mãos escondidas; a última cena fez dele voltar a ser o que era.
Vinte anos se passaram desde o momento em que ele a conheceu, viveram sete anos de intenso romance aliado a uma aventura em busca do final feliz, o terror tomou conta de sua vida quando numa esquina vazia e escura tudo acabou. Uma esquina, um carro, um monstro, uma batida, a vida. Como num típico drama das telonas o casal se separa em um inevitável e surpreendente final.

Depois de treze longos anos vivendo por viver e vagando pelas ruas chega o derradeiro fim, o caminho que ele seguia ficava mais estreito por um momento no meio daquela alameda, numa esquina vazia ele parou, no chão sujo e molhado se deitou, sua cabeça parecia se apagar, no seu cinema particular as luzes se ascenderam como a de um carro em alta velocidade, sem poder de reação ele resolveu reencontrar a sua vida.
Os créditos subiam enquanto ele agonizava, foi a única vez em que o notaram depois de muito tempo, comentários ao lado o faziam enxergar a realidade, estava morrendo, tudo havia acabado, um suspense para encerrar; de repente no meio da escuridão, um sorriso brilhante e uma voz aveludada dizia o que só alguém podia dizer há um bom tempo atrás.

Tudo fez sentido, o caminho era o mesmo em que ela seguiu antes do seu fim, a esquina fazia o mesmo cenário do terror de sua vida, ele seguiu o roteiro que seu destino escreveu.

Um filme sucesso de bilheterias sem milhares de espectadores, com os dois melhores atores que um dia existiu, um roteiro brilhante de uma vida cheia e tão vazia ao mesmo tempo, que ganhou o Oscar da melhor história. No pra sempre de sua vida ele foi feliz como nunca havia sonhado em ser.



O mendigo da Praça 9

‘Acorda, já são sete horas, vagabundo. Vai pra outro lugar, não fique aqui, você vai assustar a clientela. ’

Era esse o bom dia que o mendigo da Praça 9 recebia diariamente. Já não ligava mais, levava todo aquele insulto na normalidade. Mal sabia o senhor da padaria, que ele dormia em frente a seu comércio apenas para se esconder do tempo feio que fazia toda noite.

Blusa verde dependurada no ombro esquerdo. Calça rasgada, sandália velha, barba e cabelos grandes, crespos e grisalhos. Cheirava mal, bebia muito, e não era água, era o que tivesse. E coube a ele conviver com a injustiça. Era o perfeito cidadão a quem caberia toda culpa de um ato que infligisse a lei.
Andava pelas ruas como um mendigo feliz, estranho. Seu olhar não era triste, seu sorriso era de se espantar. Cumprimentava o seu José da sapataria, o Afonso da loja de doces, e quem passasse pela Praça 9, a sua morada há tantos anos.

Chegou até ali sem saber o porquê. Não conheceu a sua família, que o abandonou ainda moleque. Mas, diferente dos colegas de rua, que conheceu por aí, não se envolveu com as drogas. Não por falta de opção, claro. Mas apenas porque não gostou: fazia mal.
Inteligente. Aprendeu a ler e escrever nos cursos da Assistência Social. Assim, com a sua dificuldade particular, lia as notícias do dia nas sobras dos jornais rasgados, vindos da feira livre, ali perto. A feira, inclusive, era sua fonte de tudo: comidas, bebidas, sobras e gestos.

Conhecia a delegacia como se fosse a sua casa, sempre era levado para lá confundido com bandidos que roubavam os comércios da Praça 9. Logo ele, morador assíduo do lugar. Mas a injustiça convivia com a sua vida como se fosse a sua sombra, já estava habituado e sabia que isso seria até o fim dos seus dias nas ruas. E olha que a cada dia, era uma luta para sobreviver.
O mendigo da Praça 9 não era humano. Era um ser de outro mundo. Ninguém, nem sequer o sábio velho chinês – comerciante - entendia como a vida lhe oferecia nada e o mendigo ainda sorria tanto, como se tivesse tudo, como se a sua vida fosse uma novela.

Mal sabiam, o velho chinês e quem olhava para o pedinte, ele era humano sim, o mais normal e culto da Praça 9, o dono de um coração apaixonado, por tudo: pela vida de pirata e de cigano, pelos sonhos de um banho e café quente, por uma existência justa e livre de qualquer tirania.
A Praça 9 nunca mais foi a mesma depois que ele foi preso, munido com um sorriso no rosto, condenado pelo roubo da padaria, às 7 horas da manhã: vagabundo.



O meu mundo de criança 

Amanhã eu vou mudar o mundo. Vou transformar uma vida, e essa vida vai transformar outras e outras... Até tudo ser colorido, igual a um arco-íris avivado de felicidade. E cada pessoa desse mundo vai ter motivos para sorrir e anseios para sonhar.
Eu vou acordar pela manhã, abrir a janela da sala, e então vou ver no banco da praça o casal de idosos, alimentando o casal de pombos. Crianças brincando de bonecas de pano e carrinhos de madeira. O tio do algodão doce conversando com a tia da pipoca.
Vou cumprimentar o meu vizinho português, que também vai me desejar um bom dia. Vou ir até a banca do Senhor Messias e comprar o jornal da manhã, que na primeira página estampa o índice de barbáries do mundo, inexistente.
E no campinho de terra, ali na rua de baixo, o time dos sem camisa vence os uniformizados, com um gol marcado no último segundo: festa nas arquibancadas, a torcida canta, vibra, exalta o melhor jogador do mundo, Joãozinho.
Passarei pelo bosque do quarteirão de cima para sentir o perfume das flores exalando as suas obras. O canto dos pássaros verdes, amarelos, azuis, que alimentam o meu dia de esperanças.
Na igreja da esquina, os beatos se mantêm com as palavras dos vigários e seguem o que o livro divino exige, sem apenas dizer, e somente isso: amém, aleluia, glória... Nesse novo mundo, Deus será a salvação.
Haverá trabalho para todos. Papai Noel para todos. Coelhinho da Páscoa para todos. O dia das mães, dos pais, das crianças, será todos os dias. Haverá sinceridade de criança até o fim dos tempos. E as tardes serão todas de sol. E quando houver chuva, escreverei um poema.
E todos vão conhecer um amor de infância. E a lei da vida será aprender a amar antes de ser feliz. O caminho será a felicidade, apenas com curvas de sorrisos.
As riquezas materiais não serão maiores do que a sua essência. Nesse novo mundo, as estrelas que brilham serão amigas da lua, amiga dos sonhos, amigos da vontade, amiga da conquista, amiga da alegria.
Nesse novo mundo todos vão voltar a ser criança e aprenderem a viver novamente.
Amanhã vou mudar o mundo. E cada pessoa por aqui vai ter motivos para sorrir e anseios para sonhar. E pela minha lei, a gente será obrigado a ser feliz.


Narciso

Chuva fina, ventos sem limites e noite serena. Era assim que, diariamente, o tempo se apresentava aos olhos de Narciso.

Seu nome era o significado da beleza. Narciso era belo, nome de flor. A rebeldia andava em suas mãos e seus pensamentos eram apenas intrigantes. Vivia no sonho de frequentar a vida com toda a maestria que um dia se esperou. Entendia sentimentos, expressões e palavras. Porém estava preso nos objetivos de seu coração. Assim, não podia questionar o mundo e foi viver a sua vida...
Sua vida não era nada que um dia ele idealizou. Perdeu seus pais e se viu sozinho. Já adolescente, decidiu morar nas ruas. Com isso conheceu o inconsequente e sua beleza se desmoronava. Narciso já sabia ler, escrever e sonhar, mas as oportunidades não apareciam, tentou se esquivar do mundo onde estava, porém não sorriu.

A felicidade foi embora quando foi preso sem saber o motivo, ou não. Tinha a consciência que morava nas ruas, andava sujo e se sustentava com o “sopão”. Condenado a pagar por ter roubado um relógio e ter insultado as autoridades, Narciso passou o resto da vida na prisão.
Naquele lugar lúgubre, espantoso e diferente, o senhor da beleza se destacava por seu jeito quieto e conformado. Olhava para o céu, nos seus momentos de sol, e apenas pensava nas chances e nos questionamentos que ele não podia fazer.

Narciso não estava apenas preso nessa casa de indecentes. Estava preso a tudo, na vida. E essa vida ele não queria mais.

Não se conformava com suas euforias em vão e seus pensamentos idealistas. Desistiu de sonhar ao entender que isso não era mais necessário. Completou três décadas de vida, metade viveu sorrindo, a outra metade chorou...
Narciso era belo por todos os lados. Era simples e triste.
Estava preso onde não era para estar. Narciso não roubou e nem matou. Apenas questionou os motivos por estar sendo preso. Não devia ter feito...
Era quieto, era estranho e inocente. Um estranho no espaço onde estava jogado.

Não lutava pela vida, não queria se preocupar. Apenas sonhou, foi indagado e rotulado por tudo o que não era. Naquela noite, chuvosa e serena, lembrou de amores e da última vez que sorriu com o coração. Chorou, sorriu, se satisfez e não aguentou.
Deitado no chão e de olhos fechados, Narciso com sua beleza extrema e um coração inigualável, foi indagado novamente por alguém que não conhecia:

“Tudo bem, belo rapaz?”.  Narciso nunca respondeu... E foi embora dessa vida.



Nos tempos da inocência eu aprendi a ser feliz

Já diziam os sábios. “Recordar é viver”, talvez por isso não me canso de lembrar.

Coisas boas ou ruins, sorrisos ou lágrimas, desafetos e amizades. Tudo aquilo que me ensinou a ser um alguém, pequeno notável no meio de tanta gente.

Não sou muito bom em matéria de saudade, sinceramente não sei lhe dar com ela, nem se quer descrevê-la.

Mas eu tento, na verdade não controlo; meus pensamentos me levam até meados da época em que comecei a caminhar. Chão te terra, pedras e barro; carros estacionados e um sentimento sendo construído.

Amizades transbordavam e sorrisos eram conseqüências, problemas existiam, mas só pra quem podia resolvê-los.  Tudo era diferente, uma paz, amores começavam sem ao menos percebemos, amor de todas as formas e defeitos que um dia se inventou.

Um cheiro bom, de felicidade, perfumes de crianças tentando se mostrar os maiores responsáveis de tudo aquilo.

Ainda sorriamos quando uma carta chegava a nossas mãos, carta de namoro, namoro bobo, sem pretensão, não sabíamos o que significava. Mas nos garranchos escritos sempre em duas linhas a pergunta era a mesma, e as alternativas também não mudavam.

“Quer namorar comigo? SIM, NÃO, VOU PENSAR”, ah se tudo fosse tão fácil, se entendêssemos o significado de tais palavras. Era engraçado, agora era engraçado.
Ainda fazíamos homenagens para nossos pais, dizíamos “eu te amo” com muita inocência, era bom ouvir uma resposta com um abraço.
Encontros marcados, no clube, na praça, na igreja, no cinema. Uma calça da moda, cabelo arrepiado e dente escovado. Tudo iria acontecer, não. Ainda não tínhamos idéia do que podia acontecer, éramos nós dois, mais ninguém, apenas o nervosismo traduzido nas batidas rápidas do jovem coração.

Nossos rostos ainda ficavam vermelhos quando nos encontrávamos. Os sorrisos sem graça e o olhar brilhante ainda traduzia o sentimento de criança.

Era tão bom, deitava nas nuvens, sonhava com um rosto. Era a cara metade, encontrada raramente tão cedo, amor de criança, sem malícia alguma, o que é malícia?

Brigamos, é aquela época brigávamos também, não como hoje; era briga infantil querendo ser o correto. Mas as lágrimas eram sinceras, o coração se expressava, o perdão era verdadeiro.

Ah se soubéssemos o valor daquelas fotos tiradas nos nossos aniversários, teríamos nos arrumado mais, nos abraçado, perderíamos a vergonha e teríamos feito com o maior prazer.

Ainda a escola se tornava o melhor lugar, iria te ver. Ficava paquerando, olhando e disfarçando, fazendo cara de mau, bobo.

Não faltou nada, nem o beijo. Ele aconteceu e eu viajei pra algum lugar inexplicável, ou acha que esqueci aquele dia em que deu um beijão no meu rosto?

Chegou perto com vergonha, é claro, sorriu e num ato de amor (eu sei que sim) encostou seus lábios no meu rosto.  Aquela época bitoquinhas no rosto ainda representava alguma coisa.

Não, não faltou nada. Era lindo e não vai ser assim de novo, aprendemos tanto que hoje tudo faz sentido.

Se hoje sabemos amar é porque um dia nos amamos.  Se hoje sabemos ser feliz é porque um dia aprendemos juntos o caminho. Se hoje choramos ao ter saudades é porque nada foi por acaso. Se hoje sou um sonhador realizado é porque um dia você apareceu na minha vida.

Aquele tempo que reinava a inocência, você me ensinou a felicidade.



O catador de latinhas, Manuel, Pasárgada e o Brasil

Um simples catador de latinhas, o melhor cliente do ferro velho do seu João. Ele era emocionalmente controlado e compensava a sua timidez com os gritos e assovios para chamar atenção.

Esboçava, diante de seus pés descalços e suas mãos cansadas, um sorriso tão vasto quanto o caminho que percorreu até chegar ali. Conseguia alguns quilos de alumínio perdidos nas ruas da cidade, era a sua fonte de renda para sustentar a família: ele e Manuel (um cãozinho de raça indefinida). Mas assim não podia melhorar, o mundo era único, as contas não existiam, os problemas? Que problemas? E um novo rumo a seguir.
Antes mesmo de o sol acordar, ele já estava em pé, Manuel se espreguiçava e lá se iam os dois, saindo de sua humilde e aconchegante obra inacabada de um sujeito qualquer, passando em frente às mansões e lutando pela vida.

Num suspiro momentâneo as lembranças de sua história com os incontáveis obstáculos, a esperança de seguir em frente, buscando um dia, quem sabe, um café da manhã. Ou até alguns beijos e abraços, palavras de conforto e carinho, com tantas bajulações e admiráveis palavras irreconhecíveis.
Ele tinha 30, talvez 40 anos, pelo menos metade destes feitos com indignações e busca pelo conhecimento, sem nenhum propósito. Lembrou de sua infância na cidade grande, não encontrou seu pai, viu sua mãe virar estrela e foi apresentado a rua. Mesmo não querendo passou longos e tolerantes anos debaixo de um viaduto. Conheceu quem não devia, foi oferecido ao inconsequente, mas escolheu a vida e admirou lindos e tristes contos de amor.

O tempo passou e na cidade grande o medo era a sua sombra, procurava em seus sonhos buscar o infinito, assim aprendeu a ler e a conhecer onde pisava. Nada era o planejado, até um dia tomar a decisão de seguir outros caminhos.
Descobriu, num poema de Manuel Bandeira, onde estava a felicidade, decidiu ir procurar a tal “Pasárgada”, ser amigo do rei, receber mimos de infância e descobrir outra civilização. Na rodoviária esse destino ele não encontrou. Logo descobriu que esse paraíso estava apenas nos seus desejos, inventados por Bandeira.

Quando voltou à sua casa, o viaduto movimentado e pintado de terra, não viu seus vizinhos, dormiu sem perceber e ao acordar ouviu no radinho de pilha que o “sopão” oferecido pelas entidades assistenciais deu lugar a barbárie e ao vandalismo de alguns moicanos burgueses.

Assustado foi embora e num bairro de classe média descobriu um lugar para se esconder, conheceu o seu fiel companheiro, que apenas o olhava e deu a ele o nome de Manuel, homenagem póstuma ao inventor da felicidade. Nas ruas gritava para as casas ouvirem, “Olha o catador de latinhas”, e assim com o seu cachorro era conhecido em seu bairro nobre.
Depois de pensar na sua infância e se cansar com os passos que percorreu até chegar ali, ele se virou para o presente. No momento de descanso, depois de juntar suas moedas fez valer o esforço. Comprou dois pães com manteiga, para Manuel também, abriu o jornal que estava no balcão da padaria e com a sua limitação particular leu página por página.

Quando menos esperava e na última migalha do pedaço de pão, encontrou o que sempre quis. Uma mansão, com mordomos, camareiras, mimos e até banheiros. Continuou lendo ansioso, tentando saber como chegar ao caminho sonhado. Descobriu que tal político era o senhor de todas aquelas regalias, na matéria explicava como o governante chegou lá: Alguns desvios de verbas públicas, os impostos abusivos, algumas fazendas, contas num país distante... Era Pasárgada, do Brasil.
Fechou o jornal, se sentiu no mínimo injustiçado em saber que ele, com suas latinhas, foi um dos compradores daquela morada, que daria para acomodar com sobras ele, Manuel e seus vizinhos de viaduto.

Seu nome? Não sei. Foi embora antes mesmo de me contar.

Segurando suas sacolas, com seu amigo Manuel do lado, foi ao encontro da sua realidade. Ainda sonhando com um chuveiro, um café da manhã e quem sabe encontrar a porta para Pasárgada. Lá seria amigo do rei...


Lembranças do meu amor 

Cinco décadas, meu bem, cinco décadas!

É esse o tempo que passou, o tempo em que eu te chamava de meu broto e me sentia na esquina do teu sorriso, toda vez que com amor você me olhava.
Não, meu bem, não me esqueço, e nunca vou, do dia em que te encontrei. Na chuva, embaixo da lua, em frente à igreja, na praça de nós dois. Lembro bem do vestido vermelho que você usava e de seus cabelos cacheados e molhados, dançando conforme a canção do vento. E então você me encontrou, bastou apenas a sua presença, um toque no meu rosto, e conhecemos a eternidade.

E eu te amo desde então. E não te amo, apenas porque dizem que isso é amor. O que sinto, a partir do dia em que você me ganhou, é suborno ao meu coração. E ele se deixou levar por suas malícias, que de tão sinceras e lindas, não saíram de mim. E me ganharam. E me ensinaram a viver.
Recordo-me do momento de nós dois, de nossos filhos anos depois, e de tudo o que fizemos para esse amor não acabar. Descobrimos, por nós, que assim, amor assim, amar assim, não se acaba, se reconstrói, e fizemos tudo de novo, e de novo....

Meus defeitos você suportou, minhas mentiras eram entendíveis, e minhas verdades contestáveis. Não se sentia tão mal quando no meio da noite eu te lembrava do meu amor, ou na manhã de domingo dizia em serenata que minha vida era sua.
E a minha alma você semeou, como num jardim de flores que enfeitava o seu coração. O nosso caminho se chamava felicidade,e  o nosso tesouro: ternura.

E tantos 50 anos depois eu ainda me reinvento, nessa casa tão afável de meu bem. Admirando o teu sono de princesa adormecida, tocando sua pele de algodão, afagando suas mãos de céu.
E te ensino a sonhar com meu amor, e te vejo depois do arco-íris, logo ali na eternidade. E depois, e depois...



Maldita hora que atravessei a rua XV 

Era tarde da noite, não me lembro se os ponteiros já marcavam o outro dia, ou se ainda faltavam certos minutos. Virando a esquina debaixo, alguém passava sem querer olhar para trás. E eu do lado oposto, na calçada do cachorro quente.

Cabelos compridos, bom molejo e uma bolsa pendurada no ombro direito. Era assim que aquela loira, de estatura alta, andava sem temer nas ruas da cidade. As vielas de tão sombrias faziam da noite alguma cena de filme. E sem medo a “donzela” caminhava em direção a seu destino.
No outro lado o cachorro quente já estava vazio, o vento gelado fazia tudo fechar mais cedo e as pessoas se recolherem, esperando o dia amanhecer. E eu ia embora, andando como de costume, esperando encontrar tão rápido a rua clara e não me assustar com alguns barulhos incômodos.

As luzes do carro preto, do boyzinho com a namorada sem conteúdo, iluminavam o caminho. O cão latia sem parar insultado pelo gato cinza que se espreguiçava sem nenhum receio. Cruzei a viela, olhando para o lado apenas por olhar, a rua numerosa não era mais de ninguém. A rua XV já estava perto.
A linha de trem ficou para trás, a poeira se espalhava com o vento intenso, ofuscando as pequenas casas da vila monótona...

Mudei de calçada. Nenhuma alma ainda passou, a não ser uma moto empinando e uma bicicleta barra forte, barulhenta.
A rua XV era logo ali. O caminho mais perto para chegar onde eu queria. Apenas um quarteirão escuro, com árvores medievais e barulhos de janelas afrouxadas. É o lugar onde os namorados fazem besteiras, e os drogados improvisam uma morada.
Podia ter ido por outro rumo, mas  a rua XV talhava o caminho. E por ela eu atravessei... Não devia.

Como no filme da vida, me deparei com uma situação inocente que há tempos eu não imaginava passar. Uma criança, com alguns tantos sete ou oito anos, manuseava uma arma, com qualquer calibre que não me arrisco a dizer, e uma latinha de cerveja vazia do lado, que agora usava para se acabar com as delirantes pedras brancas.

Observei como mais um inconsequente. Meus pensamentos não tentaram descobrir onde estavam os pais do inocente menino, ou porque ele brincava com um revólver. Apenas fiquei assustado como isso se tornou corriqueiro. Uma criança e uma arma. Davi (o garoto de 10 anos que atirou na professora e depois se matou) não foi exceção, existem pequenos em situações piores, e não é difícil encontrar, é só passar ali, na rua XV.
Cheguei ao meu destino, o contraste de todo o caminho que percorri. Deitei na cama aconchegante e acordei para mais um dia de sol...

Mas amanhã o cachorro quente abre, a loira alta passa, o boyzinho vai encontrar sua namorada, o garoto vai estar por aí “brincando” com sua arma e eu, não vou suportar atravessar a rua XV, novamente.



Meu destino: FELICIDADE

Meu destino é ser feliz, não me interessa como, nem aonde, ou qual será o motivo de meus sorrisos espontâneos, apenas quero sentir em meu peito uma alegria imensurável, que não caberá em palavras e nem em um olhar deslumbrado, de felicidade.

Seria ideal se todos os normais sonhassem com a felicidade em seu paraíso particular e antes de pensarem em amor, em guerra, paz, em paixão e riquezas, colocassem a frente de tudo a Dona Felicidade. Mal sabem esses ingênuos que nem sequer o sonho mais irreal que se realizou, é nada sem ela.
O empresário que fecha os olhos pensando na sua fortuna, escondida no banco da Suíça, e embaixo do colchão, não é feliz! Não consegue se afastar de suas obrigações: seu jatinho na garagem, confirmar se os seguranças são mesmo segurança, ou se os seus filhos não serão alvos de bandidos, na saída da escola. O empresário não dorme feliz, e descobre a cada acordar que dinheiro é o mal do mundo.

A princesa e o príncipe não são felizes, nem o rei, ao menos a rainha, a realeza não é feliz! Doutrina o povo, se abstrai da sociedade ordinária, não tem costumes comuns, sorrisos que não são amarelos, amores que não são prometidos, e têm uma felicidade que não é feliz.
O famoso por vezes cansa de ser famoso, em minutos do seu dia não sorri, e quando demonstra sua desgraça vira alvo de balelas, como se não fosse um humano qualquer. Ele não é feliz por não poder demonstrar o que realmente é, e sua felicidade é poder tirar a sua máscara e chorar para o mundo, sem qualquer questionamento.

A pessoa desonesta, por mais que tente, não pode ser feliz, pois a felicidade não contempla a qualquer um. A felicidade é correta, virtuosa, reta, proba, justa, feliz, é de Deus. Ser feliz não depende apenas do amor de mãe, do trabalho desejado, da malícia em dias loucos, do perdão necessário, do beijo na chuva. A felicidade é o acaso, as pedras, as lágrimas, as derrotas, os sustos, as decepções. Felicidade é fazer tudo isso virar um sorriso, e construir o seu castelo em dias de angústia.
Felicidade, quanto mais a tenho, mais a quero, e se não tenho, com certeza vou encontrá-la, faz parte do destino, dos planos de Deus, é o propósito da minha humilde existência triste nessa terra de ninguém: FELICIDADE,FELICIDADE, FELICIDADE!



Não me pergunte sobre o paraíso

Não me pergunte sobre meu destino, nem ao menos sobre a minha história, eu vim de longe e sou aquele que nunca imaginou encontrar.

Foi assim que ele se explicou quando questionado sobre si mesmo, fechou os olhos e encontrou um mundo novo, mundo estranho com desafios e desconfianças. Uma vida nova, que jamais imaginara descobrir, viu paisagens, amigos, voltou no tempo e na lembrança de seus medos.
Com isso notou o que realmente o afligia, tentou mudar a história de sua vida, questionou sobre a tristeza e não definiu sua felicidade. Foi assim que viveu longos tempos em uma noite qualquer, fria e aconchegante.

Ouviu num segundo uma voz a acalmar, sentiu angústia, mas alegria de se alucinar com alguém tão próximo que ele já não sentia mais. Era sua vida.
Foi ao encontro dela, sorriu com o seu iluminado sorriso, sentiu um perfume que já havia esquecido, lembrou dos tempos de amor e do tempo em que amar ainda era verdade.

Pediu perdão, não se esqueceu de seus erros, ouviu suas qualidades, corrigiu os inúmeros defeitos. Por um momento tudo havia acabado, os sentidos voltaram a fazer sentido e ele se viu onde nunca imaginou estar.
Quando, de costume, abriu os olhos, fez questão de se entender.

Não me pergunte sobre o paraíso, eu não sei onde ele está, a muitas pedras no meu caminho, mas um dia, com certeza, eu vou chegar lá.


Faltam poesias, e amor, o resto é delírio 

Está faltando poesia. Morreram os romancistas, e nem sequer deixaram descendentes.

Os loucos silenciaram como Bandeira. E o mundo se desfez, junto com Pasárgada. Quintana não mais amou. Mário de Andrade se calou. E Clarice, ah Clarice.
A prosa linda se foi junto com Vinícius, as frases de carinho, típicas de Cecília, se perderam. E de Meireles, que saudades.
Está faltando paixão. Aquela que Oswald delineava. A paixão que se aclamava, na semana de 22.
Falta a magia, a fala poética, a nudez atrevida. O olhar de veraneio, a casa vazia, a chuva caída.

Que saudades de Drummond, e suas rimas de amor: “Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam), a cada instante de amor.”
Acabou-se. Morreram os bardos, e com eles o mundo. E de Neruda, o mundo não tem mais nada.
Fernando Pessoa: “Porque quem ama nunca sabe o que ama. Nem sabe porque ama, nem o que é amar” Se foi o amor, e também a sua prosa.
Os amantes e cantores se perderam nas lembranças. Chico, Caetano, Caymmi...

Está faltando poesia. Morreram os romancistas, e nem sequer deixaram descendentes, se foram os sãos e ficaram os delirantes.
E de pensar que Fernando era o romântico, que se palpava, e aclamava o amor. E pensar que ele se foi e deixou no tempo as dicas de uma vida, palavras, coração, e amor:
“Se perder um amor... não se perca!
Se o achar... segure-o!
Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala.
O mais... é nada.”
Está faltando poesia, e mais nada.



João

Menino pobre e banguela, sem pais e sem vida. Era esse o tal do garoto João. Aquele que morava encostado na ladeira, perto da rodovia, no barraco improvisado, e que vivia um filme de terror toda vez que São Pedro resolvia mandar a chuva.

Doze anos de afeição, latinhas e correria. João não só se sustentava, mas também o vício de sua avó materna: alcoólatra. Era menino bom, proveniente de uma mistura simples entre amor e ódio.

Não sabia nada da vida de criança. Não jogava bola na rua e nem tinha o uniforme azul que a prefeitura oferecia aos alunos da Emeif ali de perto. Alias, nem aluno era.
Depois de aos 7 anos perder seu pai, num acidente de trabalho, e aos 8 ver a sua mãe morrer nas mãos do tráfico, foi morar com sua ascendente por determinação do governo. O garoto se viu obrigado a garantir o sustento, quando percebeu que qualquer benefício oferecido por entidades não era o suficiente.

Saia antes de o sol acordar e voltava quando a lua já estava brilhando. Pegava papelão, garrafas pet e latinhas de alumínio para ganhar seus trocos e comprar um corotinho de pinga, mais arroz e fubá.
Ele não tinha outra vida, não sabia se existia uma realidade distinta e então o sorriso se estampava como um refúgio, um sofrimento disfarçado em criança, traduzido nos pés sujos e descalços, nas marcas de surra e olhos lacrimejados. Num sorriso inocente.

João cresceu no meio de um  mundo desigual. Preconceitos, decepções e desejos em vão faziam parte do cardápio de sua rotina. Assim foi conhecendo as inconseqüências, as falsas amizades e a sua história se transformou.
Já com a maioridade completa, não sabia nem o que era religião. Pregava dentro de sua comunidade carente e sempre assustada que Deus existia apenas para os que não pecam. Assim, seus pecados o faziam viver de uma maneira tão indolente quanto seu passado.

Sua avó se foi. Maldita cirrose.

João parou de procurar seu sustento nas ruas e foi fazer seu próprio comércio, ilegal. Frequentando a boca de fumo, não demorou a se enturmar e chegar ao pseudo poder. João ganhou dinheiro tão rápido quanto não imaginava ser possível. Virou o traficante do morro, e dono da boca conhecida como “boca da ladeira”. Um dos bandoleiros mais procurados pelas forças maiores, porém o mais amado entre as garotas da comunidade, o mais respeitado, o prefeito.
E num mundo lindo, medroso e irreal, o rapaz com seus tantos 23 anos ditava sem receio o ritmo de sua rotina. Conseguia ali a atenção que sempre procurou nas ruas. Não era sozinho, não apanhava, o dinheiro que recebia era apenas seu. E foi assim, com um pensamento tão idealista, que transformou a sua vida monótona, como a de qualquer garoto carente, em um subsídio perfeito para sofrer.

O sofrimento veio quando o tempo ensinou que dinheiro não era tudo e que a vida não era um jogo. Que os obstáculos são necessários e as vitórias consequências. Soube que o importante não era apenas sonhar e sim aprender a viver, que para ser feliz se deve tentar.
Analfabeto, com marcas de tiro pelo corpo e sem encontrar o seu caminho, João deu adeus à vida. E em algum lugar distante, conheceu  outros garotos que também não tiveram oportunidades de encontrar a tão famosa felicidade.



Lá se foram 13 anos sem você

Para ela.
Se ela disser que ainda me ama.
Ou se o mundo ainda existir.

Estou aqui, em frente a um velho computador, sentado nessa cadeira barulhenta, e com frio nas mãos. Resolvi escrever uma crônica, mas meu pensamento não sai de você, tantos 13 anos depois. Deve ser algum feitiço, ou então, bobeira de menino apaixonado. Mas é impossível esquecer tudo o que fiz, ou deixei.
Quem dera se aquele dia, no clube perto de casa, sentado no banco de mármore gelado, em frente a você, eu tivesse a malícia das crianças dos anos dois mil. Que rosto avermelhado eu tinha, que escuridão vazia no meu peito de menino. Garoto mimado, alheio a outras coisas, a não ser um futebol na rua e uma flor alaranjada, de bem me quer mal me quer.

O nosso amor era de criança. Amor verdadeiro, não como o de gente grande. Ah tempo, por que passou assim?
Tarde da noite na sexta-feira chuvosa, foi a última vez que peguei na sua mão. A tia já começara a reunião das crianças católicas, no barracão da capelinha do bairro. Fechem os olhos para rezar. Menos eu, que te admirava de canto, enquanto acariciava suas mãos de algodão.

No meio da noite, um bilhetinho no caderno de brochura azul chegava até sua mesa, ajudado por João. Nos garranchos improvisados, em três linhas, a declaração sincera. Eu te amo, namora comigo? Como se fosse fácil ter você, em plena rebeldia de oito anos de idade.
A resposta sua nunca vinha com um beijo, ou uma declaração. A resposta era do seu jeito, jeito único, lindo. Um sorrisinho meigo e um olhar para trás. Ah tempo, porque passou assim?

Na saída, uma lembrança, a última vez que olhei para você, com olhos de amor. Você foi por uma rua, e eu desci a da esquerda. Chorando, olhando, querendo te encontrar no outro dia.

E quando o sol amanheceu, fui atrás da flor laranja, a do bem me quer mal me quer. Com lágrimas nos olhos, tirei a última pétala, com a resposta negativa. Por que me esqueceu, se disse que me queria? Você não esqueceu, mas foi embora.
E dali, meus dias nunca mais foram os mesmos. As declarações sinceras nunca mais existiram, a flor laranja era esquecida, e meu pequeno coração, guardava sua lembrança. E dias se passaram até você voltar. Doce ilusão.

Agora já são 3 da manhã e eu aqui pensando em você, como fazia em tempos de primário. Daqui a pouco vou dormir, fechar os olhos e te encontrar.
Nos meus sonhos você aparece. Cabelos curtos, sorriso sincero, que me ilumina. Um anjo sem asas, pra não sair de perto de mim. Te dou minhas mãos, olho para você, em que campo lindo de flores laranjas apenas com pétalas de amor, de bem me quer, nós estamos.  Que beijo inocente que nunca aconteceu.

A maior tristeza dos meus dias, há 13 anos, é abrir os meus olhos e pensar, onde está você, além de aqui, dentro de mim? E passo meus tempos procurando o campo de flores.

Minhas mãos já estão calejadas, as marcas de falsos sorrisos destacam o meu rosto. É hora de te encontrar. E ter você durante toda madrugada.
Quem sabe eu te descubra, num dia qualquer, num banco de mármore quebrado, ou no salão de uma capelinha de bairro, ou então fora dos meus sonhos.

Desculpe meu grande amor, por ainda lembrar-me de você. Mas não tenho culpa, é essa minha vida nos últimos 13 anos. Escrever sobre amor, sobre você, e ouvir o seu eu te amo, com o meu coração.


Crônica de amor: o maior amor do mundo 

E foi naquele dia em que Arnaldo Jabor se deliciou sobre o amor, fez-se a prosa sobre o sexo, e aclamou seus fãs, numa implícita e incitante crônica, que eu, com meus cabelos loiros, olhos azuis, e um metro e oitenta de altura, resolvi prosear sobre a enorme questão que se declina o mundo: o amor, a sublime questão da vida.

Amor de Deus, de família e de infância não se repara, é a minha primeira e talvez única conclusão: religiosa e romancista.
Para quem acompanha um pouco só dos meus trabalhos e textos, segue mais um pouco da minha rotina, ou tenta ‘ler’ meus pensamentos em alguns minutos de conversa, sabe que sou do tipo poético, que descrevo o amor a cada três palavras ditas e um suspiro espontâneo. Sabe que sinto amor até se ele acabar, e sabe ainda que não sei explicar essa tal ternura, mas arrisco.

Me canso de ver as pessoas procurando respostas para seus sentimentos confusos, relacionamentos abalados, e pensamentos lúdicos. Mas ninguém sofre atoa, aprenda. Tudo é natural. Ninguém é feliz atoa, aprenda. É questão de tempo. Seja sincero, você não sabe sentir sequer um amor. Para que sentir, se está feliz? Se sempre sai para a balada com os malucos da escola, se pega uma mulher aqui, outra ali, acolá.

Se vai jogar futebol e pode até ficar bêbado depois, sem ninguém para se preocupar, ou se pode sair com as amigas para paquerar e ser fácil em uma noite. Ah, quanta modernidade. Então me diz, para que sentir amor?
Não ligo para as falácias do grande, espetacular e único Arnaldo Jabor. E para que sentir amor, se tudo na vida você ama? Ei, leitor de Vênus e de Marte, ou até da terra, amor é um só. E é lindo sentir, é muito lindo sentir.

Certa vez, em um dos meus dias de poesia, discorri sobre como é sentir o amor, e acho que essa crônica merece um fundo a mais, tão poético quanto o autor.

Então vai aqui o poema imposto e dedicado aos sonhadores, amores, romancistas, e ao Arnaldo Jabor (por obséquio):
O maior amor do mundo

Quando encontrar alguém especial não deixe passar. Conheça o seu jeito e deixe o que estiver sentindo falar mais alto. Não pense em nada, não mude ninguém, sinta acontecer, o sorriso transbordar.
Quando seu coração ficar parado por alguns segundos, não se assuste. Se o seu olhar se apaixonar por outro e se o seu primeiro e último pensamento forem os mesmos, agradeça.

Se ao fechar os olhos sentir vontade de um abraço e palavras de conforto, se desejar que o tempo voe apenas para encontrar um lindo rosto, não se explique.
Se um dia alguém fizer você se sentir tão bem quanto nunca imaginou ser possível, os seus desejos forem se transformando em loucas aventuras e a sua vida depender de outra felicidade, se sinta bem.

Quando um beijo não sair de sua boca, o mesmo perfume estiver em qualquer lugar e uma voz te fizer amolecer, se maravilhe.
Quando os seus sonhos não incluírem apenas você e o seu futuro planejado for um imenso mar de rosas num paraíso qualquer, parabéns. Saiba que recebeu a única fórmula para qualquer restrição da vida.

O seu amor, o maior do mundo.
Obs: E para quem ainda não conseguiu explicar o amor, nada mais natural. Se um dia você souber, me liga, ou grita para o mundo todo ouvir.



Dia mundial sem tabaco. Tarde demais, Seu Gandolfo 

Ele era Gandolfo de Marte, o sujeito que fumava. Soltava mais fumaça do que a chaminé da casa ao lado. Tinha um perfume de tabaco, com essência de alcatrão e uma dose de metais pesados.
Despertava as anuncias da cidade turbulenta. Fazia arte com madeiras, vendia no centro da cidade, em frente a catedral, e fumava. Fumava tanto que as suas economias iam todas pro bar do Zé. Pitava desde os 13, tinha 50, sem família e amigos. Morava na casa de madeira, jogada no meio de certas mansões.

Sua companhia era o fininho, qualquer que seja: de palha ou de papel de pão, de marca boa ou do Paraguai. O gosto da fumaça e o cheiro da nicotina entre seus dedos o faziam despertar. Aquelas substâncias acalmavam seus neurônios, e seu jeito de sabichão, metido a besta, se extinguia com aquele ato.
Gandolfo de Marte usava óculos de garrafa, calça suja de tinta e terra, e uma ‘havaianas’ branca com tiras azuis. Tinha dentes estragados e amarelos, pele ressecada, e um bafo de Leão. No bolso um tanto de cigarros, e na orelha mais um. Fumava um, acendia outro...

Chegou o dia de parar, depois de tantos 30 anos dando uma pitada. O cigarro não o salvou, ele morreu de tanto fumar, com dor, aquela dor que nem o cigarro conseguiu curar.

E se tivesse guardado todo o dinheiro que usou para se matar, Seu Gandolfo ao menos morreria mais bonito.



Eternos sonhos

Nada era verdadeiro até que um dia apareceu um sonhador. Era de se contestar as suas novas palavras, o seu jeito inocente, enganando a sua própria sombra, suas malícias impensadas enfrentando a sua vida.

Ele era parecido com uma ausência, era orgulho de uma única lembrança, você. A limitação era consequência de sua infame e imprudente tentativa de amar, ser feliz e, só. Tudo como já diziam os mais sensatos: os fracos não sabem amar e os fortes se lamentam de sentir.
As loucuras de seus variantes e redundantes pensamentos o afligiam de uma maneira tão equivocada que ele não podia explicar, nem se quer entender o que alguém tentava falar.

A única tentativa de ser o que sempre sonhou era esperar o mundo girar e o destino acontecer. Se agarrar em alguma escrita ensinando a fórmula para não se enganar, fingindo ser fácil encontrar o caminho daquele sorriso.
Não encontrou versos ou citações que pudessem explicar a sua diretriz, não fez do seu futuro um olhar tão especial quanto seria o seu beijo, nem soube sentir outra aflição que não fosse essa.

O mundo girou, o destino fez questão de chegar, seu sentimento é o mesmo e o tão procurado sorriso não saiu de seus eternos e incontestáveis sonhos.



Eu não sei fazer música

Escrevo nessas linhas que me dedicaram palavras que refletem a meu coração, são expressões que não fariam parte de um lindo bolero. Talvez nem a melodia fúnebre e desgraçada pudesse expressar o que esses versos querem dizer, e a canção mais licenciosa conseguisse dar sentido às minhas letras.

Escrevo, pois, não sei fazer música, mas se soubesse, eu não me ousaria nessas linhas tortas e analfabetas, dizendo, a cada três palavras, sobre o amor. Afinal, meu bem, o que é de um autor, ou de um texto desses, se não a sua perenidade? Respondo a essa pergunta: nada.
E assim como em canções, uma letra ou melodia, textos como este se precisa de perenidade. É necessário fazer de sua obra um motivo de lembrança. No domingo chuvoso, no sábado perdido, na solidão de seu quarto, na lembrança de uma vida. Não há nada mais prazeroso a um autor ou a essas palavras do que ser lembrado num momento qualquer.

E vamos convir de que é muito mais simples uma música permanecer no imaginário de alguém do que um texto literário. Certamente você se lembra de como começa e termina a música que marcou a sua infância, mas não faz o mesmo com o primeiro livro que leu.
E isso é a cultura da nossa sociedade. Um hit musical faz tão e mais sucesso do que uma obra prima literária. E você que teima em escrever, se acostume com isso. Não terá reconhecimento em todas as casas de seu bairro e nem queira tentar enfrentar um texto com uma melodia de fundo, nem que seja a pior que já ouviu. Eles têm alguma coisa que impregnam na cabeça desse povo sem cultura.

O sucesso vem daquele que faz o diferencial na aérea em que atua, ou seja, a mesmice te leva ao comodismo e ao inerente caminho da desilusão profissional. Chato mesmo é fazer a mesma coisa todos os dias, agradar a seu chefe e nem sequer se preocupar em transformar o mundo, esse hipócrita mundo em que você faz parte.
Seja o diferente, meu caro. Escreva diferente, fale diferente, viva diferente. Deixa chover, e se a tempestade não passar, dance na chuva. Não se esconda dos problemas e nem os coloque debaixo do tapete, a sujeira uma hora aparece (e triplicada).

E é por isso que escrevo. Mas não sei fazer música. E se soubesse ler partituras e articular notas harmônicas eu cantaria minhas obras, seria um sucesso ao seu coração.
Mas tento ser diferente, escrevo o que penso e não tenho medo das restrições. Talvez assim eu consiga transformar o mundo, ou chamar a atenção para essas linhas que me dedicaram.


A grande casa branca

Uma grande casa branca, com carros pretos na garagem, câmeras no portão da frente e um imenso muro chapiscado, era o motivo da discussão entre a realidade e os sonhos de um doutor das ruas.

O ‘doutor’era apelido de infância. Brincava de médico cuidando de seu irmão mais novo, já que seu pai virou estrela, quando foi atingido por uma bala perdida(que de perdida não tinha nada) e sua mãe vivia no meio das vielas, ao lado de infratores e alguns doentes drogados.
Na sua adolescência se distanciou do seu irmão, que foi levado para um abrigo custeado pelo governo. E ele se viu obrigado a enfrentar o mundo, tentando mudar o seu futuro que já era tido como certo.

Achou, debaixo de um povoado pontilhão, o abrigo ideal para experimentar o inconsequente, aprender o necessário e conviver com insultos e euforias do mundo. Foi nesse lugar que descobriu um talento para se sustentar e talvez um dia ser feliz.
Aprendeu com um ex artista plástico, agora alcoólatra, a fazer arte com alumínios. Deixou sua timidez de lado e com versos e rimas vendia suas obras nos bares e praças da cidade:
“Olha estou aqui fazendo a minha arte, compre essa rosa e faça sua parte”, dizia enquanto mostrava a linda flor feita com uma latinha esquecida de cerveja.

E assim conheceu pessoas, fez amizades,  recebeu elogios e foi duramente julgado e rotulado por ganhar a vida de mesa em mesa. Absorveu as consagrações e fez das críticas uma maneira de refletir e lutar para que as mesmas condenações se tornassem bons arrependimentos.
E na vida aprendeu que viver era o necessário. E que para ser feliz basta acreditar que o paraíso é logo ali.

Num dia normal de comércio se sentou no banco da praça para descansar, olhou para frente e se deparou com uma casa tão grande quanto os seus desafios.  A morada era de um empresário, agora deputado, bem sucedido e o senhor dessa cidade. Conquistou tudo em pouco tempo, conheceu a política e a desonestidade se evidenciou. Fez uma casa dos sonhos, com dinheiro que não era dele.

Essa casa era famosa. Apareceu no jornal e era comentada por todos os moradores daquela cidade. O artista das latinhas sabia para qual casa estava olhando e quem era o dono da residência.
Foi assim que o ‘doutor’ meio sujo e meio desgostoso, admirou a sua latinha de alumínio, seus dedos calejados e em um verso rimado, resumiu seu sentimento:

“Vejo uma grande casa branca, construída por alguém. Alguém tão milionário que nem se faz o bem. Sou honesto com o mundo e dizem que sou vagabundo. Mas vagabundo eu não sou. Vivo na pobreza, passo fome e passo frio. Mas já me conformei, eu vivo no Brasil. Sou pobre de dinheiro, mas rico de coração. Eu não quero ser o primeiro e viver na solidão”.



A procura de um poema 

No momento mais infindável do meu dia, me lembrei de você. Era um eterno pensamento, que me desvendava conforme a canção que eu escutava, deitado no canto escuro da sala, munido por um coração apaixonado e uma flor perfumada de alegria.

Minhas doces lembranças iriam te encontrar rapidamente, em segundos, ao piscar dos olhos, ao brilho da estrela, e dizer, tão calmamente, que assim, eu menti para seus ouvidos naquele dia em que me despedi, e disse a você que jamais iria voltar. Não menti, pois não voltei. Menti, pois nunca fui, jamais me distanciei.
Apenas deixei a você uma saudade, lá no fundo, para ser a inspiração de seus poemas, o motivo de sua fúria, a razão de suas lágrimas e felicidade. Jamais parti de você, nunca deixaria seu coração viver tão só, como o meu, em dias em que não te encontrava.

Saí naquela manhã cinza de meu bem para topar as rosas que te acordariam, deixei na cabeceira da sua cama um bilhete com dizeres de amor, e quando abriu os olhos, sorriu. Decidi mudar a história de nós dois, troquei as palavras de contos de fadas por sentimentos explicáveis, a mais pura realidade da minha lembrança: não existia mais ‘era uma vez’, agora comecei a confiar no ‘é dessa vez’.
Entendi por fim que para se roubar um coração é preciso ter coragem. A bravura de um sorriso em demonstrar um sentimento bobo. É preciso ter alento para segurar uma paixão, e dedicar-se a ela até o fim dos dias. É preciso viver, ser feliz e sorrir, sorrir, e... sorrir.

É preciso ir à procura da sua poesia, um momento lindo do dia, o pôr do sol, o céu azul, o desabrochar da rosa, o sorriso da donzela apaixonada. Escrever frases de amor, palavras de carícias, momentos de dor. Viver na incessante batalha, a procura da alegria, guardar pedras e sentimentos, jogar palavras ao vento, e seguir a venerar o seu eterno desejo.
Para se roubar um coração deve-se ter a coragem de amar. Se entregar por inteiro, e deixar os teus anseios serem maiores do que os teus medos.

Amei outro coração. Amava outro coração. Ame outro coração até o fim dos seus dias.
Você me entendeu. Me conquistou com o mais belo pesar, disse palavras de carícias que dedicaram à minha essência, e roubou o meu íntimo para me fazer um alguém nesse mar de rosas, e não um simples mortal num poema qualquer.



A um coração

Eu não tenho a pretensão de falar o que deve fazer, não quero tornar-me seu amigo apenas por puro e simples interesse, mas... Que assim seja feito.

Eu sei que sem você não sei viver, e nem quero. Só espero que entenda: tudo o que você sente transborda em mim e não consigo controlar.
Seus mais infames desejos, suas insopitáveis frases, a lembrança dos tempos em que, no seu mundo, só existia você. As promessas de sossegar ao ver aqueles olhos, e os momentos palpitantes de um apaixonado e tolo coração.
Quer saber? Cansei!
Não quero mais depender e nem confiar a minha vida em seus instintos “coraçãonísticos”, a partir de agora eu vou te controlar, sem deixar que reinvente outra emoção que me faça chorar e te detestar, dia e noite.

Espero que não fique chateado e nem pense em me deixar na mão, pois, a sinceridade é uma virtude a qual guardo com você e querendo ou não é em você que deposito toda a minha confiança, que, alias, já estou perdendo...
Eu queria tanto me livrar daquela tarde em que um olhar me acertou com tanta força que você nunca mais esqueceu, ou daquele beijo, numa noite chuvosa, que você faz questão de lembrar.

Ah meu amigo saltitante, se eu pudesse te controlar já tinha feito. Porém, eu sei que iria me arrepender tanto, e culparia você, novamente.
Que bom que não tenho autoridade nenhuma sobre seus anseios e sentimentos. Posso te maltratar a vontade, que você não vai nem ligar e fingir não estar nem ai.

Eu sei o tamanho da sua dedicação e compreensão comigo.
Agradeço a sua atenção...
Toma... Minha vida é toda sua!



Agora sou um jovem senhor do tempo 

Ontem me diziam que eu era um jovem lindo, simpático, sonhador, um milagre divino. Eu era sim um alegre rapaz sorridente, com braços fortes, volúveis, perfil de vencedor. Meus desejos e defeitos se reluziam em meu olhar. Meus sorrisos, minhas vontades, meus amores eram tudo o que em mim faziam acreditar que um dia, talvez quando eu chegasse até aqui, me orgulharia de tudo o que fiz, ou deixei de cometer.

Naquela época, o rádio de pilha que cantava Chico e Caetano, e a flor da janela que desabrochava em dias de sol, me inspiravam a escrever poemas. Eram palavras meio tortas escritas no papel de pão. Eu olhava aquela mulher e aquele pássaro que cantava, e de amor, aos céus, eu dizia os meus sentimentos.
Eu era um poeta do tempo. Um poeta de dor e de amor. Poeta da vida. Bardo, vate, trovador. Um homem que aos santos renunciava sua glória. Despedia em mim o mal pecado, e apresentava ao mundo o valente romântico, que em momentos de tempestade, abria um largo e vasto sorriso, que denunciava aos viris o legado deixado por meus pais: nunca deixes se abater por o que, ou quem, não é feliz. A vida é linda, é muito linda para se derrubar lágrimas que não sejam de alegrias.

Então criei a minha alma como se fosse um anjo. Sempre ao lado do criador agradeci, pedi perdão, supliquei ajuda e, sobriamente, que o tempo não passasse. Não consegui convencer ao Senhor para ele parar o tempo, e hoje estou aqui...
Talvez se a estação da primavera dos anos da brilhantina permanecesse por até hoje, eu ainda conquistaria o broto de vestido rosa que passara pela Praça da Catedral, poderia dizer três belas frases de afeto, e com meu sorriso branco e brando encantasse o teu coração. Pode ser que a bela donzela, de cabelos louros e cacheados, não me cedesse um lugar para sentar quando eu chegasse para alimentar os pombos, mas alimentá-los-iam comigo.

Se aquele inverno intenso, e aquele outono de folhas secas, estivessem por aqui até hoje, eu me sentiria um Don Juan do meu vilarejo. Ainda andasse com o casaco cor de verniz importado do meu avô, e o cachecol de seda cinza, que apenas eu apresentava pelas ruas.
Se todo aquele tempo ainda estivesse por aqui, as meninas respeitariam os seus corpos e conteriam as suas vontades, e os rapazes seriam homens até depois da maioridade completada.
Em minha época de luz, o amor que eu sentia pela mulher da minha vida era o amor em que presenteava as estrelas mais lindas do céu. Era o motivo de meus belos poemas e poesias. Meu rádio de pilha tocava João e Maria de Chico, e Peninha e Caetano e Marisa e Poesia em canção.
A trilha sonora de minha vida era a voz de uma mulher apaixonada.

Agora, uma menina virgem de tantos 15 anos me chamou de Senhor. E com minha boina virada de lado, alimentando os pombos, me lembro dos poemas que escrevi e rejeito ao senhor, perguntando, pois, porque um dia o tempo não parou naquela estação, se a estação divina era aquela. Um beijo era o sonho ao sino de Belém e um amor era perfeito ao meu coração.
Pois então, Deus, a doce menina virgem me disse que sou um Senhor. Um Senhoril que alimenta pombos na praça.

Mas porque se ainda vivo nos tempos da felicidade, nas memórias de meu bem, de meus papeis de pão. Pois porque Senhor, mesmo com cabelos brancos, mãos enrugadas, e uma bengala como baldrame, os tempos onde meus poemas refletiam histórias de donzelas inocentes e apaixonadas, porque se foram...

A doce inocente me chamou de Senhor e sorri para ela...
Como eu queria voltar naquela estação e conquistá-la com meu sorriso brando e encantador, mas Deus não me ouviu, e sabiamente fez o tempo passar.

Agora sou um senhor, um belo e jovem senhor dessa estação, e a delicada menina me destina um lugar para sentar no banco da praça. E olhando para ela me lembro: ontem eu era um milagre divino. O tempo passou, e agora sou apenas um jovem Senhor, esperando a eternidade chegar.



Amor a primeira vista

Eu ainda não ouvi a sua voz, não senti o seu perfume. Ainda não olhei nos seus olhos, como um dia vou olhar.

Apenas vi o seu sorriso, meio deslumbrado, de longe. Admirei a sua beleza, tão linda, tão especial. Senti sua timidez, seu jeito de menina, suas responsabilidades de mulher.

Descobri a sua rotina, seus enganos e os seus amores. Não fiquei tão certo ou inquieto como eu deveria, não tinha vontade de perder a sua atenção.
Minhas tristezas, meio relativas, eu compartilhei espontaneamente. Seu jeito inocente contrastava com minhas absurdas vontades: te ver, abraçar, te conhecer.

Não fiz de um sábado, tão escuro e triste, o que ele deveria ser. Aprendi a respeitar os minutos dos dias e ter a paciência para esperar uma surpresa, que podia estar ali, em qualquer lugar.

Entendi seus atos e conversas um tanto sóbrias. Em cada brecha eu te exaltava, com elogios, de tempos em tempos.
Era pouco, eram apenas algumas palavras. Um oi e algumas risadas sem graça.

Durante a semana, sem qualquer vontade de dizer não, eu deixava meus pensamentos seguirem um rumo. Um bom dia que seja, numa esquina passageira, era o motivo do meu dia ser outro.

Esperar por outro sábado é a minha única diversão durante a semana. Enquanto isso eu faço sonhar, tento descobrir sua voz e sentir o seu perfume. Sei que estou sonhando, mas acordar, não. Não vou.

Me conformo com sua existência . E entendo a sua única inocência: me ver, como uma simples pessoa, que adora te dizer um oi.
Não, não sou apenas isso. Sou um sonhador, que agora só pensa em você, insistindo na ideia de que um dia eu vou pegar na sua mão, vou falar no seu ouvido e acariciar a sua face.

E quem sabe dos meus sonhos saia um futuro desses de cinema.  Sou a pessoa mais eufórica do filme da vida. Afago minhas euforias e sonho com você.

Não acredito em amor à primeira vista, apenas em sentimento. Um sentimento único, que seu olhar denuncia. Um sorriso que expande e um coração que se alivia. Acredito apenas em um simples “olá”, que muda completamente os seus sonhos e encontra a sua eterna felicidade. Não acredito em amor à primeira vista. Acredito na vida, no desejo e na emoção. E ainda confio em um sorriso, tão radiante, que mudará para sempre o meu coração.



Aqui, ali, onde quer que você esteja 

Aqui, eu sou feliz do jeito que preciso. Sou tão bom com meus sentimentos que nem entendo o que eles me pedem, sinto ciúme de quem não devo, amor a quem merece, carinho aos que me retribuem.

Aqui, sou bom. Tão ruim que ninguém percebe, incoerente na medida certa, faço pensar em ser amado, ou faço sentir o que não querem.
Aqui, é lindo viver. Morro de saudades dos tempos em que tudo representava confiança, dos tempos em que o olhar se expressava, e que as palavras eram deixadas de lado. Os tempos em que os bancos da praça se tornavam confortáveis poltronas. Tempo em que o pior filme do cinema se tornava inesquecível, você estava lá.

Aqui, a verdade é um ato de coragem, os versos ditos não podem ser impensados, a ingenuidade é uma virtude, que faz desejar o impossível.
Nada é esquecido, os segundos são intermináveis, o futuro construído em um único ato de qualquer sentimento. Um abraço ainda representa tudo o que não se pode ter, faz sonhar, e sentir um perfume tão doce quanto você realmente é.

Um beijo no rosto, um aperto de mão, uma frase sincera, um olhar verdadeiro ou o medo do não. Aqui, tudo tem seu significado, os limites certos, no tempo determinado, por um coração que sabe o que faz, ou simplesmente acredita nisso.
Aqui, eu sou realizado, não como um dia planejei, mas nada acabou. Ainda posso sentir o que mereço, posso te ver e venerar minhas belas fantasias de um futuro qualquer.

Aqui, eu nem penso em ir embora pra Pasárgada, já me sinto lá. Mas se um dia você resolver fugir dos meus olhos, juro que vou atrás, até você voltar.
Aqui, o destino é quem manda, quem muda, faz acontecer. Aqui, só eu entendo, é meu mundo. Eu te amo na medida certa, como tem que ser.

Não mudaria nada o que vivi sorrindo com seu sorriso. Foi isso que me fez chegar até aqui, confiar nos seus olhos e lembrar os seus lábios.
Eu te amo, aqui, ali, longe ou perto, em mim ou não. Onde quer que você esteja, não sairá do meu coração.



Clarice 

Na esquina dos olhos verdes, os cabelos cacheados e loiros. Um vestido branco ela vestia, um sorriso lindo e de ternura. Mas que vergonha tinha aquela donzela, que linda era aquela mulher.

“Se o mundo ainda existir, eu vou amá-la” disse ele, em um dia de domingo.

Esperava quieta no canto, um perfume chegar, amarrava as tranças de lado, piscava lentamente, com seus olhos verdes. Era Clarice
Clarice de minha vida. Clarice de amor, Clarice.

Palavras eram doces melodias. Os acasos na esquina, coisa de menina. Menina Clarice, que menina.
O sol se punha, a lua chegava, o vento soprava frio e um beijo a esquentava. Era amor de menina, amor que nunca viu, que soube existir.
“E se o mundo parar, eu ainda te amo” disse ele com lágrimas no peito.

Ah, Clarice, que de ternura ainda vive.

Rasgava ao meio os papéis com letras bonitas, mandados pelos rapazes da rua. Tinha em seu quarto a foto de um amor, o único amor. Mas Clarice se desfez.

Na manhã friorenta e temida daquele sábado chuvoso, os olhos verdes se foram com as lágrimas que insistiam em sujar o seu rosto de anjo.

O amor mais lindo, do beijo eterno, do jeito mais sincero, do amor que nunca viu, se foi.

Morreu de amor, em uma cama vazia.
Clarice, ah Clarice, matou seu amado.
Matou e chorou por ter o dispensado.

Por simples bobeira de menina mimada, que nem ela sabia explicar.

Clarice, a menina dos sonhos, a mulher de solidão, a amante dos pecados.

“E se um dia tudo virar fim, eu ainda vou amá-la” disse ele, antes de partir.



Crianças, não cresçam, é uma cilada 

Pequenos, não cresçam. Chamem a mãe para se limpar, dancem com a Xuxa, riam do Didi, caiam, batam a cabeça, tomem chuva e brinquem na enxurrada, engulam uma tampinha de caneta. Isso faz bem. Não queiram crescer, é chato, e dá uma saudade da mamadeira.

Me lembro bem dos tempos de criança, da vontade louca que eu tinha de crescer, me tornar independente, escolher minha própria roupa, pagar as minhas contas, não me preocupar com a matemática da escola. Mal sabia que aquele era o momento da felicidade, dos sonhos, da inocência. Foi preciso crescer para perceber o tempo que perdi imaginando a minha vida de gigante.
Como era bom escrever cartinhas de três linhas ao Papai Noel, fazer uma casinha aconchegante ao Coelhinho da Páscoa, torcer para que a Fada dos Dentes viesse me visitar à noite, e ter medo do Lobo Mau da Chapeuzinho Vermelho.

Ah, que tempo bom aquele das bolinhas de gude, da pipa voando ao eterno, do futebol no meio da rua de terra, do amor de criança, da felicidade, do sincero. Problemas existiam apenas para quem podia resolvê-los. Eu? Ficava feliz quando ganhava um saco de pipocas no sábado à noite.
Pois é, cresci, e caí numa cilada. Pensei que tudo seria diferente. Imaginava que os grandes eram independentes e cuidavam de si mesmos sem se preocupar com o mundo à sua volta, teriam dinheiro de sobra, e não existiriam outras obrigações, a não ser cuidar de seus filhos. Que decepção.

As obrigações do mundo adulto são tão incoerentes que nem as felicidades da vida eles, os adultos, conhecem. Passam o resto de seus dias trabalhando, estudando, pagando contas, fazendo contas... E as crianças? Ah, que inveja delas. Apenas se atentam ao jogo de vídeo game no fim da tarde.
Até o amor, que é amor, o sentimento mais sincero e fascinante deste universo, as crianças conhecem mais. De maneira inocente conseguem amar o próximo sem pensar na razão, apenas seguem sua emoção de anjo, e fazem do mundo um motivo tão simples para arrancar o sorriso mais sincero.

Por isso, dou uma dica aos pequenos sonhadores: não queiram crescer. Insistam à fada madrinha, ao amigo imaginário, falem com Deus ou com o seu super-herói favorito. Façam de tudo para que o tempo não passe. Nem que seja nos seus sonhos.
Crescer é uma cilada. Uma arapuca sem volta.
O que fica é apenas a saudade de um dia ter sido um pequeno inocente.


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