ARTIGOS

O Brasil que não respira

Um Brasil que ginga, que samba, exporta a arte, joga bola para o mundo. Um Brasil que padece e morre, sem costumes, folclores e ídolos. Um futuro obscuro está à espera de nossa gente.
Veneramos a democracia. Uma luta de tempos, uma incessante batalha vencida, que hoje permite a maioria escolher representantes do povo. São engravatados, que têm a função de propor leis para o bem comum e fazer valer suas regras, que influenciam diretamente a rotina de cada cidadão.
Mas, algumas vezes a democracia é esquecida até por aqueles que lutaram por ela. Afinal, as mesmas propostas colocadas a mesa pelos parlamentares, passam longe dos direitos do cidadão e não são discutidas, interpretadas e votadas, por aqueles únicos afetados pelas medidas impostas.
Mas, não vim aqui promover críticas a este sistema de governo - que tem como funções principais a liberdade de expressão e as oportunidades de participação na vida política – apenas contesto uma assinatura na hora errada, seja ela de quem for, vermelha ou azul.
Explico: no último mês o governo federal lançou uma proposta de reforma do ensino médio brasileiro. Entre outras, uma das mudanças importantes determinada pela medida é que o conteúdo obrigatório em salas de aula será diminuído para privilegiar cinco áreas de concentração: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. Porém, conteúdos deixarão de ser obrigatórios nesta fase de ensino, são os casos de matérias como artes, educação física, filosofia e sociologia.
Ainda não entendi, não sei se tentarei, qual o objetivo principal da iniciativa federal. As explicações dão conta de que “em breve”, teremos resultados expressivos por aqui. Segundo os mediadores, a reforma dá opção para que as escolas ofereçam aos alunos cinco possibilidades de áreas nas quais queiram empregar mais tempo. É provável que a reforma entrará em vigor em 2018.
A educação, como o clichê diz, é o ‘futuro de uma nação’, mas, no Brasil me parece que não é bem assim. Agora não se pensa, não se joga, não se cria. Acaso os estudos, as pesquisas, os índices inimagináveis, apontam que é preciso algo ser mudado na educação dos jovens brasileiros, isso pode acontecer sem desprivilegiar nenhuma área.
A reforma proposta irá privar os adolescentes da prática esportiva - já tão precária – colocará fim a espetáculos por aqui – outros palcos abrirão suas cortinas mundo afora – desmentirá a poesia do universo - nada será como antes.
Estamos perdidos em um caminho em que a única saída é a própria educação. Os mesmos defensores da reforma, devem saber que o principal problema no ensino médio brasileiro é justamente o desinteresse do estudante pela sala de aula. Agora, coibindo um jovem em formação, sedento de expectativas e por informações, ao acesso a matérias que elevam seu conhecimento, instruem e ensinam a questionar o sistema em que ele está inserido, este problema irá piorar.

Ao menos obrigaram o “inglês” a estar presente nas grades educacionais. Vamos continuar criando mão-de-obra qualificada para os restaurantes lá fora. E ninguém terá subsídios para protestar. A explicação para a reforma no ensino médio brasileiro vale uma aula de Filosofia. Ficaremos sem resposta.

Da morte à esperança

Foi em Orlando, Estados Unidos, que um atirador matou 50 pessoas em uma boate gay. Foi no Rio de Janeiro, Brasil, que uma jovem de 16 anos foi estuprada por 30 homens. E em Tarumã, São Paulo, uma mulher jogou seu filho recém-nascido em uma caçamba, foi trabalhar e o bebê morreu. Etc, etc.As notícias que fizeram parte das manchetes nos últimos meses me dão agonia! É difícil acreditar. Mais complicado ainda é entender. O que será que está acontecendo? Tudo isso é reflexo do quê? Um espelho quebrado de uma humanidade hipócrita. Sem perdão, educação, paciência!O Estado Islâmico reivindicou a responsabilidade pelo ataque na boate de Orlando e disse, barbaramente, em nota, que "Deus permitiu atacar os imundos cruzados (...)" e destacou que esse atentado é "o maior registrado nos EUA pelo número de mortos". Colocam o nome de Deus em tudo e desculpam atos como esse como uma missão a ser cumprida.As mortes na boate foram o estopim da intolerância deste mundo perdido. São casos assim que chamam a atenção da humanidade, mas que se equiparam e deveriam ser tão revoltantes quanto as manchetes que destacam os gays espancados em colégios, avenidas, ruas. A adversidade não se justifica.Disseram que a culpa pelo estupro no Rio de Janeiro foi da própria vítima. Ela usava roupas curtas, frequentava bailes funks, namorava “gente que não presta”. A culpa, na verdade, é de quem tem essa opinião! Qualquer mulher deste mundo tem o direito de usar a roupa que quiser e isso não quer dizer, caros, que ela está pedindo para ser xingada, assediada, humilhada, estuprada.O bebê encontrado na caçamba foi socorrido, mas morreu antes de chegar ao hospital. Tinha acabado de nascer. Ele sentia frio. Estava estranho, o mundo que prometia ser belo agora era um monte de lixo. A voz da mãe desonrosa, que ele tinha ouvido como um ruído protetor nos últimos nove meses, se distanciou, não voltou.Aquela criança acordou para um universo desonesto. Viveria em um monte de desgraça, iria chorar de fome e implorar por amor. Nasceu para um mundo onde a intolerância ainda prospera e a violência tem vez. Aquele bebê morreu. As 50 pessoas de Orlando morreram. A dignidade da criança de 16 anos violentada, morreu.É tudo estranho. É o reflexo do espelho quebrado dessa sociedade feita por hipócritas. 


Uma imensa cidade chamada Assis

Quando eu morava lá, nas ruas de terra da Pedro Rodrigues da Silva, nº que não me lembro, no bairro Inocoop, ainda não imaginava que eu conheceria de perto a minha imensa cidade de Assis. Eu era apenas um garoto, que brincava na enxurrada e corria atrás de bola, lutando contra as pedras das ruas e da vida. Não, não imaginava que Assis era tão grande assim.
Conhecia, no máximo, o caminho de casa até a escola. Era longe. Andávamos em muitos e íamos e voltávamos de baixo de uma lua do meio dia, com um sorriso no rosto e mochila pesada nas costas. Era, aquele, o melhor dos mundos. E passou... as ruas de terra foram todas asfaltadas e eu me mudei a outro canto dessa enorme cidade.
Hoje conheço de perto a realidade do ‘universo dos três s’. E é por isso que muitas vezes eu me entristeço em ver pessoas que se dizem, como eu, ‘assisense com orgulho’, difamarem a minha terra. Cidadãos que pensam apenas no ego, na sua casa, a seu redor, e esquecem da vizinhança. Homens que sabem reclamar e julgar, mas não movem uma palha de contribuição.
Procuro diariamente em livros, autores, artigos, pensadores, opositores, políticos, e não consigo encontrar respostas que me convencem a entender essa natureza do ser humano. A desgraça alheia é sempre bem-vinda. O bem comum não existe se um indivíduo não levar vantagem sobre os demais. Essas pessoas, que incitam atitudes irracionais e praticam a politicagem em seus termos mais obscuros, essas pessoas não são ‘assisenses com orgulho’. E quem é, sabe que aqui estamos nos trilhos do desenvolvimento, sim! Apesar de, como qualquer lugar deste país, com dificuldades financeiras, ainda assim, as páginas da história de Assis não pararam de ser escritas.
É um orgulho ver todas as crianças assisenses nas creches. Afinal, nos últimos três anos, foram quatro destas inauguradas, o que zerou a demanda de vagas. É também um orgulho ver os alunos do ensino fundamental tendo aulas em lousas digitais, com um ensino de qualidade, interativo, aprendendo mais. A valorização dos professores. A construção de novas escolas. O esporte levado em todas as unidades de ensino, as quadras cobertas.
Uma Faculdade Pública – FATEC, um curso de medicina implantado na Fundação Educacional de Assis e que transforma de vez a história de nossa cidade. É um orgulho ver a região onde foi instalado o Poupatempo estar tão desenvolvida, como nunca ninguém imaginou.
E falando em imaginação...
Quem poderia prever que em três anos a saúde da população seria tratada com tanta prioridade? As inaugurações da UPA, do AME, SAMU, P.S. Referenciado, Leitos de UTI da Santa Casa, novas Unidades de Saúde, e implantação de uma efetiva Rede de Urgência e Emergência, comprovam isso. Aliás, foi por conta de todas essas conquistas que os números da mortalidade infantil caíram drasticamente em nosso município.
Há quem conteste, “e a infraestrutura? Quem não vê os buracos nas ruas? ” Eu sei, são muitos. Problema esse que será resolvido. As chuvas fogem do controle de uma administração e os buracos não chegam nem perto das ruas de terra de quando eu era criança.
Mas a nossa infraestrutura não está esquecida. Aconteceram, depois de décadas, obras no Distrito Industrial, no Terminal Rodoviário. Foram construídos Centros de Convivência para idosos e um Centro de Artes e Esportes Unificados, no Colinas.
Ah, as lembranças... algumas vagas memórias que tenho ilustram a época em que a FICAR era uma grande referência em nossa região, e que elevava o nome da cidade ao cenário nacional. As recordações não são muitas, pois, a Feira ficou 12 anos sem acontecer. Em 2014 ela retornou e devolveu as minhas lembranças e a alegria de muita gente.
É por tudo isso que aquelas pessoas que se dizem ‘do povo’, deveriam falar de nossa Assis com positividade. Nós podemos levantar aqui uma bandeira de conquistas. Temos muitos motivos para comemorar!


Carta aberta a Dilma e Temer

Há poucos dias o Brasil foi surpreendido por uma carta.  Uma mensagem do vice-presidente da República, Michel Temer, para a presidente, Dilma Rousseff. Muitos se perguntaram: por que uma carta, se o óbvio seria os presidentes se encontrarem diariamente para trabalhar a favor do nosso País? Uma carta? Foram palavras inóspitas de um governo que envergonha os brasileiros.
É por isso que tomei a liberdade e, assim como Temer, escreverei nas linhas abaixo uma carta para os maiores mandatários daqui. Aliás, antes que me achem tão incompleto quanto o vice peemedebista, apenas escrevo em papel, pois não tenho o e-mail desses senhores, se é que eles sabem trabalhar com tanta tecnologia...
Com carinho e repúdio aos senhores presidentes
Olá, caros presidentes. Venho por meio destas linhas expressar um pouco de meu sentimento a vocês. A inspiração desta carta veio quando li a de Temer, aquelas palavras de marido traído me deram uma ideia. Dilma, não fique brava por você nunca ter me inspirado a nada. Por mais que a cada dia você me motive a trabalhar mais e mais, para pagar as abusivas contas de supermercado, energia, água, impostos e impostos.
Fiquei pensando e cogitando as minhas ideias para tentar chegar aos pés de seus discursos políticos e mentirosos que sempre aparecem nos noticiários. Não consegui encontrar qualquer alternativa que pudesse me elevar a esse nível. Então, concordei em deixar as minhas pobres palavras falarem por mim.
Afinal, por que vocês enviam cartas? Dilma, Temer, vocês estão à frente do Brasil e não de um colegiado escolar. Se reúnam. Agendem, em suas rotinas atribuladas, um tempo mínimo para expor ideias, propor soluções e pensar um pouco mais na população brasileira. Esqueçam, nem que seja por poucos segundos, essa politicagem barata que acaba com as nossas cores.
Escrevam uma carta a seus ministros, cobrando deles atitudes plausíveis. Cobrem trabalho. Muitos deles não sabemos nem quem são, nos apresente. A maioria não possui um currículo plausível e que justifique o cargo em que ocupa, então, mudem.
Escrevam uma carta à Petrobrás, pedindo desculpas por a maior empresa do Brasil ser destruída aos poucos. Não esqueçam de agradecer por ela ter recheado os seus bolsos e ter sustentado tanta coisa errada, até mesmo quando a dona Dilma era chefe por lá.
Mandem uma carta para os hospitais, perguntem do Sistema Único de Saúde, sobre os leitos insuficientes, os pacientes nos corredores, nas filas, à espera de um acolhimento digno. Não façam a mesma pergunta a seus médicos particulares, eles não saberão responder.
Façam uma correspondência destinada ao Papai Noel. Supliquem para ele aparecer por aqui, pois já ouvi dizer que em muitas casas esse ano ele não vai passar. Está tudo muito caro, inclusive os presentes. E isso seria traumatizante para as nossas crianças.
Enviem uma correspondência ao Ministério dos Esportes. Cobrem dele uma postura sobre as Olimpíadas, e questionem sobre o legado da Copa do Mundo, que ninguém sabe qual é. Aproveitem, enderecem algumas linhas à Confederação Brasileira de Futebol, não menos importante do que as outras secretarias, e perguntem aos que lá estão mandando: “Por que vocês estão acabando com um de nossos maiores produtos?”.
Olhem para a cultura, escutem as músicas que estão tocando no rádio. Se revoltem também. Saiam às ruas. Ouçam os panelaços. Os gritos de livre arbítrio. Revejam a democracia, a imprensa e sua liberdade manipulada, manchada, ignorada.
Não esqueçam, Dilma e Temer, caros presidentes de nossa República, de escrever uma extensa carta aos municípios do País. Perguntem a eles o que acham dos compromissos que vocês assumiram e não cumpriram. Dos equipamentos públicos caros e que são apenas sustentados pelos prefeitos, que não têm condições orçamentárias para gerir suas cidades. Me expliquem qual o motivo de o repasse de verbas às cidades não ser suficiente, se elas são as principais responsáveis pelo desenvolvimento do nosso Brasil.
Temer, Dilma... Por fim, destinem algumas considerações para todos os brasileiros. Chamem o Cunha, digam adeus, anunciem o fim dessa corrupção que nos assola, peçam perdão, sejam dignos de ao menos reconhecer seus erros. Deem a oportunidade para o País mudar. Nós não queremos vocês como os nossos representantes.

Vidraça

Muito ouço falar que o nosso país está passando por uma crise financeira de grandes proporções, e confirmo tal afirmação em atitudes cotidianas. Uma volta no comércio da cidade nunca foi tão solitária. Escuto o barulho de vendedores conversando. Vejo cartazes gritando promoções.
No mercado, o tomate estraga por ser caro. O vermelho chamativo se desmancha. Com o passar dos dias ele perde sua cor original e vai escurecendo pouco a pouco. Suas sementes são inutilizadas, e daquele fruto não sairão outros.
O arroz e o feijão frequentam mesas requintadas como há tempos não se via. A cesta básica nunca foi tão pobre e necessária. Três filhos, pai e mãe, se amontoam no combate à fome. A fome mata: o bolso. E mata de tristeza e desgosto os pais trabalhadores, assalariados pelo mínimo pago a eles.
No fim do mês não sobra nada. Ter energia elétrica não é mais tão vantajoso assim. Bandeiras coloridas indicam que aquela conta irá tirar metade da remuneração dos servidores. A água, escassa e rara (quem diria), tem a sua conta compensatória no fim do mês. Os últimos dias dos 30 mensais, aliás, são terríveis. Um pesadelo.
Estamos em meio a uma crise. Coincidentemente tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo em que escândalos políticos e partidários afrontam os brasileiros. As páginas dos jornais informam diariamente o que estamos cansados de saber, que por aqui se rouba até o que não têm.
A luz no fim do túnel indica que a mudança ainda pode acontecer. E não me lembro, em meus pouco mais de 24 anos, em ter presenciado tantas pessoas declarando nas ruas, de caras pintadas, as suas insatisfações com os governantes máximos do país. Nunca antes na história dessas duas décadas, um povo gritou tanto por seus direitos.
Há quem diga, ainda, que está tudo perfeito, lindo, fantástico. Já ouvi até dizerem na capital federal que estamos caminhando a passos largos ao primeiro mundo. Na realidade, já chegamos lá. O tão cobiçado primeiro lugar é sim frequentado pelo verde e amarelo! Afinal, somos os primeiros em corrupção, em tráfico de drogas, assassinatos, desigualdade. Estamos no topo. E no final da lista da educação, do desenvolvimento, da qualidade de vida.
Há ainda piadas de mal gosto no congresso federal. As últimas davam conta de que poderia ser aprovada a redução da maioridade penal, onde jovens a partir dos 16 anos poderiam ser presos e condenados como qualquer outro cidadão maior de idade. A ideia não é de se jogar fora, isso poderia reduzir sim os índices de criminalidade por aqui.
Mas, ideias boas devem ter argumentos melhores ainda. Hoje, o nosso sistema penitenciário é precário e não consegue se adequar nem ao menos à demanda existente, imagine, então, com um considerável aumento desse número de presos.
Além disso, também disseram que a maconha poderia ser liberada para consumo próprio. Para um país em que o consumo de drogas está diretamente ligado aos números alarmantes de diversos crimes, isso seria um ‘tiro no pé’. Eu diria para os nossos caros governantes que pensem em investimentos em Assistência Social, Educação, Informação...
Ao falarmos nas ideias, também repensamos em ações. Por exemplo, apesar de tudo que o Governo Federal arrecada em impostos, de tudo que pagamos em impostos por uma bala, pela conta de energia, pelo quilo de tomate e o pacote de feijão, ainda assim vivemos uma crise financeira.
Muitos municípios brasileiros já decretaram estado de falência, afinal, com os poucos recursos que recebem da União fica praticamente impossível de se administrar e investir em uma cidade. Os impostos que entram nos cofres municipais também são relativos e boa parte deve ser destinada a outras esferas de governo.
A situação é mais crítica do que se pinta por aí. Somos vidraças, refletimos o incorreto mundo a fora. Julgados por atrasar a conta de luz por um dia. Julgados por raça, cor e religião. Mas que não consigam quebrar o espirito de mudança e desmanchar o sorriso esperançoso característico dessa nação.
Há uma luz lá no fim do túnel, que ainda não conseguiram apagar.

Minhas viagens em busca da sabedoria


Ao ler um bom livro no final da noite de todos os dias atrás, percebi que eu estava em outro lugar, que não era mais tão familiar quanto meu quarto. Eu estava longe. Lá pra lá de outro mundo. Perto de onde Zezinho estava ao apaixonar-se por Mônica, sua paixão desiludida. Eu estava próximo a eles no maravilhoso “Procurando Mônica” de José Trajano.
E depois de conhecer de cabo a rabo a história desses dois personagens, pulei pra outro canto e conheci outros papéis. Vi, então, uma rua escura, daquelas de dar medo em qualquer mocinha.
Nesta rua, estava parado, num canto escondido, o francês Jean-Baptiste Grenouille, um cara maluco e galanteador, que conta com uma imensa sensibilidade olfativa e parte em busca da essência perfeita, do perfume que lhe falta para seduzir e dominar qualquer pessoa. Grenouille é de dar medo, e vontade de conhecê-lo. Foi isso o que senti ao ler “O perfume, a história de um assassino” de Patrick Süskind.
Em algum desses dias me encontrei nas linhas que Brás Cubas decidiu narrar suas memórias, após a sua morte, e me vi diante dos comportamentos individuais e sociais de tempos atrás. Tudo genialmente explicado por Machado de Assis, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Quanta coisa boa tem em sua obra!
Cada coisa divina que conseguimos encontrar também em outros tantos autores. Sabedores do caminho que nos leva à sabedoria, o livro. Esse mundo ta cheio de bons autores, e também cheio de gente desinteressada em suas obras. Eu não ligo para essas pessoas!
Então, abri o espetacular “Capitães da Areia” de Jorge Amado, que me fez voltar lá para os anos 30, e conhecer um grupo de menores abandonados, ambientados em Salvador, que me remeteram a algumas das mais incríveis aventuras que já encontrei em um livro. Obra de arte!
Ufa! Quanta coisa boa em um só texto! Parece até um dos livros que li há tantos dias atrás. Então, me recordo de “O céu é de verdade”, um livro contemporâneo, do americano Todd Burpo, que relata, de maneira emocionante, a experiência que teve com seu filho, ao ver a criança quase falecer, e dias depois ilustrar ao pai o que havia visto no céu, em seu tempo de internação. Relato tão espontâneo e inocente como apenas uma criança consegue fazer.
E para quem me perguntar sobre as viagens mais lindas e inesquecíveis que já fiz, eu citarei algumas, e não me esquecerei das minhas ilustres companhias, como as de Paulo Coelho, Fernando Veríssimo, Felipe Pena, Rubem Braga, Moacyr Scliar e o meu favorito, Gabriel Garcia Márquez.
Alias, falando em ilustres e em companhias, não poderia me esquecer do tão admirável conselho que o mestre Mário Quintana me deu em “Para viver com poesia”, uma reunião de seus melhores poemas, quando ele disse: “Dupla delícia, o livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”.
Então, eu sigo o conselho do mestre. E sigo minha viagem, para onde qualquer livro deseja me levar.

A Matheus Marioto


"Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada." - Fernando Pessoa

Algumas vezes eu o via nos corredores da Escola Estadual Lourdes Pereira, onde cursamos o ensino médio. Não me lembro ao certo se trocamos alguma ou algumas palavras. Talvez, no máximo, um bom dia, ou um simples aperto de mão. Bom, eu não o conhecia tanto assim.
Mas, a notícia de seu desaparecimento, e, como consequência, de sua partida, me arrepiou de emoção, e um sentimento incompreensível me tomou conta, tanto quando vemos nossos sonhos se perderem e irem embora com o vento. E tenho certeza de que não só a mim, mas também deixou comovida muita gente que talvez nunca tenha o visto.
Matheus, 23 anos, a minha mesma idade e, também igual a mim, muitas conquistas, muita batalha enfrentada e um caminho delas a ser percorrido. Matheus, eu não o conhecia para chamarmos um ao outro de amigo, mas lembro bem de suas amizades e o tanto que colegas de classe elogiavam sua incomparável inteligência; e quanta inteligência eu sei que te aflorava.
E então, um jovem garoto foi até um país mero desconhecido para fazer sorrir e encher de orgulho sua família que ficou por aqui. Era comum a distância separar momentos de angústia e felicidade, mas, sempre que podia, e era quase sempre mesmo, conversava com alegria e saudade com seus parentes longínquos, distantes apenas na presença física (coração de quem ama, jamais se afasta do outro amor).
Não costumo tentar entender as linhas escritas por Deus, alias, quem sou eu para decifra-las. Costumo dizer que Deus escreve certo por linhas certas, e torto é aquele que não sabe interpretá-las. Então, dessa vez, Matheus me contrariou, e me deixou torto, sem entender o porque tão cedo se foi.
Pode ser que lá no céu esteja precisando do melhor cientista da computação que se tem notícias, assunto que Matheus seria mestre daqui a pouco tempo. Agora, ele superou mais uma barreira, e se tornou mestre em outro estágio.
Eu também não sou bom, e acredito que ninguém seja, em arrumar desculpas ou tentar entender a dor da partida. Não sei o que dizer quando alguém segura nas mãos de Deus e viaja para outro mundo. Consolar? Sou péssimo! Consigo no máximo afagar lágrimas incontáveis que insistem em encontrar o chão...
Não terei a oportunidade de encontrar seus familiares e amigos próximos, para dizer o que com certeza eu diria: "Ele está bem, e foi alegrar a vida dos anjos; foi surpreender outro mundo.". Mas, um dia direi a ele pessoalmente, ou "almamente": "Prazer imenso em te conhecer, ouvi falar muito, mas muito mesmo, bem de você".
Por enquanto, Matheus, o que me resta, e apenas isso, é te incluir em minhas diárias orações e te dizer, como se eu te conhecesse há muito tempo: "Descanse em paz, meu amigo!"

Ninguém aqui é macaco!

Em um jogo de futebol válido pelo Campeonato Espanhol, realizado no domingo, 27 de abril, o jogador brasileiro Daniel Alves, baiano bom de bola e negro, foi vítima de racismo por parte de torcedores que estavam na arquibancada do estádio.
Em um ato possivelmente calculado, uma pessoa jogou uma banana em direção ao jogador do Barcelona, que prontamente respondeu e, ironicamente, descascou e comeu a fruta. Dani Alves sentiu na pele o que as pessoas negras, esportistas ou não, sofrem diariamente. A banana jogada pelo torcedor reflete a uma provocação racial secular, onde a fruta representa a retratação da pessoa negra como um ser irracional, um animal, um ser excluído da sociedade.
Mal sabia Daniel Alves que o seu ato naquele momento desencadearia uma grande repercussão, em uma bandeira levantada pelo também jogador, e também negro, Neymar. O astro brasileiro colocou em sua rede social algo como “#Somostodosmacacos e daí?”, o que gerou uma série de protestos espalhados pelo país, onde além de esportistas, cantores, atores e até jornalistas, aderiram à frase de Neymar e compartilharam por todo canto fotos e mensagens exaltando o “macaco” e comendo uma banana. Que bobagem fez Neymar!
O ato irônico do jogador Daniel ao comer a banana (melhor do que muitos protestos por aí), não quer dizer que ele é um animal. Comer a banana em forma de protesto não faz de Daniel um macaco, e de ninguém! Não é de hoje que ouço e leio insultos racistas espalhados pelo mundo, onde, a imagem, os sons e os sinônimos de macacos, referem-se às pessoas negras, insultando-as e, excluindo o povo negro da sociedade racional.
Ninguém aqui é macaco, Neymar, e povo brasileiro! É claro que entendo o protesto, e sou capaz de ir até o cume da sociedade para levantar a bandeira da igualdade, mas não ouso a comparar qualquer ser humano ao macaco, e, assim, abaixar a cabeça ao preconceito.
A repercussão do que aconteceu no jogo de futebol foi tão grande por conta da visibilidade que tem o jogador brasileiro, assim como a reação incomum que ele tomou, que mais uma vez ressalto os meus parabéns. Mas, essa atitude não minimizou o grave problema que a humanidade enfrenta e muito menos livrou os agressores de uma punição adequada.
A campanha encabeçada por Neymar é infeliz! Não venha dizer que viemos dos macacos, ou então, que a mensagem também foi em tom de ironia. Ninguém aqui é macaco, não! E todo mundo deveria saber que o grande problema é que historicamente as pessoas negras foram e ainda são tratadas como animais. Ninguém é macaco!
E quem protestará? E quem irá reverenciar os Heróis negros. Heróis da nação. E quem dirá que é macaco, ser irracional, os grandes nomes dessa gente, e quem diga a Gilberto Gil, Nelson Mandela, Pelé e Zumbi dos Palmares. E quem irá dizer ao mundo os pensamentos do “poeta dos Escravos”, Castro Alves. E tantos negros que orgulham a qualquer raça.
A luta anti-racista precisa de muito mais do que fotos com bananas e mensagens referentes a macacos! Acho que ninguém entendeu o que realmente aconteceu no campo do jogo de futebol. E acredito que falta muito para se entender sobre o racismo. É assustador e alarmante a frequência desse tipo de violência nos noticiários.
Não, ninguém aqui é macaco! Avisem a essa gente que apenas quer se promover baseados nesse grave problema social. Brancos, pardos, negros ou não, ninguém aqui é macaco, somos todos racionais, seres da mesma massa, da mesma razão. Somos todos iguais! Ninguém aqui é macaco!

Ritos de adeus

Sei que as pessoas boas se despedem antes de irem embora desse mundo. E de diversas maneiras elas dizem adeus aos mais próximos, e às flores do jardim e leem mais uma vez os seus livros favoritos. Talvez uma visita inesperada, um telefonema ou palavras de carinho no meio do dia se transformam em mensagens subliminares algum tempo depois. O fato é que as pessoas boas se despedem dessa vida, e sem saber.

Um sorriso valerá uma passagem só de ida e um olhar irá transformar os dois lados em um só. Quero apenas adormecer. Sincera e honestamente: adormecer em paz. E quem não quer? Pensamento positivo antes da vida se desfazer.

Nesse mundo o nosso único propósito é de ser feliz. É viver bem e em plenitude com a alegria. Assim, de diversas maneiras deixamos passar intermináveis minutos de nossos dias, chorando por aquilo que passou, ou com pensamentos negativos, que acabam se tornando reais, quando vingados com muita energia. Deixe a negatividade ir embora!

A vida não espera por você, ela passa e nem se preocupa em voltar, ela não vai voltar. É por isso que devemos ter a prioridade de ser feliz, pois, viver uma vida sem gozar a felicidade, é a mesma coisa que amar e não ser amado: não tem sentido.

Cheguei a uma conclusão, com meus pensamentos que podem ser um tanto quanto questionáveis. E coloquei em minha vida três passos para seguir ao topo da alegria, e de lá não mais sair:

Ame e perdoe! O amor é a saída, o perdão é a solução. Ame quem te ama e não quem te faz sofrer. O sofrimento por alguém que não liga para teus sinceros sentimentos não pode valer à pena. O amor requer muito mais do que sofrer por outro coração, e não existe nada mais lindo e mais feliz do que amar e ser amado. Quem ama perdoa. Perdoa o tempo e o espaço, perdoa o destino por não ter oferecido a você um sentimento tão sincero desde o começo de sua vida.

Não viva preso ao seu passado! E quando alguém te perguntar sobre ele, responda: “eu não vivo mais lá”. Passou, e se um dia teve fim, é porque não era tão eterno quanto um dia imaginou ser. Se te fez feliz, sorria. Se não te fez feliz, sorria por ter passado. Não tente competir com o museu de sua cidade. A vida não é feita de passado ruim, mas sim de boas lembranças.

Leia um livro! Livros são amigos que você não tem. Amigos que não veem a sua cara, e não ligam para seus pensamentos ideológicos, e ainda te munem de conhecimentos e ideias literárias que você não encontra em qualquer esquina. Livros constroem a sua história. A história que irá contar para seus descendentes.

Não viva em vão. Viva de uma maneira especial, para que um dia, quando você partir, todas aquelas pessoas que passaram pelo seu caminho olhem para o céu e digam: “Um dia aquela estrela me fez sorrir”.


Você não, Pedro Bial

"É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. O importante é aproveitar os momentos e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem souber ver." Que frase bonita, sabe quem é o autor dela?
Começou o Big Brother Brasil, o programa que há 14 anos pratica uma lavagem intelectiva em milhares de pessoas do país. Nada de assustador, levando em consideração que ao menos 80% da programação da TV brasileira é feita para doutrinar os seus espectadores.

Não estou aqui para simplesmente impor a minha opinião sobre esse programa de baixíssima qualidade e nível cultural abaixo de zero. Escrevo nessas linhas para me referir ao apresentador da produção: um jornalista admirável. Sim, Pedro Bial, que antes de se submeter ao ridículo depois da novela da Rede Globo, é um excelente jornalista, escritor, cineasta, poeta e apresentador.

Diversos assuntos políticos e sociais são discutidos em torno do tal BBB, e chego à conclusão de que a resposta para essas discussões está no tanto de anos em que a produção é veiculada na maior emissora do país. Entendo que enquanto a audiência corresponde, a emissora é ‘obrigada’ a veicular. Assim, eu não me assustaria em ver algum ‘pseudo jornalista’, ou apenas algum apresentador sem qualidade e de rostinho bonito, apresentando o Big Brother. Mas, o Pedro Bial?

Talvez o salário que ele ganha ao apresentar a produção e a publicidade que ele tem ao aparecer na tela de milhões de casas, pode ser uma justificativa. O problema é a imagem do escritor ser veiculada apenas ao Big Brother Brasil. Digo isso, pois, Bial é um grande profissional. 

Na televisão ele até apresentou um bom programa na mesma emissora há alguns meses atrás. Titulado como ‘Na Moral’ o programa apresentava relevantes discussões, trazendo a publico diversos pontos de vista e argumentos de importância social. O programa era veiculado tarde da noite, e muita gente nem sabe que ele aconteceu. Assim, ficou pouco tempo no ar, e Pedro Bial voltou a aparecer apenas no fatídico BBB.

Tudo bem, ele pode não ser o maior exemplo de jornalista e escritor, e não é. Porém, é raro encontrar profissionais reflexivos e de níveis culturais elevados, portanto, ‘perder’ Bial para o BBB, pode ser considerada uma grande derrota.

Acredito que Bial ainda está na apresentação do programa, pois é mandado a isso. E se não tivesse, tenho certeza de que ele também não deixaria de ler um bom livro para assistir à exibição pornográfica e burra que o Big Brother proporciona. Espero que os fãs não me entendam mal, e, já que assistem, procurem saber um pouco mais sobre o apresentador.

“Nossas escolhas não podem ser apenas intuitivas, elas têm que refletir o que a gente é. Lógico que se deve reavaliar decisões e trocar de caminho: ninguém é o mesmo para sempre.”Sabe quem é o autor dessa bela frase? Pedro Bial - jornalista, escritor, cineasta, poeta e apresentador do Big Brother Brasil (acredite).

Os brasileiros negros não são mais negros

O Brasil e suas muitas peculiaridades, porém, uma delas me chama a atenção: a soberba de boa parte da sociedade. Comprovamos isso quando nos atentamos às diferenças nos olhares entre os povos. “Sou negro e não sou branco. Sou amarelo, não sou branco e nem quero ser negro. Sou branco, olhem pra mim, vim lá de fora e não gosto de outras cores.” Quanta bobagem!

Mal sabem as Marias, os Joãos, os Josés da Silva e Silva, que todos esses, brasileiros legítimos, são de uma só cor e de uma única raça, chamada de diversidade. Distinção que não é fácil de encontrar por esse mundão a fora. Brasileiro não tem cor, tem?

Deve ter, pode ser que tenha. Brasileiro que é do Brasil é negro, negro sofrido, raça humana, imune, vítima da diferença. Brasileiro é fruto dos índios, é pardo, é sofredor, é vítima da injustiça. Brasileiro que é brasileiro, também é branco é descendente de outro canto, é apaixonado pela variedade. Há alguns dias tive acesso ao estudo "Pesquisa das Características Étnico-Raciais da População”, e tive a certeza que a raça negra deixou de ser um dos cartões postais do Brasil, como já ouvi dizer.

O Estudo das Categorias de Classificação de Cor ou Raça, coletou informações em 2008, em uma amostra de cerca de 15 mil domicílios, no Amazonas, Paraíba, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Distrito Federal. Entre os resultados, destaca-se o reconhecimento, por 63,7% dos entrevistados, de que a cor ou raça tem influência em suas vidas.

Entre as situações nas quais a cor ou raça tem maior influência, o trabalho aparece em primeiro lugar, seguido pela relação com a polícia/justiça, o convívio social e a escola. Dos entrevistados, 96% afirmam saber a própria cor ou raça. As cinco categorias de classificação do IBGE (branca, preta, parda, amarela e indígena), além dos termos “morena” e “negra”, foram utilizadas.

Os negros, em proporção e emoção, são maioria. Outra pesquisa, realizada no mesmo ano pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) me deixou um pouco mais pensativo. A pesquisa dizia que os negros são 70% das vítimas de assassinatos no Brasil. Coincidência?

O estudo disse ainda que a possibilidade de o negro ser vítima de homicídio no Brasil é maior inclusive em grupos com escolaridade e características socioeconômicas semelhantes. A chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos. E essa questão é social ou racial? Não sei a resposta, mas tenho ela na ponta da língua.

Os negros são maioria e representam a nação em diversas culturas, levam o nome do país para todos os cantos. Mas, os brancos e pardos fazem isso também, não fazem? O mais difícil de toda essa situação é tentar fazer com que as pessoas saibam que somos todos iguais. E talvez, um dia, não se assustem ao ver um casal de namorados de cores diferentes. A cor do sentimento é a mesma.

Ah, sou descendente de outra terra, e me conforto ao saber que meus antepassados daqui eram negros. Eu tenho sangue mulato, tenho resistência ao desrespeito. E tenho em mim o ‘maior sentimento do mundo’, seja ele qual for: branco, pardo ou negro.


De onde vem a calma daquele cara?

Eu me esforcei a melhorar, e consegui, eu melhorei o meu humor, e como consequência a minha vida. Mas não me pergunte como consegui essa proeza, pois, a minha fórmula de felicidade não é a mesma do resto do mundo. Alias, parece que o mundo ainda não aprendeu nem a dar ‘Bom dia’, simples frase essa que para mim faz enorme diferença.

Existem pessoas que sofrem com a vida, e sofrem tanto, que teriam milhões de motivos para nem sequer gostar de viver, porém, surpreendem até a própria alma, e sorriem por qualquer situação. Digo isso, pois vi há alguns dias uma criança na cama de um hospital, com uma doença de nome impronunciável, respirando com a ajuda da tecnologia, e que sorria muito mais do que eu, que tenho uma saúde intocável.

Resisto à ideia de que criança não sabe o que está acontecendo ao seu redor e por isso consegue sorrir diante às adversidades. Tenho a opinião de que a criança, por ainda não ser moldada pelo mundo, consegue ter a verdadeira noção de tudo o que se acomete. Enfim, cheguei à conclusão de que o sorriso de uma criança doente, na cama de um hospital, com aparelhos ligados ao seu corpo, é a verdadeira resposta às dificuldades que imaginamos passar diariamente. A nossa dificuldade é a solução de muitos outros problemas.

E com essa perspectiva enxerguei a mudança, e fui atrás dela. Assim, de uns dias até aqui me senti melhor. É claro que me sentiria tão melhor mesmo se eu visse aquele garoto sair andando e pulando, quebrando todo aquele hospital, com peripécias de crianças não doentes. Mas me senti um tanto bem em saber que se ele pode sorrir, mesmo com um problema maior até que ele, eu também posso com os meus problemas inúteis.

Outro dia o sol me acordou, vazou a janela e deu de cara em mim. Levantei junto com o Galo, e liguei a televisão para um café matinal. Não deveria ter feito aquilo. O café, um tanto quanto doce, contrastava com a difícil notícia que a âncora do jornal noticiava, logo nas primeiras horas do dia.

Dizia a moça jornalista que na madrugada anterior três pessoas morreram em decorrência da chuva que em duas horas caiu sobre aquele lugar o previsto para todo o mês. As pessoas morreram soterradas, pois, a casa de madeira, carcomida pelo tempo, em que moravam, não aguentou a mais uma tempestade. E eu reclamei do sol que me acordou sem pedir licença...

E com essa notícia começou o meu dia. Dia comum que terminou numa cama aconchegante, dentro de uma casa segura de qualquer revolta da natureza. Como em tantos outros dias. Cama boa, comida boa, chuveiro quente, felicidade particular.

Não demorou muito para essa rotina boba e boa me mostrar a maior conclusão de meus dias até aqui: a felicidade não pode ser particular. E quando é assim todos os seres do mundo estão errados. E é por isso que esse nosso mundo está de cabeça para baixo. A felicidade de uma pessoa deve ser contagiante e um sorriso de uma criança deve ser o combustível para que possamos um dia mudar a nossa realidade.

É assustador perceber o consenso de qualquer roda de conversa ao surgir um assunto dizendo que esse nosso mundo está perdido. Não vejo ninguém defender a ideia de que todos nós somos tão pessimistas em achar tudo errado nesse universo.
Porém, ainda alimento a esperança de tudo mudar ao ver o também consenso da maioria em afirmar que existem perspectivas, e que um dia tudo pode ser diferente, nem que o mundo comece novamente.

Mas, efetivas razões por vezes me desanimam, e me deixam à vontade para jogar tudo pro alto, me abaixar ao mundo, e desistir de todas as minhas inspirações. Pois, recebi a notícia de que o garoto doente de cama, não se sustentou apenas por seu sorriso doce e encantador. Milhares de outras famílias morreram em tempestades, por não terem onde morar. E nas rodas de conversas o principal assunto é o mesmo, e as soluções as mesmas, porém, ninguém se meche para ser o salvador.

Então, eu mantenho a calma; a calma que não sei de onde vem. Talvez seja de um Ser superior, ou da lembrança de um sincero sorriso. Sorriso salvador que só poderia vir de uma criança que não estava nem aí pra esse mundo perdido.

O analfabetismo funcional

Determina-se como um analfabeto funcional aquela pessoa que sabe escrever seu próprio nome, assim como lê e registra frases simples, porém, é incapaz de interpretar textos e de usar a leitura e a escrita em atividades cotidianas, impossibilitando seu desenvolvimento pessoal e profissional.

E esse tipo de questão envolve muitas outras, que estão ligadas claramente à educação, e não apenas a escolar, mas sim, e principalmente, à educação do mundo, pessoal, cotidiana, uma educação que hoje, infelizmente, sobrepõe os livros e conteúdos relevantes, deixando de lado as raízes culturais, fato inimaginável em outros tempos.

Interessante é pensar sobre o assunto, e a decadência em que vive as palavras de grandes pensadores e autores da nossa literatura. O analfabetismo funcional é o estopim de toda a ignorância desse mundo. É o motivo do voto errado e da palavra dita sem saber.

Durante uma aula de português pode-se constatar a ignorância dos jovens, e a falta que faz a leitura no cotidiano de todos. Enquanto a professora explicava sobre interpretação de texto, dando como exemplo uma crônica de Rubem Braga, alguns alunos não ligavam para o que estava sendo dito. E assim que a profissional pediu para um deles ler uma parte do texto que ilustrava o livro didático, o garoto se enrolou nas palavras e juntava letra por letra, levando alguns minutos para terminar, demorando a formar frases simples, como se fosse uma criança que acabara de aprender a ler.

Eu sei que isso não é nada comparado aos milhões de brasileiros que são analfabetos e sem qualquer ‘funcionalidade’. Porém, o que me indigna são as pessoas que têm a total condição de estudar e ao menos ler um livro ou um artigo no jornal, e não se preocupam com isso. Essa decadência da leitura e conhecimento em nosso país não é culpa do governo, não pode ser.

O governo disponibiliza cartilhas para estudo, aulas até de outros idiomas, e por vezes capacita professores, que com enorme dedicação, transmitem os maiores conhecimentos as crianças e adolescentes. O que falta mesmo é o empenho desses alunos, deixarem de lado o videogame e ler algo com certa relevância.
Porém, a conclusão para esse problema social não é simples e passa por várias questões, começando na educação dentro de casa, como quais os programas de televisão que são assistidos, jogos eletrônicos e acesso a informações pela internet.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o analfabetismo cresceu pela primeira vez desde 1998, onde foram identificadas 13,2 milhões de pessoas que não sabiam ler nem escrever, o equivalente a 8,7% da população total com 15 anos ou mais. Em 2011 eram 12,9 milhões de analfabetos, o equivalente a 8,6% do total. Em 2004, a taxa de analfabetismo brasileira chegava a 11,5%. (UOL educação, acesso em 27 de Setembro de 2013).

O questionamento se faz a partir da análise dos números, considerando o aumento do analfabetismo ao também crescimento da tecnologia e da desvalorização de professores. Talvez os adolescentes de hoje possam alterar essa estatística; talvez eles não consigam entender o tamanho absurdo de tais porcentagens, ou então, eles nem cheguem a ler o final deste artigo.


Quando eu falei de Machado de Assis e José de Alencar

 Fui a uma escola perguntar aos alunos se eles conheciam Machado de Assis e José de Alencar. Um dos meninos lá do fundo da sala me respondeu que José de Alencar é o nome do 'Seu Zé' da serralheria perto da escola. E ele não deixa de ter razão, é claro. Assim como a garota estudiosa sentada em frente a carteira da professora, que surpreendeu o resto da sala ao dizer que Machado de Assis era um importante autor brasileiro.

E então eu expliquei aos alunos o porque da minha indagação, em meio aquela aula de português. Apenas queria saber, em resposta ao meu consciente, se os autores literários tão reverenciados em uma estação, tinham caído em esquecimento.

Assim, eu disse a eles que Machado de Assis foi mais do que um 'simples' importante autor. Machado de Assis foi senão mais do que o exemplo de todos os livros didáticos que os seus mestres aplicam em sala de aula. O importante Machado, como descreveu a aluna, viveu em praticamente todos os gêneros literários. Foi poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário.  Ufa! Quem é esse Machado de Assis?!

Mais do que exemplos em livros didáticos, ele é o percussor de todos os outros romances que podem encantar a jovialidade dessa geração. Machado de Assis é pai dos poemas de 1800, é pai celestial de todas as Letras destes folhetins. É mais do que uma descrição.

Alguns meninos riram, outros dormiram. Algumas meninas desconversaram, outras mexeram em seus celulares. E a menina da frente fez outra indagação: "E o José de Alencar?".  E eu a respondi, esquecendo os outros alunos desinteressados.

Eu disse a ela que o José de Alencar é um livro a parte. É um capítulo inacabável na história da arte poética desse mundo. Esse era culto, tão quanto a sociedade daquela época. Foi jornalista, político, advogado, orador, crítico, cronista, polemista, romancista e dramaturgo. Ufa! Esse foi José de Alencar!

Certamente, ou não, serviu de inspiração para o batismo do 'Zé Serralheiro', citado pelo garoto que já não estava mais na sala de aula. O José de Alencar original foi o Pai de O Guarani, uma das mais belas obras literárias dessa humanidade, que foi desenvolvida em princípio em folhetim, entre os meses de fevereiro e abril de 1857, no Correio Mercantil (jornal daquela época).

Aquela garota da primeira carteira se animou. Perguntou mais e mais desses autores e de outros e outros, enquanto a professora sorria orgulhosa em sua direção e os seus colegas de sala se desesperavam, pois a hora do sinal de partida demorava a chegar.

Depois de pouco tempo ali eu já conseguia responder a meu consciente sobre a questão do esquecimento de autores consagrados em alguma época. E a resposta era a que eu esperava: Assis e Alencar não eram tão referenciados.

Mas saí daquela sala de aula com um sorriso no rosto, como o de um mero e pequeno jornalista desse mundo, que é tão animado quanto sonhador. Saí daquela escola com a esperança de que a garota da primeira carteira irá contagiar os seus colegas de sala com contos e prosas de tantos autores literários que infelizmente sumiram das bibliotecas.


Alexandre, o assassino de Pâmela 

“Acusado de matar a ex-namorada grávida se enforca dentro da cadeia” foi essa a notícia que movimentou a quinta-feira, dia 12 de setembro. O rapaz de 25 anos, acusado de matar a ex namorada de 16 anos e grávida de 8 meses, foi encontrado morto na cadeia pública de Lutécia. Mas, pra mim, ele já estava morto há muito tempo.

Ele morreu quando pensou pela primeira vez em praticar o assassinato: matou duas vidas, e então, desfaleceu. Não sou capaz de julgar qualquer pessoa, e nem a mim mesmo, mas alimento preceitos que certamente devem ser levados em consideração, antes de um homem de 25 anos tirar a vida da ‘mulher amada’.  Alexandre morreu antes mesmo de matá-la.

Em seu depoimento à Polícia Militar, o jovem chegou a falar em arrependimento. Assim, nos deparamos com certa ironia: ele se arrependeu de matá-los (mulher e filho), ou de conhecer Pâmela? Arrependida, certamente, está a família da garota por não ter conhecido antes quem realmente era o namorado da filha. O difícil é pensar que quando digo ‘filha’ me refiro a uma adolescente de 16 anos.

Alexandre, apodrecendo ou já apodrecido, disse ter se arrependido, talvez considerando que essa afirmação aliviasse a condenação que iria receber. E como nesse país não existe lei, o fato de o rapaz nunca ter cometido um ato inflacionário poderia aliviar a sua condenação. Porém, antes da justiça do homem, Alexandre foi condenado por sua alma, por seu consciente. E para a outra justiça – a justiça divina, a moral, a social– não existe arrependimento que apague e nem que ao menos alivie a consequência de um ato desesperado e desastroso de “amor”.

Sim, “amor”, foi esse o termo usado por muitas pessoas, na tentativa de encontrar alguma razão para tamanha barbárie. Ouvindo essas argumentações, o meu maior temor é de que as pessoas desse mundo comecem a “amar” como Alexandre.
Deve-se entender que o amor não mata! O amor não morre e não engana! O amor entende, cobiça? Sim, claro! Mas, se não acontecer, o amor faz recomeçar e se amar novamente. E se acaso Alexandre matou Pâmela e tempos depois se matou, não foi por amor, mas foi por falta dele.

Não gostaria aqui de entrar em nenhum detalhe sobre o fato ocorrido no final da tarde de domingo, dia 18 de agosto, pois todos os meios de comunicação já noticiaram e ‘re-noticiaram’ o que aconteceu. Apenas me expresso entendendo que a dor da família que perdeu uma jovem menina e uma criança que estava prestes a ver o sol pela primeira vez, não irá passar. Nem por amor e nem por arrependimento.

E acredito, enfim, que se a intenção de Alexandre ao se matar fosse aliviar a sua dor, certamente ele irá descobrir em algum lugar, que existe uma justiça bem maior do que a do homem, e que não há amor e nem arrependimento que pague a sua condenação.


O Jornalismo está em crise

As salas de aula que seriam destinadas ao curso de jornalismo das grandes e conceituadas faculdades do país estão vazias, e não digo vazias apenas de pessoas interessadas em se tornarem grandes comunicadoras, as salas também estão vazias de conteúdo e profissionalismo.

O jornalismo passa por uma grande crise profissional que reflete diretamente no setor financeiro de empresas de comunicação. Para argumentar sobre o assunto, baseio-me em algumas posições que se tornaram costumeiras nas mídias mais viáveis e acessadas pela população: jornais, rádios, televisão e internet.

Lembro-me bem de quando comecei a me interessar pelo mundo das palavras e da informação. Como toda criança ao ver seu ídolo, sonhava em me tornar um grande comunicador. Assim, eu planejava meu futuro baseado na maneira como alguns jornalistas, ou profissionais da comunicação, atuavam em seus respectivos meios.

Como o inesquecível Léo Batista, que narrava de maneira categórica o jornal esportivo. Os contos e crônicas do colunista Moacyr Scliar, que caracterizava os principais jornais do país, assim como as revistas dirigidas e lançadas por Alberto Dines, por exemplo. E mais recentemente me interessei pelo jornalismo literário, com o Colombiano Gabriel Garcia Márquez e o brasileiríssimo Felipe Pena.

Infelizmente, ou felizmente para alguns, o jornalismo se ‘renovou’. Importantes nomes morreram e levaram seus ensinamentos, outros estão esquecidos por trás das câmeras e redações, por serem considerados ultrapassados. As emissoras abriram espaço para o errado dar certo, ou seja, hoje é jornalista quem quer, e não quem tem a capacidade de ser.

O jornalismo esportivo, por exemplo, se transformou, e seu conteúdo que antes era transmitido como informação com uma pitada de entretenimento, hoje é abordado, em consideradas grandes emissoras de televisão, internet, rádios e jornais do Brasil, apenas com o entretenimento, e muitas vezes sem informação. Porém, a máxima da comunicação de massa reflete sobre ‘o que faz sucesso não se muda’. E esse tipo de J.E contagiou boa parte de espectadores. E então Léo Batista foi esquecido.

Ao acessar o canal de informações da internet (hoje o principal veículo de comunicação de massa do mundo), de uma grande empresa de comunicação do país, me deparei com matérias curtas e cruas expostas no centro da página. Essas matérias, se é que podemos chamar de ‘matérias’, contam com um elevado número de compartilhamentos através de redes sociais, e conseguem uma abrangência jamais imaginada para dois parágrafos e uma enorme foto.

A tamanha proporção do conteúdo do centro da página não condiz, nem de longe, com as reportagens, artigos e crônicas publicadas por grandes jornalistas e pensadores, que ficam exibidas num pequeno link no lado direito da página da web, e que escondem em uma pequena foto do autor, um enorme conteúdo informativo e jornalístico. Porém, o número de acessos e compartilhamentos nem se compara com os pequenos parágrafos de uma dita matéria jornalísticas de destaque na página.

O processo de renovação em que muitos diretores justificam as mudanças em suas emissoras está fazendo com que os bons profissionais dêem espaço à mesmice e a indústria comercial. A informação, o conteúdo e o jornalismo estão acabando, e bons profissionais são cada vez mais escassos. Cursos de graduação em Jornalismo estão às moscas, ou senão, a procura por essa área é mínima em várias regiões. E isso reflete financeiramente, como nas remunerações de profissionais qualificados.

Como eu já disse em outros artigos, continuo defendendo a minha tese e profissão: ser jornalista não é apenas saber falar em público e em um microfone; não é ter um papel e uma caneta e escrever qualquer bobagem. Jornalista é o profissional que vive se adequando ao mundo, ao moderno e ao hipócrita, sem deixar de lado a sua dignidade e profissionalismo. O jornalismo é uma fascinante batalha em busca de mentes e corações de seus alvos, adequado a um período extenuante e compensador de estudos e conhecimentos. Essa profissão não foi feita para qualquer um, e apenas quando isso for entendido essa crise irá desaparecer.


Quando eu desisti de ser feliz

Claro que me lembro de quando eu desisti de ser feliz. Aquele dia estava chovendo, e um frio de dar dó do andante. Eu não queria mais olhar a flor do campo, nem a luz no fim do túnel, eu vi o ladrão sorrindo e a mocinha a me desanimar.

Conheci a pessoa que era o acaso e o caso daquela mulher e sentia o abraço de sua mãe e o aconchego de seu pai ir embora. Eu via a noiva no escuro com o noivo carinhoso, brigando ao invés de se amarem e eu não entendia o porquê a trilha sonora da novela não era mais tão bonita.

Encontrei perto da Rua do Shopping um moço com cara de infeliz, ele usava terno e gravata, sapato de linha e sorriso amarelo. Seus cabelos, penteados de lado, nem se mexiam com o vento que o afrontava.

Encostado naquele carro que parecia uma Nave, o moço falava ao celular sobre o dinheiro que ganhara no fim do mês.
Era tanto, mas tanto, que do outro lado da rua homens de preto o cercavam, armados até os dentes, evitando qualquer desvario de um cidadão mal intencionado, que possa roubar a grana daquele engravatado.

Dobrei a esquina, e os cachorros abandonados comiam a sobra da feira, disputando pedaço a pedaço com aquele senhor barbudo, que vestia calça rasgada e uma blusa desbotada. O mesmo Senhor que pedia ao engravatado algum trocado para se alimentar.

E continuei a trajetória até o meu destino. Antes vi a criança vendendo balas no sinal, com marcas de violência e de falsos sorrisos, percebi estampado em sua testa a vontade de ser criança, em plenos 10 anos de idade. E pensei em seus criadores procurando pelo leite que parece não existir.

Eu li no Outdoor da avenida um informativo sobre a desigualdade. Aquele Outdoor não poderia estar em lugar melhor: em frente ao andante e do empresário rico; ao lado da criança que vende balas; no lugar da árvore que ali estava; escondendo a beleza da Catedral.

Eu era feliz até aquele momento, mas descobri que eu não tenho motivos para a felicidade, e nem o mundo, a não ser que eu e ele sejamos tão desiguais quanto esses que vi e vivi por aí.

No aconchego da minha poltrona escrevo esse artigo, pensando na hipocrisia dessas ideias de governador, e nos mirabolantes planos para eu voltar a ser feliz e dar ao mundo um pedacinho do meu sorriso... Mas o preço que se paga, às vezes é alto demais.


90 anos de arte: a prosa da semana de 22 

O ano era 1922, São Paulo, capital. O mês de fevereiro começa com mais um dia chuvoso de verão. Em duas semanas o Teatro Municipal receberia a Semana de Arte Moderna. Artistas vindos de outros cantos do país exporiam suas obras, e a partir daquele momento renovariam os conceitos e ideologias da arte.

Os dias de garoa, costumeiros em São Paulo, ficariam mais belos em meio às pinturas e esculturas, poesias, literatura e música. Tudo se renovaria aos conceitos artísticos: os poetas declamavam seus alentos, a música era acompanhada por orquestras sinfônicas, e as obras expostas em telas, esculturas e maquetes.

Entre nomes reconhecidos do modernismo, Oswald de Andrade se destacava com sua prima de romancista, ajeitava seu óculos capenga a cada quatro passos, e sorria com seu romance declamado.

A época escolhida era de agitações políticas, sociais e culturais. O mundo não se adequava às novas ideias, vindas de cabeças pensantes e inigualáveis. Além de Oswald,Mário de Andrade, Plínio Salgado, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, espantavam os críticos e a mídia com seus conceitos históricos e inovadores.

Foi em meio a essas desconfianças e a todas as críticas que a Semana de Arte Moderna, também conhecida como semana de 22, mudou o destino, a origem e a ordem da cultura no país.

As músicas fizeram sentido, as poesias foram ouvidas, as esculturas reconhecidas. A ebulição da nova identidade literária foi feita. Livre para se expressar os pensantes, denominados como gênios, e comuns, por leigos, não seguiam regras e nem se limitavam, apenas se sentiam livres para se expressar, longe de qualquer absolutismo.

Na época a Semana de Arte Moderna não representou muito, pois foi ofuscada pela crise histórica do país sem cultura. Mas ao longo do século mostrou que seu propósito foi alcançado e cada vertente literária projetou a sua ideologia pelos cantos do país.

Oswald de Andrade disse, num dia de garoa costumeira: “como poucos, eu conheci as lutas e as tempestades. Como poucos, eu amei a palavra liberdade e por ela briguei.”  E fez a sua prosa reinar por anos, até mesmo depois da morte, assim como a semana de 22.


Parabéns Professores, mestres injustiçados

Ontem conversei com uma professora, funcionária do Estado, que ministra aulas para jovens do ensino médio e adolescentes da oitava série. Mais inteligente do que aquela mulher é difícil de se encontrar por aí. Ela domina a Biologia, tem um Português afinadíssimo, faz contas de cabeça, e está preparada para responder a qualquer questionamento de um aluno interessado.

Em 2013 completa 25 anos de serviços prestados às Escolas Estaduais de Assis e eu dei a ela os Parabéns pelas Bodas de Prata. Me contrariando, e contendo a euforia de um sujeito otimista até demais, ela me disse: “Parabéns por quê?”.

E depois de indagá-la e ouvir os seus argumentos, entendi o seu espanto às minhas congratulações. Exatamente, Parabéns por quê? Por ser mal remunerada e aguentar alunos sem comprometimento, numa sala de aula com superlotação? Parabéns por quê?

Não a parabenizei por ser aguerrida em aguentar isso todos os dias, mas sim por ser Professora. Entendo, como todos deveriam entender, que essa é a profissão que deveria ser a mais valorizada por aqui, pois é a razão de todas as outras.

Mas porque dar os parabéns, se os seus alunos não a respeitam, e os governantes não dão o devido valor. Porque te dar os Parabéns, professores, se quando fala parece dizer às paredes. Porque te dar os parabéns, se tem que preparar-se física e psicologicamente para entrar no seu ambiente de trabalho. Os meus sinceros parabéns, não cabem nessa questão.

E então, lembrei-me de minha época de estudante de Escola Pública. Foi nesse ensino que me tornei um alguém, ingressei em duas faculdades, lancei um livro, realizei sonhos pessoais e profissionais. Era nesse ensino que eu respeitava tanto quanto os meus pais os professores que me ensinavam muito mais do que uma simples ortografia. É esse ensino que mudou.

É curioso e preocupante perceber o tanto que os jovens e crianças se transformaram em 10 anos, desde as brincadeiras, até em suas reações com pais e professores.
Desde palavreados, gestos, e orientações sobre o mundo. Na verdade é assustador perceber que com 10 anos tem criança que não é mais criança.

Recentemente a mídia noticia vários casos de desrespeito entre alunos e mestres, que chega ao ponto da Policia Militar intervir. Eu não sei o que realmente aconteceu na maioria desses fatos, por isso, não dou razão a ninguém. Mas, o que me deixa intrigado, é que na minha vida inteira frequentando o Ensino Público, nada disso acontecia. A Polícia aparecia na Escola apenas para dar palestras sobre o Combate às Drogas. Que estranho!

E então, volto aos meus Cumprimentos àquela Professora. E depois de um tempo de conversa e debate, dei a ela os meus Parabéns novamente, não por aguentar tanta injustiça, mas por ela ainda falar de sua profissão com lágrimas nos olhos.


Acostumem-se, eles chegaram e querem o seu voto

 Essa semana eu abri o jornal e me deparei com um rosto no mínimo comum. Liguei o rádio e ouvi a voz daquele que se diz ser ‘o homem do povo’. No programa de TV, no canal de Assis, quem se mostrava era o falastrão de terno e gravata. E na internet, sites e redes sociais, aquele que nunca mexeu num computador já deu o ar da graça.

E assim eu me convenci: temos que nos acostumar, chegaram as eleições, e eles já estão com todos os mirabolantes planos traçados para fisgar o nosso voto. E isso é deprimente, revoltante, chato.

Na verdade as eleições já tomaram outros rumos. Tempo feito de tolices sendo ditas em qualquer lugar, promessas esquisitas para ganhar um voto ou outro. Debates daqui, mentiras dali e no meio de tudo isso, o pior é saber que eles, os mandatários, estão em todo lugar.

Dou os parabéns para quem ainda acredita na democracia. Sem dúvidas, uma das grandes conquistas do povo brasileiro. Conquista que deve ser exaltada, porém um pouco mais discutida. Atualmente, democracia existe apenas para os otimistas, ou para os pobres de conhecimento. Afinal, não adianta o povo eleger seus governantes e depois ser esquecido, ser jogado às traças num hospital público, ter uma educação lastimável, e ao menos não conseguir trabalhar, por falta de emprego.

E disso não tem como fugir. Infelizmente, nenhum candidato a prefeito, vereador, governador, deputado, presidente, está sujeito e comprometido a levar o melhor a quem o elegeu, antes de pensar em si. As vontades do povo e de um governante são coisas distintas. E a população já está se acostumando com isso, atualmente se o ‘branco’ fosse um candidato já estaria eleito.

Porém, eles querem nos doutrinar. Estipulam metas, traçam objetivos, prometem uma vida digna por um voto e não cumprem. Não vou generalizar, existem candidatos que conseguem se eleger com propostas boas e úteis, para tentar mudar essa realidade. Mas, entrar no mundo da política requer algo a mais do que ser honesto, afinal, como diz o ditado: ‘de boas intenções o inferno está cheio’, e é assim que se governa o Brasil. E então, aqueles que diziam ser honestos, integram a obediência dos experientes governantes, e repassam tais conhecimentos.

Enquanto isso, o povo se revolta, mas continua assistindo a TV e acessando sites, manipulados pelo poder, para construir a sua opinião. E as perspectivas de mudança vão por água abaixo.

A verdade é que em ano de eleição a politicagem aparece, o povo se esgota com tanta repetição, e tudo se transforma em busca de eleitores, para no final, o poder subir à cabeça. Já me acostumei. E você também pode se acostumar, daqui pra frente os mesmos rostos aparecerão na TV e nos jornais, a mesma voz vai te instruir e prometer o mundo pelas ondas do rádio, e você, pobre eleitor, aconselho ler um bom livro.

Porém, o melhor é saber que não faltará emprego para os Garis. Malditos ‘santinhos’.


Burra sociedade

Os ponteiros da Catedral marcam 18 horas, e é nesse horário que a cidade se movimenta, pois todos vão embora em direção ao descanso merecido. Trabalhadores árduos e extasiados de tanta rebeldia por aí.

Mas o servente de pedreiro espera as 20 horas chegarem, para, quem sabe, parar de ‘bater massa’. Chegando em casa, o de praxe: arroz e feijão esquentados do almoço e dois ovos fritos. A televisão sabe sozinha o canal preferido. Um ‘boa noite’ do âncora do telejornal mais famoso do país é prontamente atendido com olhares de atenção dos milhares de espectadores.

As notícias começam como no dia anterior, corrupção é a pauta, para variar. A entrevista com o político fanfarrão chega a ser irrisória. ‘Calúnia’, dizia ele. A segunda matéria vem da Bahia, de greve, de polícia e é claro: confrontos.

Extasiado, o trabalhador cai na ideologia passada por jornalistas induzidos à hipocrisia. A greve é tratada como algo banal, os grevistas entram em confronto com soldados e a região metropolitana de Salvador fica à mercê da violência. Mas o Carnaval chegou, agora eles dão um tempo.

E então o esporte brasileiro é transmitido como se não tivesse nenhum problema. O futebol é tratado como se ainda fosse o melhor do mundo. E convenhamos, caro amigo trabalhador: não é. A maior emissora de TV do país, com suas atitudes controversas e políticas, não têm o poder de questionar e mostrar para o público a realidade completa dos fatos.

Sabemos ainda que não vamos passar vergonha na Copa do Mundo e nas Olimpíadas. Mas não porque os políticos são tão capazes de fazer algo perfeito, e sim porque o preço do arroz, do feijão, da bala subiu. Porque a educação está jogada e a saúde pública dá vergonha. Os estádios e centros esportivos vão ser construídos como se vivêssemos num país de primeiro mundo. Mas não se sinta bem, você está pagando tudo isso, enquanto passa fome.

E no tal de Jornal Nacional aquele belo ‘boa noite’ vem depois de os apresentadores anunciarem os "princípios editoriais das Organizações Globo", que, entre outras mentiras, ressalta o comprometimento com a verdade e a lealdade com a notícia, visando sempre o melhor para seu espectador.

Boquiaberto com tamanha veracidade e comprometimento com o público da emissora, o pai de três filhos comenta em voz alta a grande admiração por tal empresa. E ele, como milhares de leigos espalhados pelo país, vai acordar às cinco horas, ‘bater massa’ até as oito da noite e assim pagar seu IPTU em dia. Certamente, se reconhecesse a verdadeira realidade não faria a rotina com tanta disposição.

E depois do jornal vem a novela com suas ambições particulares. Já faz um bom tempo que o entretenimento deixou de ser algo saudável, são incontáveis os costumes e ideias que uma novela totalmente manipulada é capaz de fazer.

O êxtase da noite vem com um programa que encanta o Brasil. Aquele mesmo que tem um jornalista como apresentador, que se submete ao ridículo e ao extremo, tratando as ‘peças’ que vivem juntas como heróis. Não deve mesmo ser fácil ficar na casa mais luxuosa que já se viu, com mulheres e homens desfilando sua beleza, com festas e bebidas à vontade toda semana, concorrendo a carros, motos e o que tiver de última geração, e, ainda, saber que algum desses ‘artistas’ receberá o prêmio oferecido e muito mais, com publicidade e ‘reconhecimento’ da sociedade.

Alguns justificam a distância da família como a principal dificuldade em participar de um reality show como esse, e aqui vai a minha opinião. Esta semana eu conversei com um dos operários que estão levantando o shopping de Assis e, com lágrimas nos olhos, ele disse que veio do Maranhão e está há sete meses sem ver a família. Pobre coitado poderá trabalhar mais tantos nove meses como construtor, que ainda não juntará o montante de reais oferecidos aos participantes, que ficam no máximo três meses naquele lugar, e sem pegar no batente.

Mas sabe o porquê de tudo isso? Pela sociedade. Pela audiência aos poderosos, por não saber sequer escolher um governante, e, acima de tudo, por não questionar.

O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons." Disse Martin Luther King. Os ‘bons’ já se cansaram, agora pagamos o pato.

Depois não adianta reclamar dos próximos presidentes.


A mística de sábado a noite, na Avenida Rui Barbosa

É estranho. De um lado duas pistas descem até a famosa catedral. Do outro a fila de carros sobe até o estático ‘homem de lata’. E vai. E sobe e desce. Como se a gasolina fosse barata, o álcool de graça, e as pernas incansáveis.

É interessante passar pela Avenida Rui Barbosa no sábado a noite, precisamente depois das 21h30m. É quando os casais terminam de comer o lanche do Toninho, os pais liberam os carangos para os meninos, e o esquenta da balada começa a ferver.

Interessante e impressionante.

Qual é a graça de subir e descer a Avenida, gastando combustível, sapato e tempo, para ver os mesmos rostos, as mesmas coisas, os mesmos lugares? A explicação de qualquer fanático por Rui Barbosa é plausível e considerável. Dizem que ali é a única diversão que Assis proporciona. Diversão? É, diversão!

Assis não está bem em questão de entretenimento, e faz tempo. Não falamos aqui de Festa do milho, shows organizados por empresas (que as vezes nem acontecem, “Uh Papai não chegou”), uma galeria chamada de Shopping, ou movimentos feitos por ‘revolucionários’.

A cidade não tem sua diversão, considerável, desde a extinção da FICAR, lembra? Uma vez por ano acontecia a união dos povos de Assis e região, mais ou menos como fazem Ourinhos e Paraguaçu Paulista.

Desde então, ou até um pouco antes disso, a ponte do encontro das tribos se tornou a Avenida Rui Barbosa. Ou metade dela.

A Avenida é referencia de mortes, assaltos, sorrisos e paqueras. Já vi casamentos começarem ali,  já vi mortes por corridas de carros que servem para passear, vi até um ‘trombadinha’ dando uma de ladrão.

É comum as meninas colocarem o salto alto e a mini-saia para passear na Rui Barbosa. Os garotos entortarem a aba do boné para chamar a atenção. E os pais ficarem malucos certa hora da madrugada.

O que deve servir para base de estudos são aqueles casais que encostam a sua moto, seja ela qual for, e ficam sentados, admirando, olhando os carros e pessoas passarem, como se estivessem assistindo um filme no cinema FAC.

Ou então os manos com cara de Playboys que aumentam o volume do rádio do carro, acendem o narguilé (espécie de cachimbo de origem árabe utilizado para fumar), e ficam ali por toda noite.

Nunca vou entender a mística que se passa sábado a noite na Avenida Rui Barbosa. Seja o moleque de 12 anos ou a mulher de 32, adoram andar pra lá e pra cá, olhando os mesmos rostos, lugares e coisas.

Não é divertido, nem diversão, mas é o que temos ontem, hoje, e amanhã para Assis.


A vida é literária, o mendigo é poeta

Conheci, há alguns dias, um morador de rua, meio suspeito, enrolado, sujo, um pouco gago e com fome do mundo. Era negro, sem estudos, mas sabia ler, meio diferente: dez minutos por linha. Não sei quantos anos ele tem, mas vou arriscar, alguns tantos 30, com cara de 40. Barba serrada, chinelo de dedo, sorriso fedido e lindo.

Enganam-se fulanos que pensam ser perca de tempo uma prosa dessas, seja por cinco minutos, aqueles mesmos cinco minutos que você passa reclamando que no seu almoço têm arroz, feijão e bife, todo dia. Para os leigos, vale a experiência de uma conversa com um morador de rua: é literário, em seu sentido amplo.

A irrealidade em que vivem, as contraposições da sociedade hipócrita, as incoerências de uma vida movida a cachaça e loucuras, ao inconsequente e injustiça.

O assunto de nossa conversa foi nada mais que alguns trocados dados, e um obrigado, com um sorriso fino, costumeiro de morador de rua. De cinco minutos, nos estendemos a tantos...

E o pedinte:
... Disseram-me: ‘não desista de seus sonhos’, quando eu ainda era criança. Nos tempos de enxurradas em dias de tempestades de verão, naqueles moinhos de vento que balançavam as janelas enferrujadas, tempo em que os pais eram pais.

E assim as lacunas de uma vida se abriram: vida de orgulho sem pestanejar, por dias ruins e mal acabados. Eu sou o detentor de toda essa mentira.

Favela da carroça, maio de 1981, cidade da ilusão. Enquanto o Papa sofre um atentado, os moradores da favelinha sofrem vários, todos os dias. Mas ninguém vê: os jornais não noticiam, nem em uma linha, os telejornais não abrem seu espaço para tanta baboseira, o rádio... Não pode.

Não me esqueço, lembro como se essa flor ainda fosse vermelha... (lágrimas)

...E assim vim parar nas ruas, agora estou aqui, te pedindo um dinheiro, para um salgado e uma cachacinha né! Ninguém é de ferro sinhô... (risos)

E então, passou um carro preto, daqueles grandes, com vidros embaçados e um tanto de luxúria.

E ele com um pão, metade na mão outra na boca, sorriu de canto e disse: “prefiro meu chinelo gastado, minha roupa rasgada, minha vida dolorida, do que ter tudo para mostrar e não ter nada para sentir”.
Eu? Fui embora viver, pensando duas vezes antes de criticar o meu alento.


Davi, o garoto de 10 anos

Como qualquer outra rotina a quinta-feira começou, e foi nessa tarde monótona que o impossível aconteceu.
Os carros barulhentos passando, o sorveteiro assoviando na esquina de cima, e a aula já estava para começar. Trazidos por seus pais os alunos chegavam à escola com as mochilas de homem-aranha penduradas nos ombros e um sorriso estampado de orelha a orelha.

As brincadeiras já eram vistas no portão. Carrinhos de plásticos de um lado, pega-pega do outro, e pôsters de Justin Bieber encantando os olhos das garotas. Nada de anormal para a nova geração. Nada costumeiro para os antigos sensatos.

O sinal de entrada toca, os familiares se despedem e a criançada ruma para mais um dia cansativo e venturoso de aprendizado e brincadeiras. Na fila de entrada dois amigos conversam como gente grande. Um fala de futebol, como se entendesse, e o outro conta um segredo.

Parecido com os desenhos, onde o caçador tenta eliminar a sua presa, aquele inocente de 10 anos de idade, diz ao parceiro: “tenho uma arma e hoje vou matar a professora”, abrindo um sorriso de euforia inexplicável. O amigo, boquiaberto e meio sem saber, sorri amarelo e não diz nada. Depois de um papo meio sem corpo inteiro, cada um segue para o seu canto de estudos.

Na sala da 4ª série, no fundo do corredor, um pouco mais de 20 crianças entre 10 e 11 anos, prestavam atenção na aula de ciências. Quando o relógio marcou 16h, as professoras se revezaram na troca de matérias. Quem assumia o posto era a tia Rose, que prontamente já apagava o quadro e começava a sua lição.

Na troca de aula, o menino simpático, quieto e estudioso, vai até o banheiro com sua mochila de super-herói. Dela saca o revólver calibre 38, pegado de seu pai – um guarda civil municipal- e se dirige até a classe. Num momento de angústia e sei lá mais o que, dispara contra a prof. Rose. Em seguida, desnorteado, o garoto de 10 anos, sai da sala e num ato digno de inconformismo efetua um disparo contra sua cabeça, morrendo poucos minutos depois. Esse era Davi.

A partir daí os noticiários, programas de fofoca, sites reconhecidos e sem credibilidade, começam a especular diante do fato ocorrido. As culpas para o trágico acontecimento recaem sobre qualquer pessoa que estava envolvida diretamente com a criança. Desde seus pais, até seu amigo da fila de entrada. Mas a culpa é de quem? De ninguém que já foi citado!

Olhando de fora é fácil culpar alguém. Já me deparei com notícias meio absurdas que justificavam a atitude do menino. Um site diz que Davi sofria o tal do Bullying. No canal de televisão a culpa é de seu pai, pois deixava seu instrumento de trabalho exposto lá em cima do armário. E mais, já ouvi dizer que Davi não gostava da professora, e por ela ser tão disciplinadora foi a escolhida para sofrer o ataque.

Como mais um espectador, apreciador da informação e contestador por natureza, eu procuro com os meus pensamentos um tanto disciplinares colocar uma justificativa um pouco mais convincente para essa história.

Não sei se sou antigo demais por achar que uma criança de 10 anos não deve saber o que é e para que serve uma arma de fogo. Acredito que essa é a fase das brincadeiras de bola e de peão. Mas o que esperar quando os desenhos animados, responsáveis por entreter e ajudar no desenvolvimento da criança, tem os seus principais personagens munidos com uma arma de fogo? E se não a usam para eliminar no mínimo intimidam seus inimigos.

Os psicólogos e pedagogos citam a “terceira infância” como determinante na vida de um ser humano. Esse é o terceiro período de vida do indivíduo, acontece aproximadamente entre 6 a 12 anos. É neste período que as crianças precisam receber cuidados especiais, pois é uma fase escolar e sociável onde o indivíduo começa a interagir em seu meio e adquirir novas descobertas e conhecimentos.

Essa “terceira infância” está cada vez mais escassa. Programas de televisão inapropriados, com linguagens inóspitas e personagens impensáveis, acabam se tornando o espelho dos pequenos, que sem qualquer restrição não se intimidam a seguirem a risca toda essa doutrina transmitida a eles. Pois estão na fase de conhecer, se adequar e de conviver com insultos e incoerências, assim ainda não conseguem distinguir o melhor para sua rotina. E é por isso que ter uma família afetuosa e estruturada é essencial para o desenvolvimento do indivíduo.

O caso de Davi não fugiu desse conceito. Aos 10 anos o garoto já conhecia um mundo diferente. Sabia o que era uma arma de fogo, onde ela estava guardada e mais do que isso, tinha a consciência do que podia fazer com aquele revólver.

Davi, como outros milhares de crianças não tinha acesso a meios que o fizesse conhecer um diferente universo infantil. Cresceu instruído por toda essa comunicação que não respeita a infância, adolescência e a maturidade. Apenas a burguesia, aqueles que conseguem ter acesso a canais de televisão pagos e outros meios divergentes.

Davi morreu sem saber que a vida era outra, e que aos 10 anos conviveu com tudo o que a de errado.
A culpa? É da sociedade e desse mundo em que, infelizmente, Davi nasceu.


É fácil ser rico por aqui

Sentia-me um esportista, caminhando e correndo, nas ruas propícias da cidade. Um fim de semana costumeiro, no horário de verão, feito apenas para isso. Eram 18h e um sol da Bahia, ainda.

Enquanto eu e mais alguns inúmeros gatos pingados, íamos em direção a boa forma, o bar, com cara de mercearia requintada, se mantinha no esmero, sustentado por alguns boyzinhos, com camisetas apertadas e brincos brilhantes na orelha esquerda, ao lado de suas namoradas sem qualquer conteúdo.

Tudo normal se não fosse o imprevisto. O imprevisto aconteceu quando a mercearia fechou, e os amigos, pelo menos cinco, deixaram suas loiras em casa e saíram rumo a baderna. Com um tanto de Heineken na cabeça, dentro do carro grande e preto, o único objetivo da turma dos riquinhos, era perturbar quem quer que seja. Causar revolta, xingar, arrumar confusão. Afinal, “meu pai é influente”.

Mal acostumados com a vida de pequenos, a garotada que acabava de completar a maioridade, não mediu as consequências de atos impensados, ou não. Pensaram tão inocentes, que passar ali na rua propícia para o exercício, e encher qualquer normal que caminhava sossegado, com insultos e atos covardes, seria um tanto normal. Afinal, “meu pai é influente”.

Influente tanto que num dia de bagunça foram além. Era certo que em determinado momento, alguém, por mais normal que seja, iria se irritar e até se ‘rebaixar’ ao nível dos filhinhos de papai. E foi assim, que naquele horário de lazer, um casal se irritou com as atitudes vexatórias dos “garotões de Beverly Hills”, que ainda assim provaram o tamanho de suas rebeldias. Uma briga meio que desigual, e para o casal o hospital era logo ali.

Para os autores, nada. Filhos, sobrinhos, seja lá o que for de “influentes” empresários e comerciantes da cidade, seus nomes não foram noticiados, seus atos ‘esquecidos’ e no máximo levaram uma bronca dos responsáveis, que cortaram metade de suas mesadas.

Ah se morassem em becos, já estavam no xilindró.
Tal acontecimento me faz remeter a algumas conclusões, de um pobre, honesto e conclusivo quase jornalista: realmente eu não sei o que é o mundo dos ricos, e quer saber? Nem quero.

Se para chamar atenção, e se tornar irredutível no espaço dos playboys, se devem fazer arruaças, e intimidar outras classes sociais, eu fico mesmo como jornalista. E no exercício da profissão, por vezes digna, reconhecível e que por vezes oferece a sua vida para passar informação à sociedade, eu me sinto, ainda, no direito de divulgar nomes e sobrenomes de qualquer meliante, independente de seus pais. Mas não posso. Ainda sou um mero estudante...

E depois os pobres que são perigosos. Vai entender.

Não é difícil saber e comprovar que os ricos, são tão pobres por natureza. Essa história vem de antes, muito antes, e começou a se evidenciar em 20 de abril de 1997, quando, em Brasília, cinco jovens burgueses colocaram fogo em um índio que dormia no banco da praça. E o jovem de família rica que foi preso em São Paulo ano passado, considerado um dos principais traficantes daquele lugar.

Não vamos longe. Olha os políticos, tão podres de ricos e canalhas, corruptos, etc.

O revoltante é que não vai dar em nada, nunca.
Ser rico é fácil por aqui, afinal... “meu pai é influente” e por aqui isso basta.


E que venha a próxima primavera

As vezes, ao pensarmos no futuro, devemos nos desprender de algumas coisas: passagens da vida, sorrisos que se perderam, lágrimas que caíram em vão, ou palavras que o vento levou.

Devemos nos desligar do passado e saber que o destino nos espera. Apenas subtrair as coisas boas, que nos fizeram acreditar que hoje estaríamos aqui.

As vezes devemos reservar um tempo para realizar nossos sonhos e vivermos a nossa felicidade como se o mundo fosse perfeito, por mais que ele prove ao contrário. Devemos apenas viver, por nós, e sorrir, para dar aqueles que nos amam o prazer da nossa felicidade.

Precisamos almejar um ano bom, e manter os pés no chão, tendo a certeza de que vamos enfrentar pedras e espinhos, mas que não vamos esquecer-nos do perfumes das flores.

E que todos os sonhos e ambições não fiquem apenas em lembranças, e tudo o que foi construído por nossos pensamentos, o coração deduza.

Vamos nos entregar, com o corpo a alma e a razão, e nos convencer, dia a dia, de que a melhor escolha da vida é viver.

Agradeça tudo o que recordar, pois não foi em vão.
Ame quem provou que te ama, pois essa pessoa jamais te deixará só.

Faça do próximo ano o melhor da sua vida, mas tente superá-lo, nas suas próximas primaveras.


Estou com medo José: falei a verdade no facebook 

Hoje eu atualizei a minha página no facebook, eu e mais alguns 800 milhões de usuários, depois fui até o Twitter, encontrar mais 100 milhões de pessoas para expandir as minhas babaquices e até deter alguma informação relevante. Quanta diversidade, informação, liberdade de expressão. O direito popular de se expressar é a grande qualidade e diferença dessas redes sociais, rotuladas como o amplo exemplo democrático e liberal do país. Mentira, José.

Conheci um estudante de jornalismo. Último período, extenuado com os demasiados quatro anos de teorias e práticas na área, ouvindo sermões, dicas, rumando ao mundo das palavras e formando opiniões.

Como um bom comunicador, o garoto com cara de assustado e um tanto sonhador, tentava se enquadrar no meio das esquisitices do jornalismo. Estudou democracia, censura prévia, liberdade de expressão. Conheceu suas origens, passou por sociologia, comunidades, filosofia, cultura, ouviu dizer que não devia se limitar e que a liberdade de expressão era dever de um jornalista. Mas se deparou com o mundo. Mas não porque quis: o mundo é assustador, é mentiroso.

Certa vez, numa noite chuvosa e friorenta, a temática da aula era questionar e argumentar sobre a sociedade, a mídia e a democracia. Uma roda de discussões com um mediador adequado e alunos quase formados, diversas opiniões e uma só conclusão: a sociedade é palpada pela mídia, que insinua: vivemos num país democrático.  Os alunos chegaram até a liberdade de expressão, e não demoraram a atingir o objetivo: liberdade de expressão? Aqui? Onde? Nem em sonhos, José.

E então a pauta foi para as redes sociais, as tão comentadas, iludidas e utilizadas redes sociais. Sinônimo de liberdade, mentira. Já viraram sinônimo de dor de cabeça, ferramentas da justiça, motivos de demissões e exclusões. E ouvi gente dizendo que eram ferramentas de integração. Não, não são, mas eram para ser.

Em Assis, interior, terra do pé vermelho onde todo mundo conhece o Senhor Prefeito, as redes sociais são armas poderosas. E a censura é evidente. O mesmo colega, assustado estudante de jornalismo, exercia semanalmente o dever de comunicador e colocava em prática os ensinamentos passados em sala de aula. Era crítico, um raro caso de estudante de jornalismo que questiona os poderosos, na pequena cidade do pé vermelho. Até que um dia ele se deparou com o real.

Discorreu sobre um fato ocorrido com alguns dos donos da cidade. Criticou, expôs, e alertou a sociedade sem informação sobre o acontecido. O episódio tomou grandes proporções na internet, até que um desconhecido ligou e em outras palavras, que não ouso escrever, disse: “Ei você está em Assis e por aqui sou eu que mando seu jornalista de...”.

O tempo passou, o fato caiu em esquecimento, como esperado, e outros artigos foram escritos: o garoto que vendia bala na avenida, o mendigo que era rotulado como agressivo, a hipocrisia da sociedade e outros tantos... Todos com certa repercussão nas redes sociais. Ah essas redes. Descobri que são censuradas, e muito.

Como é sabido por aí, desde quando alguns picaretas tiraram a obrigatoriedade do diploma o curso de jornalismo não é mais o mesmo, os jovens pensam que não é mais preciso passar na academia para entrar no meio da comunicação, e então as faculdades ficam às moscas, e essas moscas são mais inteligentes que essas pessoas metidas a jornalista.

Mas a opinião é como um prato cheio de sopa, você pode deixar cair e se queimar ou até lamber o prato depois. Porém a sopa é amarga, salgada, invejada. Opinião crítica não é qualquer pessoa que tem coragem de dar, e quando alguém expõe o seu conceito é simplesmente vitimado pela hipocrisia. Ainda mais nas redes sociais.

Depois da aula o rapaz, meu conhecido, foi embora se questionando de onde vinham todas aquelas idéias transmitidas pelos docentes, que diziam admirar a competência e coragem dos profissionais críticos que não se calam e dizem o que pensam, sempre em auxílio à sociedade.

É José, acho melhor você pensar muito bem antes de ingressar no curso superior, porque tem certas coisas que desanimam, e muito.

Cuidado, não fale a verdade no facebook, ele é censurado, mas ninguém sabe.



Eu não sei rezar 

Ontem, bem de noitinha, eu falei com Deus. Baixinho ao pé do ouvido, sussurrei com lágrimas em meus olhos fechados. Estava ajoelhado em cima de meus travesseiros confortáveis, com as mãos cruzadas e um pouco de frio.

Naquela cama vazia, assim como meu quarto grande, que mais parece um mundo em dias de domingo, eu falei com Deus. Agradeci as obras que tem feito em minha vida, o sorriso que me da em dias de fúria, os desejos que tenho em dias comuns, e por toda a sua paciência com meus questionamentos.

Ponderei minha gratidão à luz que enxergo, ao caos que me afasto, ao amor que me domina. E Deus me escutou, como sempre faz.

Assim, pedi perdão. Ao acaso que encontro, ao pecado que me cerca, aos anjos que decepciono, ao mundo que não presta. Pedi perdão por não entender o que estava fazendo ali: ajoelhado em frente a um pregado na cruz. Deus me entendeu, como costumeiro.

Após minha gratidão, seguido de minhas sinceras e emocionadas desculpas, eu pedi. Pedi paz, arroz, amor e o depois. Pedi mais que a vida pode oferecer, supliquei por Deus, por seu olhar. Pedi vida, a minha estrutura, um caminho, o paraíso. Deus me deu a calma.

Não sei dizer o que a bíblia manda. Não sou fiel como os fieis dizem ser. Mas tenho Deus, comigo, em mim, pra mim. E isso basta para o meu coração que não sabe sequer rezar.

Mas Deus sabe disso, ele sabe que existo. E para ele isso basta. Desculpe-me os cristãos, os evangélicos, os agnósticos, os protestantes, simpatizantes, etc.

A minha religião é Deus, e de Deus eu quero viver.


É o fim do mundo todo dia da semana  

O sinal verde abriu. Desesperados os carros, desde o Chevette até o automático, algumas motocicletas, além de uns gatos pingados com as famosas barras forte, iam à busca do irreal, dos sonhos, dos limites e sorrisos que um dia alguém disse existir.

O feirante acordou na madrugada. O pintor só quer saber de terminar aquela casa. O empresário leva os filhos para o colégio. O político vai levantar da cama meio dia, enquanto o garoto de rua, não sabe o que é dormir a tempos. E ainda a menina de 15 anos chora de canto porque o seu paquera, com jeitinho de Justin, só quer saber dos amigos.

Fiquei sabendo que o mundo vai acabar e minha primeira reação foi como a de qualquer normal: algumas gargalhadas e gestos negativos com a cabeça. Ouvi dizer até que a data para o apocalipse está marcada. Assim, reagi como se essa inexplicável informação fosse qualquer brincadeira. Não liguei e nem levei mais a sério o fato quando foi lançado o filme, com a direção de Roland Emmerich, retratando as catástrofes mundiais que vão acontecer em 2012, número que nomeia a produção.

E por ser tão questionador e não acreditar em quaisquer dessas “loucuras”, previstas por “Mães Dinah”, eu me sentia meio excluído, ouvindo as pessoas conversarem sobre o assunto, como se 2012 – data marcada para morrermos- fosse mesmo o ano derradeiro. Me deparei até com programas de televisão falando disso com a maior naturalidade e fazendo as pessoas terem essa convicção inquestionável.
Absurdo! Ou não.

Parei um pouco para rever os meus conceitos jornalísticos, poéticos e ingênuos. E depois de refletir sobre o fim do mundo, eu me conformei. Não, ainda não acredito nessa história de meteoro, ondas gigantes, dinossauros, seja lá o que for que irá chegar e destruir a humanidade. Não em 2012. Ainda temos que passar vergonha com a copa do mundo dois anos depois.

Mas quando vejo filhos repudiando seus pais ou os pais abusando de seus descendentes. Crianças deixando de brincar de bolinhas de gude e levando para a escola uma arma de fogo. O garoto de 10 anos se matando no local de estudos. Um martelo virando arma mortal para o maluco atacar a mulher indefesa. O palhaço analfabeto se elegendo Deputado Federal. Trens de passageiros tombados, aviões caindo. Médicos omitindo socorro. Jornalistas sendo censurados. E mais outras inúmeras inexplicáveis barbáries por esse universo de inconsequências, eu começo a ter a convicção de que o mundo realmente vai acabar. Ou já está acabando.

Na minha infância eu ouvia falar em fim do mundo apenas nos desenhos, com seus vingadores que queriam, e não conseguiam, dominar o planeta. Hoje, são incontáveis os poderosos de carne e osso que desejam fazer do mundo sua empresa privada.

Eu tenho a leve impressão de que não vamos ver o Cristo Redentor e a Casa Branca se destruírem por forças naturais, como acontece no filme de Emmerich. Mas aos poucos a humanidade está se perdendo, se extinguindo, e isso é preocupante.

Sinto falta de ver crianças brincar na lama em dias chuvosos e arrancar o tampão do dedo do pé jogando bola no asfalto. Mas estou me acostumando a ver os pequenos se divertindo com jogos eletrônicos e armas de fogo. São essas crianças o futuro do mundo, eles vão sim viver para mudar ou justificar todas essas contestações sobre o final do universo.

O sinal vermelho fechou. Os carros, desde o Chevette até o automático, algumas motocicletas, além de uns gatos pingados com as famosas barras forte, pararam e ficaram imaginando como alcançar o irreal, os sonhos, os limites e sorrisos que um dia alguém disse existir. Antes que o mundo acabe e tudo isso se torne inimaginável.


Hipócritas

Domingo pela manhã as portas da igreja se abrem. Os fiéis e os muambeiros chegam com cara de sono, cabelos molhados e sorriso fechado. Os adolescentes que lá estão obrigados pelos pais, comentam sobre a balada e os pecados cometidos no dia anterior.

Enquanto a feira livre, livre de qualquer falcatrua e sinônimo de liberdade (pirataria, pasteis, sorrisos, espontaneidade) começa a vingar depois de o sol aparecer, o bêbado encontra a mulher enfurecida com duas crianças no colo e uma no peito.

Na televisão o plantão de notícias divulga um caso de extrema iniquidade: “homem é preso por roubar uma margarina e dois pães”. Enquanto isso o prefeito daquele lugar aprecia um bom whisky na sua bela piscina, regalias custeadas por seus eleitores.

E então o pastor fala em milagres, vida e eternidade. Pessoas de olhos fechados gritando ‘amém’, ‘aleluia’, e o homem de terno e topete berra aos pecadores. Não demorou ao dinheiro chegar, assunto vindo depois de uma dose exacerbada de emoção. As lágrimas que encontram o chão, consequência da divindade, afloram as angústias e detrimentos de um povo sem poder de opinião.

O homem de Deus, que ergue a voz para proferir suas preces, solicita ajuda aos leais, para assim ‘a igreja se elevar aos olhos do senhor’. Aqueles que tem tão pouco, já não possuem mais nada, venderam tudo, afinal um dia esse dinheiro se multiplica. O jargão era: “Não podemos nos ligar a bens materiais, ajude a casa do senhor”. Os fiéis só não sabiam que o senhor, referido pelo pastor, era ele próprio. Carro conversível, mulheres, bebidas e mentiras, de domingo a domingo.

Nada tão diferente do padre, naquele santuário grande e lotado de gente. O sacerdote era incisivo em falar de uma questão que há tempos domina os debates entre sociedade e catolicismo. Dizia ele que sexo antes do casamento e o uso da camisinha são pecados. Sim, a igreja diz que são.

Nada espantoso se uma semana depois a casa do mesmo padre, que emocionava com sua falácia, não fosse cercada por policiais dispostos a prendê-lo. Autuado pelo crime de pedofilia o senhor de óculos e cara de santo se tornou a mais nova decepção da cidade. Em seu lar os policiais encontraram vídeos, fotos e objetos das crianças da catequese. Até algumas camisinhas guardadas numa gaveta.

E por falar em religião, as crendices da feira da cidade a fazem ser bem comentada e frequentada por ali. As barracas de verduras frescas e pasteis inigualáveis, movimentam o lugar. O comércio de CDs e DVDs, piratas, do seu José, tem até fila de clientes, inclusive o delegado, freguês assíduo.

Durante a semana seu José vendia seus produtos nas ruas da cidade, e foi numa tarde de garoa fina que viu o seu sustento ir embora. Denunciado por pirataria, o trabalhador foi levado até a delegacia, depois de ter seus produtos apreendidos. Aos prantos por saber que o que fazia era errado, porém necessário, o comerciante encontrou um dos seus mais antigos clientes, que sem pestanejar, o enquadrou no artigo 184 do Código Penal.

E o bêbado, que encontrara na garrafa de pinga o seu refúgio, chora ao ver a mulher e as crianças no barraco improvisado. Virou alcoólatra depois de ficar desempregado, como o ladrão de pães.

Ambos são eleitores da cidade volumosa, e apenas mais dois que caíram na lábia do prefeito charlatão. Político este que gozava de sua mordomia no palácio real, mas nada fazia para o bem de quem o colocou no poder. Prometeu moradia, nada. Jurou empregos, e comprou uma casa. Disse que investiria na educação, e as creches estão precárias. É político, esperar o que?

E por medo os meios de comunicação não falam nada, e então fazem o mais fácil: julgam o ladrão de pães e de margarina e o homem bêbado que mora no barraco ao lado do viaduto. Depois divulgam, especialmente aos leigos e futuros profissionais, um manual de ‘ como se fazer jornalismo’. Como assim, se praticam tudo ao contrário do que dizem?

Deste modo o estudante, profissional da comunicação, não pode expor sua opinião, apenas porque ela é questionadora e contrária a de todos.

Tudo aqui é uma doutrina, irrisório.

E de tanto questionarem os defeitos da sociedade, todos se tornam iguais: hipócritas.


Jornalismo esportivo: entretenimento ou informação? 

As certezas sempre rondaram meu caminho durante esses “longos” 20 anos de vida. Tanto quanto as dúvidas e questionamentos que insistem em aparecer nos momentos mais incessantes, porém, não me limito a desistir do planejado.

O jornalismo nunca foi alvo de minhas interrogações,  essa é a única profissão que me vejo exercendo, no entanto, alguns imprevistos apareceram... O esporte, precisamente o futebol, faz parte dos meus sonhos desde que comecei a caminhar. Mas os tempos mudaram e ainda não sei se meus planos se foram com ele.

Em anos anteriores o jornalismo esportivo era tratado de maneira diferente. A informação era levada até o espectador de forma concreta. Acostumamo-nos a ver grandes âncoras do jornalismo esportivo televisionado passar diariamente as notícias em matérias simples e objetivas.

Hoje vemos programas de esporte, veiculados pelas maiores emissoras de televisão do país, com um formato inusitado, levando para o público reportagens dinâmicas e bem humoradas. Mas, esse formato novo de se transmitir as notícias esportivas nem sempre é bem vindo e a credibilidade da matéria fica restrita ao entretenimento contido nela.

Acredita-se que as emissoras aderiram  a esse conceito, pelo fato de que as informações passadas pelos antigos telejornais esportivos ficaram maçantes, perdendo o interesse do seu público alvo. Por isso, resolveram investir em programas mais leves e bem humorados, tentando, novamente, chamar a atenção dos espectadores. Assim, o entretenimento passou a fazer parte das matérias diárias, atraindo um público novo e mostrando uma maneira diferente de se fazer jornalismo.

Sou daqueles “antigos” que acham que o esporte deve ser tratado de forma objetiva, clara, concreta. Ainda prefiro Léo Batista na bancada, chamando a informação, do que Tiago Leifert fazendo piadas. Não vou mudar minha maneira de pensar, mesmo que isso acarrete um destino na política.

Não sou tão radical em dizer que as notícias do esporte devem ser transmitidas com a mesma seriedade de uma notícia policial, por exemplo. Toda e qualquer prática esportiva deve, sim, ter uma maneira leve de se chegar até o telespectador, mas não me conforta saber que enquanto as obras da Copa de 2014 estão atrasadas com seus custos elevadíssimos, a maior emissora de televisão do país transmite as matérias mais inusitadas que alguém já viu.

Me aventurei a ler algumas crônicas escritas por Armando Nogueira, este, jornalista botafoguense, tratava o futebol como poesia, seus textos e frases ficaram marcados pela maneira simples e tocante como abordava o mundo da bola. Dentre suas inúmeras frases um dia ele disse: “Pelé era tão perfeito que, se não tivesse nascido gente, teria nascido bola” ou aquela: “A bola é uma flor que nasce nos pés de Zico, com cheiro de gol”.

Ah, como faz falta aos novos jornalistas esportivos uma passadinha de olho nos textos dos mestres. Ainda em formação, eu não me canso de conhecer. Mas, um dos salvos jornalistas, Juca Kfouri, define bem: “Difícil não é escrever mil poesias como o Armando. Difícil é escrever uma só poesia como Mestre Armando Nogueira”. Eu sei que ninguém vai tratar o futebol como a poesia que o cerca. Afinal, colocar o entretenimento a sua frente e ocultar a informação necessária, é uma maneira fácil de agradar aos poderosos.

Fica a dica: O melhor jeito para  saber o que é jornalismo esportivo é assinando um plano de TV a cabo que contenha canais independentes e que possam falar o que realmente interessa, sem pensar nas conseqüências, como os canais ESPN por exemplo.

Lá a informação é limpa. Sim, o entretenimento aparece, mas a verdade é mais importante e oculta qualquer riso que possa aparecer no canto da boca de quem possa entender o que é o mundo do esporte.

Esse assunto da um belo trabalho de conclusão de curso... Opa, tive uma idéia!


Independência ou profissionalismo? Responde-me, Aristóteles

Não saberia responder se acaso alguém, qualquer indivíduo, me perguntasse: “o que você faz da vida?”. Não é que não faço nada, fico encostado, lendo livros de receitas e assistindo sessão da tarde. Sou até muito ocupado, eu diria.

Além da faculdade, que estou terminando, tenho outros compromissos e metas na minha vida. Tenho alguns artigos para escrever, um site para abastecer, e horário para cumprir em uma empresa, na qual sou contratado. Além de perder um tempo dormindo, sonhando...

Me considero, como poucos brasileiros, um profissional da área em que atuo. E olha que de profissionais a escassez por aqui é grande. Não falo isso da boca pra fora não. A taxa de desemprego no Brasil ficou em 4,7% em dezembro, segundo o IBGE. Eu sei que já foi maior, mas os números ainda são abusivos.

Assim, comprovamos que vivemos hoje num mundo de trabalhadores autônomos, sem registro, sem carteira de trabalho, e sem sequer o profissionalismo, algo que seria exigido em uma empresa séria, ou no decorrer de um curso superior.

Antes que comecem as condenações prévias, não estou aqui criticando os ‘profissionais independentes’, mas por serem independentes, devem ser ainda melhores. Devem cumprir horários, exigências, compromissos, e devem se destacar com algo diferenciado, para assim constituírem uma carreira sólida e bem sucedida, competindo e ganhando daqueles formados e registrados. Mas, sem generalizar, os autônomos estão cada vez mais autônomos, e o sucesso obtido acaba ‘subindo pra cabeça’.

Baseado em fatos eu discorro esse artigo.

No interior essa realidade de independência profissional é vista de perto. Quantos não são os salões de beleza, comércios de roupas, ou estúdios de tatuagem, espalhados por aqui. Muitos, porém, salvamos poucos.

No último mês um caso me fez repensar sobre a ideia de independência profissional. Era um desses trabalhadores que se destacam na cidade por sua arte original, e maneira própria de exercer o seu trabalho. Mas, às vezes não é necessário apenas ser bom. Alias ser profissional e ter profissionalismo, são coisas diferentes.

E a garota, ansiosa, sorridente, e decidida foi até onde ansiava para fazer a sua primeira tatuagem. Horário marcado há tantos dias, a dor antecipada e a aflição a faziam repensar, mas a vontade era maior, e no horário marcado estava lá. Mas foi em vão toda a angústia e tempo dedicado ao ‘sofrimento’ prematuro.

O profissional não a atendeu, nem quis conversar. Mandou um recado através de seu ajudante. Dizia ele que estava com dores nos pulsos, por isso era impossível atende-la. Horas, mas que dores são essas que o impediu até de ligar, ou de ao menos conversar com sua ‘cliente’? Não sei se são dores, nem sei se são flores, ou então engano, mas se de sucesso se faz a vida, alguém o colocou lá. E pra que atender quem não quer, se o status alcançado já permite escolher seus clientes?

A garota foi embora cabisbaixa, revoltada e sem aspectos de um sorriso, que certamente o tatuador proporcionaria.

E como esse, outros casos de estrelismo e não profissionalismo se evidenciam por aí. Às vezes em determinados ambientes o acaso se transforma no irreal. E ser bom no que se propõe a fazer, requer mais do que algumas técnicas caseiras ou diplomadas. Quem faz o sucesso de qualquer profissional, é o seu público, seus clientes. Principalmente desses autônomos.

"O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra.", disse Aristóteles. Tanto para os independentes quanto para os registrados. E que essa prosa impere, e que o tatuador volte às suas origens. Apenas assim o profissionalismo se vincula ao profissional, autônomo ou não.


Mendigos são humanos? 

Não! E mudo minha opinião apenas se alguém, com um grande poder de persuasão vier me contrariar, ou se realmente as pessoas começarem a olhar para si. Primeiro que morar na rua, implorar por dez centavos e ser frequentemente retratado como um perigo à sociedade, não é nada compassivo de alguém incluído nesse mundo tão ‘correto’.

E para confirmar a minha tese, fatos são concretos, porém nem sempre divulgados, como seriam se um desses moradores de rua espancasse algum político, por exemplo.
Por aqui, interior paulista, as coisas andam como no restante do país, mas a veracidade dos fatos e a compaixão de pessoas civilizadas são meramente maiores do que a dos brutos da capital.

Recentemente, um dos moradores de rua de Assis foi vítima de chacotas e ofensas morais, por alguns garotos mimados. Os moleques, com skates na mão e bonés para trás, diziam absurdos e gozavam da cara suja do homem.

O mesmo mendigo foi motivo de revolta entre moradores que até fizeram uma campanha para expulsá-lo da cidade. A alegação dos habitantes burgueses era de que o rapaz é muito agressivo e representava perigo à população. Pois é, quiseram expulsá-lo das ruas.

Mas o homem simpático e com um sorriso no rosto não é discórdia entre a maioria. Grande parcela de habitantes de Assis não o considera um perigo e sim um morador de rua simpático e, surpreendentemente, de bem com a vida.
Mendigos não são humanos, não podem ser.

No dia 27 de fevereiro, na capital nacional, um mendigo morreu após ter mais de 60% do corpo queimado, e outro permanece em estado grave no hospital. Os dois dormiam na rua, na cidade-satélite de Santa Maria, na periferia de Brasília. Sete pessoas foram ao local e queimaram primeiramente o sofá que os dois usavam para dormir. Depois, duas ou três pessoas voltaram e atearam fogo nos dois homens, usando provavelmente gasolina.

Os rapazes, um de 26 e outro de 42 anos, foram tratados como algo que não sei descrever, tratados como tantos mendigos espalhados por aí, e que se camuflam em meio dessa sociedade hipócrita e cruel.

Não me venha com essa de ONGS, bolsa família, bolsa carência, assistência social, etc. O que essas pessoas precisam é de civilização, desenvolvimento, progresso, cultura. Aquele mendigo de Assis, cuspiu no rosto da assistente social quando ela foi oferecer ajuda, mas não pense que ele foi mal educado ou que se deixasse ele a mataria. Ele cuspiu na hipocrisia, na divergência, ele se revoltou com um sapato de salto alto e um sorriso amarelo oferecendo comida e abrigo, por mera obrigação, como acontece sempre no nosso país.

Mendigos são humanos? Não!

Eles passam frio, calor, fome. Comem terra, lixo e restos. Bebem água da chuva, ou sua urina. Não tomam banho, nem conhecem uma escova de dente. Humilham-se, suplicando por alguma moeda, são tratados como selvagens soltos no meio da civilização. E ainda assim, nos dão bom dia, boa noite, boa tarde, e sorriem com um aperto de mão.

Acho que os mendigos somos nós, e eles é que são os humanos.


Jujubas a 1 real na Avenida Rui Barbosa 

Ao passar pela Avenida Rui Barbosa, centro de Assis, fui surpreendido. Senti três leves toques nas costas e uma voz de menino dizendo: “Moço, me ajuda?”. O garoto, de no máximo dez anos, gritava na rua: “Deliciosas jujubas, a um real cada”.

Pés descalços, bermuda rasgada, camiseta suja de terra. Numa segunda-feira chuvosa, o olhar de menino querendo brincar de jogar bola chamava a atenção. Eu não tinha um tostão no bolso, por isso não comprei as balas, mas elas não me deixaram com lombriga ou algo assim, apenas o inconformismo me fez pensar.

Nem tive a ousadia de perguntar àquela pequena criança o que ela estava fazendo ali, por que não estava em casa brincando de carrinho, ou na escola aprendendo a ler e escrever, mas pensei em algumas hipóteses no caminho para casa.

Estou acostumado a ver crianças vendendo balas, cuidando de carros, sustentando a família, isso passa toda semana na televisão. O que me surpreendeu e me deixou assustado foi que essa realidade saiu dos grandes centros. Ainda não tinha visto em Assis um garoto esperando o sinal fechar para oferecer doces aos motoristas.

Essa criança não está ali por acaso, não iria perder uma infância linda e sonhadora vendendo balas nas ruas de Assis. O pior é que, como esse menino, existem outros milhões de crianças e adolescentes espalhados pelas cidades do Brasil. A maioria daqueles que vivem nessa situação tem um passado marcado pela violência e desamparos, cresceu cercada de brigas, drogas, abusos, falta de alimentação. Não sei se o garoto mora com seus pais ou se esses estavam ali por perto, se ele estava tirando o sustento da família ou não, mas, com certeza, ele daria todas aquelas jujubas em troca de uma bola, um carrinho, uma casa.

Seus pais não podem ser julgados, apontados como principais responsáveis por essa realidade. Provavelmente eles não tiveram uma formação adequada, com uma vida diferente da que seu filho vive. O que dizer quando não há empregos e moradias, quando as verbas destinadas à educação são desviadas (“MEC diz que estados deixaram de repassar R$ 1,2 bilhão para ensino básico em 2009” – oglobo.com  10/5/ 2010), e quem pode ajudar essas pessoas acabam fingindo não enxergar o que está acontecendo.

Crianças e adolescentes não moram nas ruas porque querem, e sim porque não encontram em casa o carinho necessário, aquilo que eles precisam. As avenidas transmitem aos ingênuos jovens e crianças um sentimento de que tudo aquilo vai acabar, e o sofrimento é passageiro. Eles não têm controle emocional sobre as consequências que as ruas trazem, os vícios, as falsas amizades e os perigos. A rua representa liberdade, concluí.

Para ser sincero, não senti pena, apenas preocupação. Na minha época as crianças eram o futuro do país. Pensei nos motivos e consequências que aquelas jujubas traziam para o garoto. Tentei comparar com a minha infância: os mesmos desejos de criança, a ingenuidade nos atos, as palavras sinceras e a dependência de carinho e cuidado. Não consegui encontrar comparação.

Ao chegar ao meu destino, estava arrependido de não ter tirado as dúvidas que me afligiam. Queria ter perguntado, aconselhado, feito algo para tentar mudar a situação daquele garoto. Pensei em voltar no dia seguinte ao mesmo local, exatamente no mesmo horário, e exercer o meu papel de cidadão.

Amanheceu o dia e estava disposto a comprar as balas. Fui atrás do pequeno sonhador de olhos esbugalhados e cara de assustado, mas não o encontrei. Algumas hipóteses me fizeram pensar para onde foi aquele garoto, e até que ponto as consequências de uma vida nas ruas poderiam levá-lo.

Uma doce ilusão tomou conta de meus pensamentos. Tomara mesmo que com o dinheiro das vendas de jujubas o garoto tenha comprado sua casa e começado a estudar. Afinal, ele é o futuro do nosso Brasil varonil.


O domínio dos meios de comunicação: entre excluídos e estudiosos

Eu sou inconsequente, incontestável e apaixonado. Sou um ser humano como qualquer outro e sigo todos os caminhos que a vida me ensina. Assisto à televisão, ouço o rádio, leio jornais, revistas, acesso a internet e discuto minhas opiniões e desejos com alguém tão previsível quanto eu.

E é exatamente através dos meios de comunicação que a maioria da população mundial escolhe seu governo, sua roupa, gosto, jeito, gestos e sorrisos. Somos aniquilados com tantas bajulações, absurdos políticos e programas não censurados pelas mídias convencionais, e o pior, achamos legal.

Eu também faço parte desse contorno, fui criado assim, como milhares de “vitimas” no mundo. Cresci ouvindo meus pais justificarem seus questionamentos pelos jornais televisivos e novelas irreais. Porém, tive a sorte e a vontade incontrolável de estudar e trabalhar com esses meios de comunicação, mas não por tentar mudar as ideias e objetivos dos espectadores. E sim por transformar o mundo midiático, fazendo com que o conteúdo apresentado acrescente nas rotinas e aspirações dos espectadores.

O curso superior justifica o meu anseio. Discussões sobre o assunto são frequentes semanalmente. Pessoas sensatas, distintas e um mediador formado, estudado e objetivo em suas colocações. Debatemos sobre a importância da mídia no cotidiano das pessoas, e qual o nosso papel enquanto futuros jornalistas e formadores de opinião frente a esse mercado ilusório e desigual.

Chegamos a algumas conclusões que logo se desmancham com outros argumentos. Se nós, que temos o acesso a informações e estudamos para sermos os melhores profissionais da área não podemos fazer nada, quem vai fazer?

Contudo, somos engolidos pelo mercado, temos que nos adequar ao conceito de mídia das grandes potências se quisermos alcançar um bom status. Mas podemos ser diferentes e irmos contra esse sistema, conquistando a grande massa da população, aqueles sem acesso a informações que desmintam os noticiários e os roteiros planejados das novelas.

Entre os debates de sala de aula, um tema fica em pauta por alguns instantes, a remuneração. Financeiramente não seria uma má ideia seguir os caminhos feitos pelas potências midiáticas, temos a noção de que trabalhar na grande mídia talvez seja a consequência de um maior reconhecimento social e salarial.

No entanto, se quisermos mudar o cenário da comunicação no Brasil e no mundo temos que abrir mão de algumas coisas, entre elas uma remuneração bem sucedida. Podemos ser diferentes e fazer o que raros profissionais fazem: batermos de frente com os dominantes da comunicação e questionar suas ideias, métodos e conceitos.

Dessa forma nascem, principalmente em bairros carentes que não tem voz frente ao governo, rádios e jornais comunitários. Sem custos abusivos e com força de vontade, a população consegue manter um diálogo entre os moradores e governantes.

Muitas vezes sem concessões para operar, esses meios de comunicação comunitários fazem com que as pessoas questionem, expõem suas ideias e encarem o sistema. Porém, enfrentam dificuldades e na maioria das vezes, depois de conquistar um espaço democrático e respeitado, a ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) e a Polícia Federal se encarregam de calar a “voz dos excluídos”.  Por uma série de motivos estipulados em lei, sem levar em conta, é claro, a liberdade de expressão, tão batalhada por todos.

Mas para isso há uma explicação. Os meios de comunicação, no Brasil, por exemplo, são dominados pelos mesmos nomes, eles são donos de emissoras de TV, rádios, jornais e internet, portanto reprimem a opinião pública e transmitem o que querem, sem qualquer questionamento arbitrário que vai contra as suas opiniões.

Enquanto jornalista em formação tenho a consciência de que essas discussões em sala de aula são de extrema importância. Temos que lidar com algumas controvérsias e lutar para formar uma opinião pública divergente, que contesta as grandes mídias, formando cidadãos concisos e estimulados em ter uma crítica construtiva sobre diversos assuntos e que confrontam as idéias da elite da comunicação mundial.


Meu eterno Papai Noel

Eu vou ser sincero: depois que parei de acreditar em Papai Noel perdi todo o desejo de esperar o Natal e todas as outras felicidades da minha vida. Depois que perdi a sinceridade e ansiedade de criança, aguardando o bom velhinho descer pela chaminé. Depois que eu descobri que o gordo de barbas brancas que chegava à casa da minha família no dia de natal, era na verdade o meu tio, careca e nem tão gordo assim, eu não tive decepção maior em todos esses anos.

Descobri que quando o Papai Noel se vai, se vai também a nossa malícia. Começamos a entender nossas vidas, e o pior: descobrir em que mundo vivemos. E junto com minha desilusão natalina, foi embora a esperança em dias melhores, a felicidade em família, de sorrisos que se alastravam ao acordar de manhã e esperar a magia do natal acontecer.

Tudo mudou. Desde minhas sensações eucarísticas e entusiastas a essa data tão esperada, até a crença dos pequenos no Papai Noel. Pois vou aqui lembra-los, os pequenos, de como é bom acreditar na magia do natal. O Papai Noel é àquele que provoca as sensações mais absurdas de felicidade em qualquer criança com o mínimo de fantasia em seus pensamentos.

O natal, crianças, é o momento de mostrar ao mundo o teu sorriso banguela, a janelinha do dente da frente, o abraço apertado, o eu te amo sincero, o brinquedo mais esperado do ano. É assistir a desenhos carinhosos e os mesmos filmes natalinos que passam todo ano na TV, e mesmo assim se encantar com eles.

Esse dia, essa época, é hora de fazer uma listinha de tudo o que você fez durante o ano, coisas erradas e boas, e escrever ao Papai Noel, desenhando o presente perfeito. É hora de aguardar ansiosamente a chegada da família que vem de longe, da tia que traz presentes, doces, balas e alegria.

O natal é o melhor dia do ano e tem que ser assim. Isso não pode acabar. Se acabar não existe mais razão para acreditar na alegria, e nem que esse mundo um dia vai melhorar.

Como eu ainda queria escrever cartas ao Papai Noel e deixar na mesa da sala biscoitos e um copo de leite morno para ele se alimentar e voltar, nos próximos anos.

Como eu queria que as crianças não deixassem de serem crianças, e segurassem o Papai Noel em seus corações, até o último segundo de sua infância. Queria que os pequenos entendessem, que quando o Papai Noel se vai, se vai também a magia do natal.

Que saudades, Papai Noel.


O estreito caminho da liberdade de expressão

O domínio implícito dos meios de comunicação sobre as pessoas se deve muito ao preconceito, a falta de dignidade e as relações entre sociedade e governo.

Eu, enquanto estudante de jornalismo, sou privilegiado em ter acesso a informações que a população em geral não tem. A mídia influencia, manipula e muda a vida das pessoas. Os gostos são os mesmos das atrizes de novela, as ideias de absurdos ou decências são àquelas que os telejornais passam, e o governo que é eleito depende das pesquisas divulgadas pelos meios de comunicação.

Por algum tempo eu me incluía nessa sociedade, assim fui crescendo, entendia tudo apenas assistindo a telejornais, ouvindo programas de rádio ou lendo um jornal pela manhã. Na faculdade, porém, me deparei com informações que me mostraram outro caminho a seguir, mais estreito e  difícil.

Conheci os meios de comunicação comunitários, suas propostas, finalidades e contestações. São nesses meios que o direito a liberdade de expressão é o principal objetivo. As mídias comunitárias são a voz da grande massa, classificados como pobres e excluídos, frente ao governo. Rivalizando contra as ideias políticas das grandes potências e contestando os valores transmitidos à população.

As rádios comunitárias surgem como uma maneira contundente de questionar a liberdade de expressão. Todas as pessoas têm o direito à comunicação, a se expressarem e colocar suas imposições, mas não vemos isso na prática.

Os meios de comunicação convencionais (rádio, televisão, jornal e internet) são dominados e manipulados pelos mesmos nomes, assim, eles reprimem a opinião pública e apontam caminhos a serem seguidos. Quando contestados, por uma rádio comunitária, por exemplo, logo são apoiados pelo governo e travam uma batalha já ganha para não aprovarem concessões e calarem os excluídos.

Mas isso não é liberdade de expressão!

Liberdade de expressão, em seu sentido correto, quer dizer a pluralidade da informação, a democratização dos meios de comunicação, a voz do povo frente a qualquer questionamento.

Não temos alternativas para contestar e se aprofundar no assunto, a não ser o estudo em um curso superior, algo que pouca gente consegue. O nosso dever enquanto futuro jornalistas é questionar e transmitir para a população todos os caminhos a seguir para fugirem dessas repressões e ideias que os dominantes impõem diante da sociedade. Fazendo com que  a comunicação se torne um direito de cidadania.

É um caminho estreito, como a relação entre população e governantes ou entre comunidades e os poderosos donos das mídias.

Chico Buarque em uma de suas obras primas, a música “O que será” composta em 1976, melodiou a repressão de maneira simples e insultante. Em uma estrofe Chico diz: “O que será, que será? ... O que não tem governo nem nunca terá. O que não tem vergonha nem nunca terá. O que não tem juízo”

Refletindo sobre a letra da canção, percebe-se que o autor se refere ao Brasil, o que será do país em que vivemos, onde esta a liberdade, a compaixão e a voz da sociedade. Essa música foi escrita na década de 70, retratando o momento em que vivia o país. Mas trazendo para os dias atuais, não vemos muita diferença.

O Brasil, país da diversidade e da alegria, considera a liberdade de expressão como uma questão já definida. Porém, essa liberdade diante dos meios de comunicação é constantemente contestada, a sociedade é pautada por tudo o que a grande mídia diz. Eles mostram o caminho a seguir e a sociedade acompanha.

Aqueles que tentam questionar criam rádios e meios viáveis de comunicação para se incluírem na sociedade, mas não tem vida fácil e muitas vezes acabam se calando precocemente.

“O que será, que será?” do nosso futuro, frente a esse mercado midiático, ilusório, desigual e como em outras décadas, muito contestável.


O corredor de um hospital: a saúde pública no Brasil

E as dores o consumiam, eram fortes, latejantes. Suas mãos suavam, os olhos vermelhos lacrimejavam, a vertigem era consequência.

A saúde pública o fez esperar por longos e intensos 30 minutos numa cadeira de rodas, foi a solução para o chão não encontrar. A superlotação do lugar inóspito, barulhento e condizente com suas autoridades, era de se espantar.

Passado pelo médico, um tanto atencioso, foi pedido exames às pressas, internação junto ao Hospital Regional, que nada, ficou no Pronto Socorro mesmo. Colocado na maca, aguardou. A aflição continuava, remédios eram preparados, e ele dormia. Não tanto a ponto de ver fatos e ouvir histórias que um dia ilustrariam um artigo.

Já era tarde da noite, o silêncio, por incrível que pareça, pairava dentre o hospital, por enquanto. Dez minutos mais tarde chega a mãe desesperada com a filha no colo, talvez apenas uma virose, gripe comum, um tombo da cama, ou não. Três quem sabe quatro da manhã, e a demora para atendê-la foi a mesma como numa tarde, um feriado. Não ousei em perguntar o porquê, enfim.

Os gritos de desespero da criança ao ver a temida injeção acordavam toda a vizinhança doente. Era de se entender as três profissionais que se mobilizaram para segurá-la, enquanto a mãe, com lágrimas nos olhos, acariciava sua filha com palavras de conforto.

E assim a noite passou, a menina pequena foi embora dali e a atenção se voltou para outros inúmeros casos que atravessavam o corredor estreito do PS.

De repente gritos exagerados de um homem viciado em qualquer coisa. Ele chegou de ambulância, com os ânimos exaltados, e um tanto diferente. Cabelos longos, sapatos de mulher, saia curta, batom na boca.

Homossexual, o moço bem dotado de corpo, com seus tantos quase dois metros, deitou-se pelos corredores daquele lugar. Não era possível saber o que ele tinha, mas certamente algo o fazia delirar, além do preconceito corriqueiro da sociedade, que fazia dele um sujeito qualquer, por ali também.

Uma injeção bem preparada o fez cair em sono profundo, tão profundo que ficou no corredor mesmo, deitado no colchão arrumado de algum lugar. A madrugada se foi, e o rapaz moreno estendido no chão era vítima de risadas e admiração dos indivíduos que andavam nos corredores, durante o dia. Permaneceu ali a ponto de suas partes íntimas ficarem a amostra por alguns minutos. E crianças chegavam, passavam, olhavam, e pais... Santa da enfermeira com seu lençol branco que cobriu o jovem rapaz.

Acordou depois de umas 24 horas de sono, e calmo, foi-se embora, enfrentando olhares de revolta e desgosto, para um dia, quem sabe, voltar e ficar ali, sendo ‘admirado’ novamente, como um animal num circo, ou como um homossexual em um hospital.

E enquanto isso, no quarto do banheiro, os internados eram avaliados corriqueiramente. A mulher não desgrudava do marido que a 3 semanas morava no hospital, esperando uma vaga para internação, lá no tão sonhado regional. Esperou tanto que até de quarto mudou, não porque quis. Seu quadro piorou e foi levado à emergência, quase morreu sem sequer conseguir almejar um espaço digno para a internação. Deixou a mulher desesperada, gritando como viúva nos corredores, ligando para Deus e o mundo ajudá-la.

Aquele menino, que passou mal por uma dor de estômago, que vomitou até não ter mais nada para se sustentar, tomou um soro e ficou bem. Foi pedido um exame de sangue, e ele aguardou o resultado, que ficou pronto rápido: no mínimo umas 6 horas.

Ainda a garota que chegou passando mal, tomou uma injeção na veia, foi embora e 20 minutos mais tarde estava lá de volta. O senhor que nos corredores estava quase morrendo, com uma bolsa de sangue e uma de leite em seu corpo, talvez seus últimos instantes com os olhos abertos, seriam vistos por quem quer que seja.

No quarto ao lado, as dores do garoto ainda o consumiam, eram fortes, latejantes. Suas mãos suavam, os olhos vermelhos lacrimejavam, a vertigem era consequência. Sem exageros, tomou no mínimo 7 ou 8 remédios diferentes, nenhum custeado pelo governo. Gastou o que já não tinha, em farmácias. Como os caros medicamentos não adiantaram a solução então era aguardar a mesma vaga que aquele homem esperava a 3 semanas. E com fortes dores, uma semana se foi sem qualquer prognóstico confiável. O jeito era dormir para se esquecer da aflição.

E depois de 7 dias, o cansaço tomou conta, as dores pioravam apenas pelo fato de ele estar convivendo com tudo aquilo. Enfim um Clínico Geral o avaliou, deu o veredicto com base na sua experiência,e ele foi embora, continuar seu tratamento a domicílio. Já que se estivesse esperando ainda, estaria lá até hoje.

E enquanto tudo isso acontecia, certos profissionais jogavam conversa fora, iam ao supermercado ou na academia. Funcionários contavam piadas e cochilavam escondidos com os colchões das macas.

O pior é saber que nesse país nada é apenas uma crônica, que tudo se camufla em meio de fraudes. O pior é saber que enquanto as pessoas dependentes da saúde pública estão morrendo, tem gente preocupado com verbas para o carnaval, é saber que o dinheiro destinado à saúde dos carentes é desviado, e fazendas, e carros de luxo e viagens para qualquer destino, são esses doentes que pagam.

O pior é saber que nada disso vai se resolver, e que nesse corredor um dia eu vou voltar.


O meu amigo Millôr 

São quase nove horas da noite, o jogo ta pra começar, a pipoca já pula sozinha dentro do armário e a cervejinha já está no ponto. Vou tomar meu banho, relaxar e depois de assistir ao futebol vou dormir, pois estou precisando.

Nossa, que vontade de sair daqui. Não é fácil ficar desde as 8 horas em pé, caminhando apenas até a garrafa de chá. Na minha frente um computador gastado com o Word aberto, MSN e alguns sites de comunicação ligados. Ao meu lado uns três telefones e mais umas cinco agendas.

Meus dedos já estão calejados há tempos, as teclas do teclado já perderam suas cores e só ouço o som do trânsito lá fora, dentro dessa sala, a mais inóspita que já vi.

Todos já se foram, mas eu não. Estou elaborando as pautas para amanhã,  além de analisar, estudar e escrever sobre diversos assuntos para o jornal da cidade. Para isso devo ler e tentar ter uma escrita razoável e sem erros ortográficos ou gramaticais.

Mas as vezes me pergunto se alguém realmente se importa com palavras corretas e colocações equivocadas, já que quando estou no telefone, assistindo a televisão ou conversando no MSN, vejo e ouço os erros imperdoáveis, ditos até por jornalistas formados e inseridos no mundo das palavras.

Tenho um amigo, chamado Millôr Fernandes, ele é conhecido, respeitado e ousado em suas frases. “Só” é cartunista, humorista, escritor, tradutor, desenhista e jornalista.

Certa vez em uma de suas inúmeras citações ele disse: “Só depois que a tecnologia inventou o telefone, o telégrafo, a televisão, todos os meios de comunicação à longa distância, foi que se descobriu que o problema de comunicação mais sério era o de perto”. No começo hesitei, não entendi tal colocação, mas refletindo calmamente resolvi discorrer sobre o assunto.

Essa tal de tecnologia foi a responsável por afastar as pessoas dos melhores meios de comunicação existentes, o boca-boca (olho no olho) e a leitura de um jornal impresso. Agora até casamento virtual já existe, algo inimaginável há algum tempo, levando em conta que um matrimônio precisa de qualquer coisa a mais do que uma Webcam e salas de bate-papo, eu acho.

Não sou tão hipócrita em dizer que a internet, por exemplo, não agrega em nada no profissionalismo de uma empresa, ou que o telefone não é uma “mão na roda”, mas eles não podem ser os “atores principais” de uma rotina, eles devem ser os coadjuvantes.

Em sua frase Millôr fala em todos os meios de comunicação a distância e destaca o telefone, o telegrafo e a televisão, certamente alguns dos principais responsáveis por essa expansão tecnológica. Ficou impossível calcular quantas crianças deixam de assistir Hannah Montana (nada contra) para brincar de boneca ou jogar peão, por exemplo. Ou até descrever quem prefere procurar um emprego por telefone/celular do que ir levar seu currículo, por medo, vergonha, ou simplesmente acham mais fácil.

Acredito que o “problema de comunicação mais sério”, referido por Millôr, seja a maneira radical de se mudar o mundo das palavras. O que falta é se comunicar de forma direta, ler coisas construtivas, pegar um jornal impresso pela manhã, olhar no olho de um entrevistado e ao menos se preocupar com os erros de português em um texto.

Agora vou fechar o meu MSN e ir embora fazer todo o planejado, mas não sem antes agradecer a meu amigo, cartunista, humorista, escritor, tradutor, desenhista e jornalista, Millôr Fernandes, por proporcionar tal reflexão. Talvez um dia eu o conheça, por enquanto me contento com a internet.


"Salve cidade, cidade de Assis", e os semáforos...

Sábado chuvoso, e depois da água que caiu a rua de terra se transformava num lamaçal incontrolável, os carros velhos e enferrujados não ousavam em tentar sair de suas garagens, e aquele cheiro de terra molhada era o motivo dos sorrisos mais espontâneos dos moradores do bairro um tanto afastado da pacata cidade do interior paulista.

A enxurrada era pretexto de alegria da inconsequente molecada, que ali brincava sem parar, até o sol virar lua. Na casa da frente a avó preparava os bolinhos de chuva. Ao lado, o senhor de idade ouvia sua moda de viola, enquanto as fofoqueiras sentavam no banquinho de madeira inventando algum assunto para se acomodarem.

A noite chegava, a missa e o culto começavam. As crianças iam à praça da igreja, correr, comer pipoca. Os adultos assistiam a filmes de romance, comentavam sobre a novela, discutiam e depois se amavam. Domingo era dia de Senna e Galvão Bueno, de família e sorrisos... Passou.

Hoje, o inconformismo toma conta de meus anseios. Não vou dizer que o tempo passa, as coisas mudam e a vida segue seu ciclo. Sei que os meninos ficam barbados, as garotas enxutas, e o coelhinho da páscoa vira lenda. Mas por aqui essa mudança foi radical.

Não sei se pelo fato de ser criança e não saber o que é problema, tudo era diferente, mas apenas pensar que na minha infância tudo se transformava em coisa de criança, já é o necessário para confirmar minha sentença.

Aos 10 anos não me conformava com o Dick Vigarista e suas trapaças. Hoje, uma década depois, aos 10 anos o menino vai armado até a escola. Aos 12 bolinhas de gude e peão eram minhas principais fontes de diversão, agora: o que é peão?

Na cidade do interior, tudo pareceu se transformar bem mais rápido. Nunca imaginei atos bárbaros por aqui: mortes, pedofilia, preconceitos, indecência. Sei que sempre aconteceu, mas nos tempos da brilhantina, fatos como estes eram raros e certamente resolvidos.

Quem um dia iria imaginar que caminhar nas ruas seria motivo de medo? E medo de meninos que nem ao menos completaram a pseudo maioridade. Alguém devia apresentá-los aos Mini Games, e campinhos de futebol feitos nas ruas.

Mas, infelizmente, um carro, cervejas e bagunças, são os motivos incontestáveis de alegrias. Acho que deviam ser apresentados também a um chinelo e castigo dentro do quarto. Mas, atualmente, cortar metade da mesada já está de bom tamanho.

Em menos de um mês do fato ocorrido, rotulado como o caso dos playboys da rodobanha, a desmoralização voltou a se evidenciar na cidade. Episódio este que foi camuflado de maneira inexplicável, e que faz pensar: onde será que estamos?

Sábado, dia 19 de novembro de 2011, por volta das 21h um jovem viveria o pior momento de sua vida. Guilherme Duarte caminhava próximo a Igreja Redonda, em direção a sua casa, quando um carro branco se aproximou bruscamente e fez daquele horário a pior cena de um filme.

Dentro do automóvel dois homens embriagados que aparentavam ter entre 30 e 40 anos de idade, resolveram praticar o mal e abusar sexualmente do rapaz que passava pela rua estreita. Jogaram Guilherme dentro do carro e tentaram despi-lo. O jovem entrou em luta corporal com os bruscos e foi agredido vexatoriamente.

Ao ser jogado para fora do carro o garoto ficou preso, sendo arrastado e ferido. Atirado no meio do nada, a busca por socorro foi em vão. Com seus pertences roubados, foi até um telefone público, quebrado. A saída foi esperar o dia amanhecer e ir atrás das autoridades responsáveis.

Homossexual, Guilherme foi rotulado como o meliante e não vítima. Procurou a Polícia Militar, mas não foi ouvido. Mesmo machucado, física e emocionalmente, o Boletim de Ocorrências não foi registrado, o exame de corpo de delito não foi feito, e Guilherme se tornou vítima de mais um episódio de intolerância e inconseqüência na nossa modesta e "tranquila" cidade.

Onde será que estão os policiais de antigamente? Até isso mudou, amigo?

Amigo? Podemos falar de amizade!

Amigo era o motivo da música de Roberto Carlos, hoje, temos alguns amigos que nos fazem nem precisarmos de inimigos. "Sexo, drogas e Rock ‘n roll" era só no chavão dos moicanos malucos, que nem eram tão malucos assim. Agora, o mundo se perdeu e o chavão também tomou conta do interior. Não é fácil ver aquele que brincava no banco da igreja com você, ser preso por causa de drogas.

São tantos casos que se passaram e só fazem conformar o espanto que levo toda vez que olho para trás: desde um martelo assassino, até a médica omitindo socorro.

Não quero aqui aborrecer ou muito menos agradar alguém, pelo contrário. Não estou demonstrando revolta, inconformismo ou tentando almejar alguma situação criteriosa e indecente para a minha, isso, minha cidade. Mas, Assis, é você?

Talvez eu seja radical demais e tenha observado apenas agora. Vai ver tudo isso já acontecia nos tempos da minha inocência. Mas como? Se quem era preso, por estar embriagado, virava assunto das fofoqueiras do bairro. Que, alias, agora nem no portão saem, com medo de virarem fofoca.

Eu sei que o mundo mudou e com ele a nossa cidade também. Mas e se as ruas fossem de terra novamente, os carros ainda atolassem na lama, os médicos nos atendessem como devem fazer, se caminhar não fosse perigoso, ou ir embora para casa num sábado a noite fosse normal. Mas e se os loucos forem apenas loucos, os amigos não forem "amigos" e o domingo a família se reunisse. E se a polícia passasse segurança e fosse tão segura para resolver os deslizes da sociedade?

E se a nossa pacata e linda cidade, fosse linda e tão pacata, novamente?

Enquanto isso, o trânsito também muda por aqui, quem dera os semáforos fizessem o tempo voltar.
E assim vai...

Até alguém encontrar alguma rua de terra, e esperar tudo mudar.


Ser jornalista é ter o diploma em mãos

O jornalista Clóvis Rossi, autor do livro “O que é jornalismo?”, define o jornalismo como: “uma fascinante batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos”. Com essa frase, baseio minha opinião sobre a não obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercício da profissão.

Nessa batalha pela conquista das mentes e corações muitos obstáculos devem ser ultrapassados, argumentos devem ser construídos embasados em conhecimentos adquiridos num tempo árduo e compensador de estudo.

Sou estudante, tenho vinte anos e um sonho sendo previamente realizado. No terceiro período do curso de comunicação social com habilitação em jornalismo, eu já me vejo nos grandes centros exercendo a profissão. Tendo ao meu lado célebres jornalistas, diplomados, estudados e com argumentos concretos, adquiridos em quatro anos de faculdade, estudando teorias, construindo ideias e conhecendo autores importantes.

O argumento do Superior Tribunal Federal para a derrubada do diploma foi no mínimo ridículo. Eles argumentaram sobre o direito das pessoas aos meios de comunicação, a liberdade de expressão como ponto primordial para não ser obrigatório ter o diploma de jornalista em mãos para exercer seu trabalho. Atualmente, qualquer um tem o direito a se expressar, expor suas opiniões e ideias através da internet, por meio de blogs e redes sociais, não precisa ser diplomado para isso.

Porém, o mundo da comunicação social, exige algo a mais do que simples palavras ou citações, exige uma base de conhecimento para, enfim, informar a sociedade de forma séria e responsável, como um bom jornalista deve saber fazer. Não vou negar que existam jornalistas respeitados, ótimos profissionais, que não possuem o diploma. Mas são casos excepcionais.

Já me acostumei a responder leigos, que me questionam quanto a isso. Não pensei em desistir do curso, ou mudar a minha área de atuação, digo que não tenho ambição de trabalhar em centros “pequenos” que contratam pessoas sem a formação adequada de um bom profissional. Não imagino um futuro, vendo William Bonner  dar lugar a alguém sem a formação sólida de um jornalista.

Ser jornalista não é apenas pegar um microfone e sair falando, não é ter um papel e caneta e sair escrevendo. Jornalista é o profissional que vive estudando e se adequando ao mundo moderno e generalizado. O jornalismo é uma fascinante batalha em busca de mentes e corações, adequado a um período extenuante e compensador de estudos e conhecimentos.


Um retrato envernizado e um muro demolido

O muro caiu, o esquecimento também, junto com o garoto, que Deus o tenha. Mas de quem é a culpa? Se é que podemos pensar em culpa. Estou falando do caso que abalou quem quer que tenha uma essência humanitária.

A história não foi muito bem esclarecida, os fatos não foram exatamente descritos como deveriam, a revolta prevaleceu, e o que ficou foi apenas um retrato numa linda moldura envernizada.

Para quem não se lembra, foi numa peripécia de menino, que todos julgaram ser normal, que tudo aconteceu. Na manhã habitual, depois da prova de geografia, um grupo de amigos resolveu dar um pulo na aula de educação física da outra turma, literalmente.

Os portões que davam acesso a quadra poliesportiva da escola estadual estavam trancados, como sempre ficaram, e como deveriam sim ficar, e se estavam fechados era por alguma razão.

A solução encontrada pelos jovens foi pular o portão, ato costumeiro e que se passa por gerações naquela escola, como em qualquer outro colégio onde tenham jovens rebelados e instruídos por essa sociedade, que acha tudo natural.

A escola é antiga, o prédio também, e há tempos que alguns pontos dali precisam de uma reforma. Inclusive o muro, que sustentava justamente o portão que seria escalado pelos garotões do ensino médio. E o final dessa história já se sabe: nem todos passaram para o outro lado e a aula de educação física, acabou. O muro, ancestral e vacilante, não aguentou e desabou, junto com um dos adolescentes, que faleceu.

No mesmo dia começaram as especulações. Pessoas foram acusadas, protestos feitos, besteiras faladas, tudo com a emoção, antes da razão, se é que a razão existe. Mas se não existe, alguns pontos importantes e que passaram em branco devem ser analisados e discutidos por quem ao menos se interessa por veracidades. E já que aqueles que clamaram justiça e se sentiram tão poderosos a ponto de julgar e apontar culpados e degenerados, “esqueceram-se” do assunto, é relevante lembrar-lhes.

Não existe culpa. É inútil falarmos em algum responsável por uma tragédia desse nível. Apenas podemos pensar em determinadas consequências que levaram tudo isso a acontecer: não é exagero falar que burlar o sistema imposto pela escola, pulando o portão, não se aprende dentro da sala de aula, muito menos afirmar que isso se passa sim pela educação, e não a educação escolar.

Ouvi, na época, que a escola é a principal culpada. Não, não é. Se falarmos da escola, vamos nos referir ao estado, e a estrutura da educação no estado de São Paulo... Bom, produziria um livro.

Os jornalistas não puderam ter acesso às informações necessárias e às evidências concretas para afirmarem o que realmente aconteceu, portanto, tudo foi relatado com base nos depoimentos de amigos emocionados da vítima e diretores revoltados, e ao mesmo tempo assustados, do colégio. O que é verdade?

Apenas que as lembranças ficaram, os dias passaram, e a tristeza não vai embora.

E o muro, o menos culpado de tudo isso, demoliram semana passada. Tarde demais, na minha modesta opinião.


Whisky ou Água de Coco?

Pra mim tanto faz! Quero mais é a igualdade, mesmo. Não sou tão humilde em dizer que não prefiro um whisky cowboy, de vez em nunca, do que uma água de coco nos fins de semana na praia da minha casa. Sim, whisky é bom, quando é de graça então... E é por isso que não deixo aquela água de coco gelada de lado.

E não me lastimo em não ter em minha morada um bar em pronto atendimento com whisky e gelo, como nas novelas, ou então, passear na praia e tomar água de coco saboreando o horizonte do mar. Por aqui, whisky é raridade, e água de coco necessidade.

O Brasil, país tropical, tem em suas praias e diversidade a grande sacada de sua economia, o país é regado à alegria e vitimado por sua beleza exuberante, que atrai cada vez mais a riqueza, o poder, a ganância e o whisky. E assim vemos as raízes culturais, os sonhos democráticos e as riquezas comerciais irem embora como se não nascessem aqui.

O poder predominante de ambiciosos poderes doutrina o interesse público, como em meios de comunicação, por exemplo: se o fato foi noticiado no Jornal Nacional, quem ousa contestar tal verdade?

E assim, não só na televisão, como em emissoras de rádio e portais de notícias na internet e Jornais Impressos, os donos do interesse público continuam instruindo a população através de seus fatos e acontecimentos, gerados em mesas de discussões com políticos e magnatas, servidos com um bom e velho cowboy.

Já faz algum tempo que estamos vivendo tempos de mudanças econômicas, culturais, sociais, familiares, estruturais e filosóficas: menina de 12 anos grávida do segundo namorado. Menino de 10 anos é internado com abstinência a cocaína. Boate pega fogo e mata mais de 200 pessoas. Papa Bento XVI pede demissão... E o mundo não acordou!

E quando ouço as músicas que fazem a cabeça da juventude, eu reflito sobre as questões que cercam a nossa atualidade, e o conformismo não me acomoda, quando me deparo com notícias que contrapõem os meus anseios de comunicador e infindável estudante.

A desigualdade está presente no mais assíduo desejo de mudança. Por isso, é importante sentir a necessidade da expressão, e fazer com o que se sabe e se tem de verdade, a explanação de teus sentimentos sobre o mundo. Quem sabe, um dia, alguém se interesse por sua opinião.

E assim, entendo e concluo: saboreamos a Água de Coco, tradição em nosso país, e não nos arrisquemos no Whisky importado, como outras fortunas que infamam e acabam com a nossa reputação cultural.


Sou eu, o poeta 

Momentos de glórias, conquistas e euforias, assim foram as minhas três últimas primaveras. Não vou aqui lembrar-me de decepções, lágrimas ou sorrisos em vão.

Escrevo esse artigo, caro leitor, apenas para esclarecer sensatas dúvidas e confessar os meus anseios, enfrentando até algum ‘olho gordo’ que certamente passará por aqui, ou não. Talvez eu seja pessimista demais para pensar na minha vida daqui pra frente em algum jornal, portal ou qualquer emissora de comunicação reconhecida e admirada por leigos. Mas mantenho os pés no chão.Os pés no chão e a cabeça nas nuvens.

Projeções não faltam, nem ao menos desenhos de um futuro bom. É nesse ano que tudo acontece, dizem até que o mundo acaba, e eu dou de cara com ele, depois de terminar o curso superior. E quer saber? Não vejo a hora!

Mas também sei, como sou lembrado todos os dias, que o mercado de trabalho vai me ‘engolir’, abolir minhas ideologias, conceitos e perspectivas, se eu deixar, é claro. Mas não vou, não quero dinheiro, não sou tão hipócrita. E para ser sincero, desejo apenas um reconhecimento do meu trabalho: artigos, poesias, crônicas. Alias, tudo já começou.

Ao entrar na faculdade, em 2009, os pensamentos eram outros, as ideias de realidade e resquícios de um garotão do ensino médio refletiam em meus olhos um tanto quanto deslumbrados. Mas não por muito tempo, logo caí na realidade.

Não demorou e meus anseios quanto ao jornalismo já haviam mudado, como a minha vida. Agora maior de idade e entendido um pouco mais sobre o mundo surreal e apaixonante da comunicação, tive mais ainda a certeza de que estava no ambiente correto.

O primeiro, segundo e terceiro anos se foram e com eles as dúvidas. Os desejos de menino ficaram para trás, e as responsabilidades me disseram ‘oi’. Não vou mentir, me assustei. Mas não demorei a me acostumar com a nova rotina.
É bom, diria até que assustador, ver a instantaneidade de um texto publicado num jornal ou em um portal de notícias. A repercussão é grande, gera descontentamento, invejas, elogios, e até alguns sorrisos de canto.

No último período do curso superior apenas me apresento à sociedade como mais um contestador, e detentor de ideias, às vezes um tanto político, poeta e cronista, por acaso.

Sou eu, aquele polêmico que um dia o delegado contestou e que um dia chegará ao topo da felicidade, enfrentando qualquer ‘olho gordo’ que possa passar por aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado, volte sempre att.Kallil Dib