26 de abr de 2017

Meu amor de Pai



Fico quieto para não acordá-la. Já são tantas horas que nem sei, perdi o tempo. Minhas costas doem, mas não ligo. Faz frio, puxo o pequeno cobertor rosa para cima, acho que agora ela está confortável.
Ameaça abrir os olhos. E quando eles abrem vigiam todo lado: mais parecem duas jabuticabas perdidas tentando encontrar o pé de onde caíram ou uma mão acolhedora. Os olhos dela se abrem e junto com eles essa boca pequena, que já faz um bico danado quando não está satisfeita. A mesma boca que não fecha direito porque as bochechas não deixam, e o mesmo bico que devora o alimento que a faz crescer longe de toda a sujeira dos supermercados.
Se espreguiçou. Jogou os braços curtos para cima e mostrou as mãos tão pequenas que parecem de mentira. As mãos esfriam rapidamente, é melhor pôr as luvas. Esticou suas perninhas com dobras em toda parte e levantou os dedinhos de seus pés ainda sem número, relaxando seu esbelto corpo de 49 centímetros.
Eu ainda estou aqui. Dou risada com o seu sorriso que aparece quando ela encontra os anjinhos nos seus sonhos inocentes e fico me perguntando o que posso fazer para preservar essa alegria em seu rosto durante toda a vida.
O vento bate na janela. Puxo o cobertor ainda mais para cima e a protejo de qualquer vento gelado que possa atormentá-la. Começo a cantar em voz baixa cantigas de ninar que aprendi com minha bisavó e acaricio calmamente seus cabelos pretos com cheiro suave.
Eu a amo. Se é que simplesmente a palavra amor pode definir o que eu quero gritar ao mundo.
Já fiz dezenas de planos em meu coração e em todos eles tenho a felicidade dela como um aconchego de que fiz a coisa certa. Em meus planos, idealizados agora, enquanto a vejo descansar em seu berço de ouro, a presentearei com o amor que ela me ensinou a encontrar e que me retribui com uma boa dose todo santo dia.
Não vou prometer a ela a riqueza material que envergonha este mundo. Mas darei, enquanto eu ainda respirar, sementes de amor, amizade e respeito, para que ela cultive e semeie nos jardins da sua vida.
Eu ainda estou aqui. Sentado, desconfortável, analisando de perto esse desenho de Deus e confirmando com meus próprios olhos que ela está, sim, respirando. E, então, poderei dormir tranquilo... até que ela acorde, daqui a alguns minutos.

7 de mar de 2017

Inimigo particular



Me incomoda o barulho que fazem os ponteiros desse velho relógio. Estão postos em um centro arredondado de cor de ouro, são pretos e se destacam nessa sala, estrondosa apenas pela manhã. Agora, na calmaria de tantas horas, esses ponteiros me esgotam. Parecem aqui de dentro o sino da catedral lá do centro, que toca a cada meia hora e desperta as andorinhas e as corujas, o padre, a beata e os vizinhos.
Parei para admirá-los e percebi o quão injusto sou com os dois ponteiros maiores, que me avisam todos os dias a hora de parar. Não são eles que gritam a cada segundo. Mas há ali um outro ponteiro, pintado de vermelho brilhante, um pouco desgastado por tantas voltas que já deu, e que insiste em gritar a essa hora que os outros marcam.
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac...
O café que passei há alguns minutos já esfriou e depois desse gole gelado aumenta ainda mais a minha insatisfação com esse barulhento, impávido, inóspito ponteiro vermelho.
Mas não posso engavetá-lo. Também não posso jogá-lo na parede, destruí-lo em mil pedaços, dar-lhe um banho de água fria, colocá-lo embaixo do colchão. Não posso perdê-lo sem querer em um dia de faxina. Preciso dele. Preciso desses ponteiros que me regem, desse vermelho que me afronta.
Meus olhos já estão cheios de areia e ele não para... não para... Tic-tac. Tic-tac. Tic-Tac... Tic...
Escrevo este texto com os olhos vidrados no relógio à minha frente, encarando-o como um leão a sua presa, o lutador a seu rival, o vilão ao mocinho, torcendo por um final feliz que nunca chega. Mas quando decidi pôr um ponto final nesse duelo e jogar a bandeira branca da derrota, ele silenciou...
Lá no centro o sino da catedral esbraveja, o padre já está de banho tomado. Os carros passam, passarinhos cantam, o galo amanhece seu dono, as crianças vão para a escola e os pais vão trabalhar, o moço da laranja grita a promoção, a vida acorda... E o ponteiro se aquieta.

Perdi o meu tempo planejando pará-lo. Mas na próxima madrugada eu prometo que não deixarei o meu café esfriar.