19 de out de 2016

O Brasil que não respira



Um Brasil que ginga, que samba, exporta a arte, joga bola para o mundo. Um Brasil que padece e morre, sem costumes, folclores e ídolos. Um futuro obscuro está à espera de nossa gente.

Veneramos a democracia. Uma luta de tempos, uma incessante batalha vencida, que hoje permite a maioria escolher representantes do povo. São engravatados, que têm a função de propor leis para o bem comum e fazer valer suas regras, que influenciam diretamente a rotina de cada cidadão.
Mas, algumas vezes a democracia é esquecida até por aqueles que lutaram por ela. Afinal, as mesmas propostas colocadas a mesa pelos parlamentares, passam longe dos direitos do cidadão e não são discutidas, interpretadas e votadas, por aqueles únicos afetados pelas medidas impostas.
Mas, não vim aqui promover críticas a este sistema de governo - que tem como funções principais a liberdade de expressão e as oportunidades de participação na vida política – apenas contesto uma assinatura na hora errada, seja ela de quem for, vermelha ou azul.
Explico: no último mês o governo federal lançou uma proposta de reforma do ensino médio brasileiro. Entre outras, uma das mudanças importantes determinada pela medida é que o conteúdo obrigatório em salas de aula será diminuído para privilegiar cinco áreas de concentração: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. Porém, conteúdos deixarão de ser obrigatórios nesta fase de ensino, são os casos de matérias como artes, educação física, filosofia e sociologia.
Ainda não entendi, não sei se tentarei, qual o objetivo principal da iniciativa federal. As explicações dão conta de que “em breve”, teremos resultados expressivos por aqui. Segundo os mediadores, a reforma dá opção para que as escolas ofereçam aos alunos cinco possibilidades de áreas nas quais queiram empregar mais tempo. É provável que a reforma entrará em vigor em 2018.
A educação, como o clichê diz, é o ‘futuro de uma nação’, mas, no Brasil me parece que não é bem assim. Agora não se pensa, não se joga, não se cria. Acaso os estudos, as pesquisas, os índices inimagináveis, apontam que é preciso algo ser mudado na educação dos jovens brasileiros, isso pode acontecer sem desprivilegiar nenhuma área.
A reforma proposta irá privar os adolescentes da prática esportiva - já tão precária – colocará fim a espetáculos por aqui – outros palcos abrirão suas cortinas mundo afora – desmentirá a poesia do universo - nada será como antes.
Estamos perdidos em um caminho em que a única saída é a própria educação. Os mesmos defensores da reforma, devem saber que o principal problema no ensino médio brasileiro é justamente o desinteresse do estudante pela sala de aula. Agora, coibindo um jovem em formação, sedento de expectativas e por informações, ao acesso a matérias que elevam seu conhecimento, instruem e ensinam a questionar o sistema em que ele está inserido, este problema irá piorar.
Ao menos obrigaram o “inglês” a estar presente nas grades educacionais. Vamos continuar criando mão-de-obra qualificada para os restaurantes lá fora. E ninguém terá subsídios para protestar. A explicação para a reforma no ensino médio brasileiro vale uma aula de Filosofia. Ficaremos sem resposta.

13 de out de 2016

Crônica do arrependimento



Finalizo agora este texto.
Depois de ter tirado do fundo da terceira gaveta da mesa antiga, colocada no escritório bagunçado, a caneta de tinta azul por acabar, a mesma que me presenteei há alguns anos e que foi a responsável por eu chegar até aqui.
Agora, a caneta está quieta, gelada. Chateada, não quer mais trabalhar.
Conversei com ela tal qual alguém fala com seu amigo. Expliquei os motivos de tê-la deixado de lado por muito tempo, como jamais costumei fazer. Ao contrário: ela sabe que sempre foi a melhor amizade dos meus dias. A deixei guardada no escuro da gaveta, junto a papéis amassados e ideias que perdi. Entendo, agora, o seu desgosto e porque não quer colocar nestas linhas as minhas desculpas.
Ela é muito bonita. Tem a pele dourada com detalhes prateados e brilha como seu protagonismo. A maciez com que versa nas linhas de qualquer papel me deixa confortável para nunca mais tirá-la do meu lado. Mas, um dia foi preciso. A deixei.
Me lembro bem a última frase que ela me ajudou a desenhar. Falávamos, como sempre, do amor e dizemos poemas para uma folha amarela de um caderno de brochura. Tínhamos a combinação perfeita, mas as letras que aprendi a registrar não estavam a sua altura. Pobrezinha nunca interpretou outras ilusões, outras caligrafias mais bem-feitas. Mas, nunca reclamou. Até agora, que não quer trabalhar.
Então, liguei o computador. Deixei a caneta de lado com um nó na garganta e me aproximei dessas teclas desgastadas, vítimas do tempo e exaustão após muitos textos que registraram.
Letras brancas de um teclado preto barulhento, que me ajudariam a escrever nestas mesmas linhas um artigo opinativo sobre a política de nosso país. Mas que se comoveram, como os dedos que as examinam, por uma caneta de tinta azul e corpo dourado, jogada no fundo da gaveta, que foi por tanto e tanto tempo a minha melhor amiga.