17 de nov de 2016

Ternura



Encontrei meu amor no frio daquela brasa
Que já não ardia como em outros sorrisos
Mas amor que é amor encontra logo sua casa
E acende a vontade de não ser feliz sozinho.

19 de out de 2016

O Brasil que não respira



Um Brasil que ginga, que samba, exporta a arte, joga bola para o mundo. Um Brasil que padece e morre, sem costumes, folclores e ídolos. Um futuro obscuro está à espera de nossa gente.

Veneramos a democracia. Uma luta de tempos, uma incessante batalha vencida, que hoje permite a maioria escolher representantes do povo. São engravatados, que têm a função de propor leis para o bem comum e fazer valer suas regras, que influenciam diretamente a rotina de cada cidadão.
Mas, algumas vezes a democracia é esquecida até por aqueles que lutaram por ela. Afinal, as mesmas propostas colocadas a mesa pelos parlamentares, passam longe dos direitos do cidadão e não são discutidas, interpretadas e votadas, por aqueles únicos afetados pelas medidas impostas.
Mas, não vim aqui promover críticas a este sistema de governo - que tem como funções principais a liberdade de expressão e as oportunidades de participação na vida política – apenas contesto uma assinatura na hora errada, seja ela de quem for, vermelha ou azul.
Explico: no último mês o governo federal lançou uma proposta de reforma do ensino médio brasileiro. Entre outras, uma das mudanças importantes determinada pela medida é que o conteúdo obrigatório em salas de aula será diminuído para privilegiar cinco áreas de concentração: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional. Porém, conteúdos deixarão de ser obrigatórios nesta fase de ensino, são os casos de matérias como artes, educação física, filosofia e sociologia.
Ainda não entendi, não sei se tentarei, qual o objetivo principal da iniciativa federal. As explicações dão conta de que “em breve”, teremos resultados expressivos por aqui. Segundo os mediadores, a reforma dá opção para que as escolas ofereçam aos alunos cinco possibilidades de áreas nas quais queiram empregar mais tempo. É provável que a reforma entrará em vigor em 2018.
A educação, como o clichê diz, é o ‘futuro de uma nação’, mas, no Brasil me parece que não é bem assim. Agora não se pensa, não se joga, não se cria. Acaso os estudos, as pesquisas, os índices inimagináveis, apontam que é preciso algo ser mudado na educação dos jovens brasileiros, isso pode acontecer sem desprivilegiar nenhuma área.
A reforma proposta irá privar os adolescentes da prática esportiva - já tão precária – colocará fim a espetáculos por aqui – outros palcos abrirão suas cortinas mundo afora – desmentirá a poesia do universo - nada será como antes.
Estamos perdidos em um caminho em que a única saída é a própria educação. Os mesmos defensores da reforma, devem saber que o principal problema no ensino médio brasileiro é justamente o desinteresse do estudante pela sala de aula. Agora, coibindo um jovem em formação, sedento de expectativas e por informações, ao acesso a matérias que elevam seu conhecimento, instruem e ensinam a questionar o sistema em que ele está inserido, este problema irá piorar.
Ao menos obrigaram o “inglês” a estar presente nas grades educacionais. Vamos continuar criando mão-de-obra qualificada para os restaurantes lá fora. E ninguém terá subsídios para protestar. A explicação para a reforma no ensino médio brasileiro vale uma aula de Filosofia. Ficaremos sem resposta.

13 de out de 2016

Crônica do arrependimento



Finalizo agora este texto.
Depois de ter tirado do fundo da terceira gaveta da mesa antiga, colocada no escritório bagunçado, a caneta de tinta azul por acabar, a mesma que me presenteei há alguns anos e que foi a responsável por eu chegar até aqui.
Agora, a caneta está quieta, gelada. Chateada, não quer mais trabalhar.
Conversei com ela tal qual alguém fala com seu amigo. Expliquei os motivos de tê-la deixado de lado por muito tempo, como jamais costumei fazer. Ao contrário: ela sabe que sempre foi a melhor amizade dos meus dias. A deixei guardada no escuro da gaveta, junto a papéis amassados e ideias que perdi. Entendo, agora, o seu desgosto e porque não quer colocar nestas linhas as minhas desculpas.
Ela é muito bonita. Tem a pele dourada com detalhes prateados e brilha como seu protagonismo. A maciez com que versa nas linhas de qualquer papel me deixa confortável para nunca mais tirá-la do meu lado. Mas, um dia foi preciso. A deixei.
Me lembro bem a última frase que ela me ajudou a desenhar. Falávamos, como sempre, do amor e dizemos poemas para uma folha amarela de um caderno de brochura. Tínhamos a combinação perfeita, mas as letras que aprendi a registrar não estavam a sua altura. Pobrezinha nunca interpretou outras ilusões, outras caligrafias mais bem-feitas. Mas, nunca reclamou. Até agora, que não quer trabalhar.
Então, liguei o computador. Deixei a caneta de lado com um nó na garganta e me aproximei dessas teclas desgastadas, vítimas do tempo e exaustão após muitos textos que registraram.
Letras brancas de um teclado preto barulhento, que me ajudariam a escrever nestas mesmas linhas um artigo opinativo sobre a política de nosso país. Mas que se comoveram, como os dedos que as examinam, por uma caneta de tinta azul e corpo dourado, jogada no fundo da gaveta, que foi por tanto e tanto tempo a minha melhor amiga.

5 de set de 2016

Eu vou cuidar do nosso jardim



Ainda que relute contra seu destino e seja feliz por poucos momentos
E não quer me encontrar por essas esquinas perdidas
Ainda que não saiba o que sentes e tente me desmentir
Não saberás infinitamente o quanto podes sorrir
Ainda que assim eu te escuto e me volto a chorar, de saudade, ciúme, desejo
Te quero tão sobriamente em meus braços, o tempo que me fizeste esperar

Agora que te vejo nas ruas, em cada rua de minha vida
Caminha, passeia e sorri vagamente com sua solidão
Abro a minha janela e vejo pessoas sorrindo, vejo o mar
Nuvens negras, chuva fina, pensamentos infinitos
Agora que te vejo por aí, abraçada em outras mãos
E não pensas em me olhar, ainda assim te anseio em meus dias

Espero...
E esperarei até o dia que me fizeste te esquecer
Não conseguirás sozinha e com esse medo que tem de se afastar
Sei que me olhas escondida, sei tão bem o quanto desejas o meu mundo
Te espero, minha vida, eu te espero
Até quando ouvir o seu perdão

Passou...
Ouvi os ditados das linhas de Deus
Havia esquecido o quanto te amava, passou
Lembrei-me do que fizeste, do não que me disse
Do acaso maldito que te afastou de meus planos
Passou.

O seu beijo em meu beijo foi como encontrar um caminho
Rosas, sonhos e versos, perfume de viver sem solidão
E suas lágrimas passei a afagar, outras encontraram as minhas
E foram apenas uma tristeza, lágrimas de um só coração

Felicidade...
Te convidei para a eternidade, te fiz o meu véu
E ainda que não saiba o quanto me fizeste feliz, te amarei
Consolido os meus momentos em seus braços
E abraço a minha eternidade em seu peito

Sei que agora nada há para te levar longe de mim
Um amor, que ainda não sabemos sentir, justifica a nossa união
Eu te prometo felicidade
Afagar seus prantos, ouvir sua voz
E cuidar, até quando eu não mais conseguir

Das flores do nosso jardim.

11 de jul de 2016

Cartas à solidão



“A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la (...) Tinha que ensiná-la a pensar no amor como um estado de graça que não era meio para nada, e sim origem e fim em si mesmo”. O amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Márquez

A pior dor que um ser humano pode sentir é a da solidão. Não é tão simples quanto parece o que eu faço todos os dias: tomar um café na companhia dos cômodos quietos dessa casa escura, ouvindo o barulho das risadas lá fora, em frente ao retrato virado de cabeça para baixo. A dor mais forte que um ser humano pode sentir é a da solidão.
Nunca foi assim. Quando eu era mais jovem brincávamos de correr no pátio da escola, ficávamos até tarde na rua assistindo ao pôr do sol, tomávamos sorvete na praça da Matriz e íamos embora pensando em voltar. Hoje, sinto a dor da solidão.
Os anos se passaram e nos casamos. Tivemos filhos e netos. Tivemos paciência e amor. Tivemos 50 anos de união, até ela me trair. Lágrimas e dor. Conselhos, amparos, afagos. Nada disso eu quis. Hoje, me agarro nestas linhas para escrever com grande pesar sobre a minha solidão: a agonia mais intensa que um senhor pode conhecer.
A rotina simples do meu dia é esperar o amanhecer. Não ligo para nomes, novelas e jornais. Leio o mesmo livro há três meses e não termino por medo que tenho de ele também me deixar. Não quero chegar ao fim da história e perder meus companheiros diários. Mais do que isso, não quero decepcioná-los guardando na gaveta a incrível história dos amores perdidos nos Tempos do Cólera.
Ela me traiu. Enquanto eu termino esta frase, meus olhos se enchem de lágrimas e orgulho. Juramos a eternidade perante Deus, nossa família e amigos que nunca mais vi. Era uma promessa fácil de se cumprir, mas que, por uma razão que fugiu de meus domínios, não conseguimos. Em seu leito eu não entendia por que fechou os olhos antes de mim. E hoje eu sei que a dor mais forte que um ser humano pode sentir leva o nome de solidão.
Sentado nessa poltrona antiga, escrevendo cartas a qualquer remetente, tento voltar em meus pensamentos para dizer todos os dias que eu a amava, conforme ela esperava. Não tive tempo de presenteá-la como ela merecia. Não enviei rosas, pois eram caras. Não enxuguei suas lágrimas quando ela mais precisava. Eu apenas vivia ao seu lado. E ela nunca desistiu de mim, até hoje, quando deu suas mãos aos anjos.
É por isso que se um jovem casal vier me perguntar sobre os anos que tive ao lado de minha amada, eu ofereço alguns conselhos:
Diga bom dia. Deixe um bilhete na porta da geladeira. Preste atenção em qualquer vírgula de sua história tediosa. Durma ao seu lado, mesmo depois da briga. Afague suas lágrimas com mãos de conforto. Os dois precisam de um ombro amigo. Acima de tudo, ame. Demonstre esse amor e receba em dobro.
Hoje, escrevo cartas à solidão. A dolorida solidão, que tanto fiz para merecê-la.

14 de jun de 2016

Da morte à esperança



Foi em Orlando, Estados Unidos, que um atirador matou 50 pessoas em uma boate gay. Foi no Rio de Janeiro, Brasil, que uma jovem de 16 anos foi estuprada por 30 homens. E em Tarumã, São Paulo, uma mulher jogou seu filho recém-nascido em uma caçamba, foi trabalhar e o bebê morreu. Etc, etc.
As notícias que fizeram parte das manchetes nos últimos meses me dão agonia! É difícil acreditar. Mais complicado ainda é entender. O que será que está acontecendo? Tudo isso é reflexo do quê? Um espelho quebrado de uma humanidade hipócrita. Sem perdão, educação, paciência!
O Estado Islâmico reivindicou a responsabilidade pelo ataque na boate de Orlando e disse, barbaramente, em nota, que "Deus permitiu atacar os imundos cruzados (...)" e destacou que esse atentado é "o maior registrado nos EUA pelo número de mortos". Colocam o nome de Deus em tudo e desculpam atos como esse como uma missão a ser cumprida.
As mortes na boate foram o estopim da intolerância deste mundo perdido. São casos assim que chamam a atenção da humanidade, mas que se equiparam e deveriam ser tão revoltantes quanto as manchetes que destacam os gays espancados em colégios, avenidas, ruas. A adversidade não se justifica.
Disseram que a culpa pelo estupro no Rio de Janeiro foi da própria vítima. Ela usava roupas curtas, frequentava bailes funks, namorava “gente que não presta”. A culpa, na verdade, é de quem tem essa opinião! Qualquer mulher deste mundo tem o direito de usar a roupa que quiser e isso não quer dizer, caros, que ela está pedindo para ser xingada, assediada, humilhada, estuprada.
O bebê encontrado na caçamba foi socorrido, mas morreu antes de chegar ao hospital. Tinha acabado de nascer. Ele sentia frio. Estava estranho, o mundo que prometia ser belo agora era um monte de lixo. A voz da mãe desonrosa, que ele tinha ouvido como um ruído protetor nos últimos nove meses, se distanciou, não voltou.
Aquela criança acordou para um universo desonesto. Viveria em um monte de desgraça, iria chorar de fome e implorar por amor. Nasceu para um mundo onde a intolerância ainda prospera e a violência tem vez. Aquele bebê morreu. As 50 pessoas de Orlando morreram. A dignidade da criança de 16 anos violentada, morreu.
É tudo estranho. É o reflexo do espelho quebrado dessa sociedade feita por hipócritas.

7 de mar de 2016

Rega tuas rosas



Ele começou o dia plantando violetas. Regou os jasmins e depois as rosas.
Aquele imenso campo verde seria, em seus pensamentos, uma mistura de cores e aromas.
Aguou seus sonhos, enxugou as lágrimas com uma toalha de esperança. Gostaria de vê-la sorrir. Apenas, apenas isso.
As plantas murcharam por um instante e os jardins se acabaram.
A vida era cega. Cega!
Tudo aconteceu depois de um desastre. E ela não viu mais as rosas.
Sua tristeza...sem fim. E um novo começo.
Ele estava ao lado. Seu lado de tudo. Era tudo!
Tudo recomeçou.
De novo. De novo!
Ele passou a vida plantando... Violetas e jasmins.
Regou as rosas do campo.
Ela sentira o perfume das flores... e de um amor.
Voltou a viver...
Rega-te teu Jardim.
Como aquele velho fez.
E pra sempre ela sorriu. E amou!

19 de jan de 2016

A exótica beleza das pessoas que amam



Ele acordou pela manhã, quase tarde, olhou para o lado e viu um par de olhos negros fechados, um respirar profundo, sentiu um ar de beleza pouco comum em qualquer canto da cidade.
Ainda naquela manhã, quase tarde, sentou à mesa depois de planejar um café forte com frutas amargas. Sentiu que o café estava doce, assim como as frutas, que de amargas não tinham nada. Sorriu ao ouvir um bom dia daquela voz delicada.
Saiu para trabalhar atrasado, mas não tinha problema. Deixou para trás a saudade de segundos. Entrou no elevador cantarolando uma música que nunca tinha escutado. Virou compositor. Deu um abraço no porteiro do prédio, o mesmo que ele ignorava no resto dos dias da semana.
O terno e a gravata hoje não o incomodavam, apenas o faziam ficar mais apresentável. Chegou a seu destino. Preencheu relatórios, fez pesquisas, reuniões, foi promovido, por engano. Foi rebaixado, ouviu críticas, sugestões. Xingou o chefe, foi demitido. Jogou o terno e a gravata no lixo da sala, foi embora com um sorriso de orelha a orelha. Seus dez anos de empresa não se justificaram. Ninguém daquele escritório entendeu.
No caminho de volta à felicidade a chuva apareceu. Como no filme da semana passada, ele não viu problemas. Abriu os braços. Enquanto as pessoas em volta corriam atrás de abrigo, ele, sem terno e gravata, sentia as águas do céu e caminhava lentamente de volta para casa.
Viu o vendedor de flores parado na esquina. Comprou violetas; rosas tinham espinhos e eram muito comuns. E agora, com as cores do arco-íris indicando seu caminho, ele prosseguia saltitante ao final feliz.
Cumprimentou a vizinha chata. Fez carinho no cachorro bravo. Felicitou o carteiro. Deu adeus ao seu João e um sorvete à menina. Molhado, feliz, sorrindo, gripado, com um amor que acendia seus olhos.
Abriu a porta, colocou as violetas em cima da mesa, gritou para seu amor, ninguém respondeu. Procurou na sala, nada. No quarto, nada. Nos fundos, apenas o varal. No banheiro não estava. Na cozinha estava apenas um papel grudado na geladeira. Se sentiu aliviado, desfez a cara de susto.
Começou a ler:
“Olá. Foi um imenso prazer ficar com você. Desculpa se te fiz perder a hora do trabalho, acho que dormimos demais (também, depois de uma noite daquela...). A comida estava ótima. A sua companhia é bem agradável. Adorei te conhecer. Mas agora vou voltar para meu mundo e conhecer outras camas. Te fiz um desconto, o troco está em cima da mesa. Ah, essa semana estou com a agenda cheia, mas quando quiser me liga, o meu celular continua o mesmo. Beijos, felicidades”.
Então ele amassou o bilhete e jogou pela janela. Voltou para sua rotina triste. No outro dia saiu para procurar emprego, sem cumprimentar o porteiro.