31 de ago de 2015

Vidraça



Muito ouço falar que o nosso país está passando por uma crise financeira de grandes proporções, e confirmo tal afirmação em atitudes cotidianas. Uma volta no comércio da cidade nunca foi tão solitária. Escuto o barulho de vendedores conversando. Vejo cartazes gritando promoções.
No mercado, o tomate estraga por ser caro. O vermelho chamativo se desmancha. Com o passar dos dias ele perde sua cor original e vai escurecendo pouco a pouco. Suas sementes são inutilizadas, e daquele fruto não sairão outros.
O arroz e o feijão frequentam mesas requintadas como há tempos não se via. A cesta básica nunca foi tão pobre e necessária. Três filhos, pai e mãe, se amontoam no combate à fome. A fome mata: o bolso. E mata de tristeza e desgosto os pais trabalhadores, assalariados pelo mínimo pago a eles.
No fim do mês não sobra nada. Ter energia elétrica não é mais tão vantajoso assim. Bandeiras coloridas indicam que aquela conta irá tirar metade da remuneração dos servidores. A água, escassa e rara (quem diria), tem a sua conta compensatória no fim do mês. Os últimos dias dos 30 mensais, aliás, são terríveis. Um pesadelo.
Estamos em meio a uma crise. Coincidentemente tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo em que escândalos políticos e partidários afrontam os brasileiros. As páginas dos jornais informam diariamente o que estamos cansados de saber, que por aqui se rouba até o que não têm.
A luz no fim do túnel indica que a mudança ainda pode acontecer. E não me lembro, em meus pouco mais de 24 anos, em ter presenciado tantas pessoas declarando nas ruas, de caras pintadas, as suas insatisfações com os governantes máximos do país. Nunca antes na história dessas duas décadas, um povo gritou tanto por seus direitos.
Há quem diga, ainda, que está tudo perfeito, lindo, fantástico. Já ouvi até dizerem na capital federal que estamos caminhando a passos largos ao primeiro mundo. Na realidade, já chegamos lá. O tão cobiçado primeiro lugar é sim frequentado pelo verde e amarelo! Afinal, somos os primeiros em corrupção, em tráfico de drogas, assassinatos, desigualdade. Estamos no topo. E no final da lista da educação, do desenvolvimento, da qualidade de vida.
Há ainda piadas de mal gosto no congresso federal. As últimas davam conta de que poderia ser aprovada a redução da maioridade penal, onde jovens a partir dos 16 anos poderiam ser presos e condenados como qualquer outro cidadão maior de idade. A ideia não é de se jogar fora, isso poderia reduzir sim os índices de criminalidade por aqui.
Mas, ideias boas devem ter argumentos melhores ainda. Hoje, o nosso sistema penitenciário é precário e não consegue se adequar nem ao menos à demanda existente, imagine, então, com um considerável aumento desse número de presos.
Além disso, também disseram que a maconha poderia ser liberada para consumo próprio. Para um país em que o consumo de drogas está diretamente ligado aos números alarmantes de diversos crimes, isso seria um ‘tiro no pé’. Eu diria para os nossos caros governantes que pensem em investimentos em Assistência Social, Educação, Informação...
Ao falarmos nas ideias, também repensamos em ações. Por exemplo, apesar de tudo que o Governo Federal arrecada em impostos, de tudo que pagamos em impostos por uma bala, pela conta de energia, pelo quilo de tomate e o pacote de feijão, ainda assim vivemos uma crise financeira.
Muitos municípios brasileiros já decretaram estado de falência, afinal, com os poucos recursos que recebem da União fica praticamente impossível de se administrar e investir em uma cidade. Os impostos que entram nos cofres municipais também são relativos e boa parte deve ser destinada a outras esferas de governo.
A situação é mais crítica do que se pinta por aí. Somos vidraças, refletimos o incorreto mundo a fora. Julgados por atrasar a conta de luz por um dia. Julgados por raça, cor e religião. Mas que não consigam quebrar o espirito de mudança e desmanchar o sorriso esperançoso característico dessa nação.
Há uma luz lá no fim do túnel, que ainda não conseguiram apagar.

17 de ago de 2015

Liberdade, liberdade...



Estendo as condolências aos meus parceiros de profissão

Se um dia me disseram ‘liberdade’, talvez eu não ouvi direito, ou então, não entendi o que tal palavra significava. Perguntei a outras linhas sábias: “Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, é a sensação de estar livre e não depender de ninguém...”
Sou jornalista e tenho minhas dúvidas quando o assunto é a senhora Liberdade. Você já deve imaginar a que tipo dela me refiro. Muitas vezes as linhas que aqui você lê, são algemas disfarçadas ou bombas prestes a incomodar alguém. Sim, me refiro a essas que virão logo abaixo. Não se assuste, caro leitor. Apenas irei expor neste espaço alguns argumentos relativos à minha profissão e sei que a carapuça vai servir para muita gente...
Estou cansado. Os ponteiros do relógio já se juntaram no escuro do quarto. Há por aqui apenas uma janela aberta, um som da meia noite e de meus dedos encontrando as teclas apagadas deste calejado teclado. E um café para me acompanhar.
Essa velha cadeira carcomida pelo tempo já me seguiu por entre histórias e histórias. Hoje ela canta a música de Chico, versando neste fatídico texto libertário: “Alô, liberdade...”
Dizem os mais experientes que a dor da ditadura jamais passará. Nem ao menos o gosto doce da mudança irá tirar o nó na garganta daqueles que enfrentaram os tempos em que falar era sinônimo de coragem.
Mas, poderão concordar os focas e dinossauros: pior que isso, e aqui não cabe qualquer comparação com o passado, é viver em um tempo onde expressão e liberdade se confundem em pré-julgamentos e em teorias que levantam a bandeira de que vivemos em um país onde qualquer cidadão tem o direito de se expressar, agarrados no conceito democrático, muitas vezes desconhecido e mal interpretado.
Não, não posso escrever aqui o que gostaria que você lesse. Isso prejudicaria a mim e a você que poderia deixar de acompanhar meus próximos textos. Digo isso, pois, já tive a dolorosa experiência de receber severas retaliações sobre minhas opiniões e meus contundentes argumentos sobre assuntos sociais, políticos e ideológicos.
Já me disseram que a sua liberdade, a de expressão que vem ao caso, acaba quando interfere na do próximo. Concordo, respondi. E disse, ainda, que minha opinião pode ser interpretada de diversas maneiras, gerar inimizades e cumprimentos, ser contestada e entendida, recortada ou amassada. Mas deve ser respeitada. RESPEITADA!
Existem por aqui alguns assuntos em que os nossos subconscientes engravatados nos aconselham a não falar, e como de praxe, a política está no meio. Cidade pequena sofre com isso. A inversão de valores é imoral: não falar é ter liberdade de expressão.
A confusão se dá quando suas opiniões não dialogam com a de outros, que são momentâneos ocupantes de cadeiras administrativas. O jogo político de nosso país chega a enojar as páginas de jornais e revistas compradas para falar bem desse ou daquele partidário. Isso também significa que qualquer um que ousar dizer o que não se quer ouvir será posto contra os muros da liberdade.
Compreender e respeitar é muito difícil para as pessoas. Culturalmente, talvez pela doutrina imposta por veículos de massa e por retaliações da opinião pública, abaixar a cabeça é a alternativa plausível para se livrar deste mundinho perdido. Eu gostaria de dizer aqui o que não concordo, sem que minutos depois alguém diga para eu rever as minhas argumentações.
Eu sigo em frente. Sei que é complicado lidar com conceitos e pré-conceitos. A senhora Liberdade existe aos cegos. A opinião é abafada. O negro é injustiçado. A mulher é desrespeitada.
No samba de roda que os jornais anunciaram, homens e mulheres jogavam capoeira. Era lá que, ao fundo, eu ouvia a música da moda: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós. E que a voz da igualdade, seja sempre a nossa voz...”