16 de jun de 2015

A porta da igreja está entreaberta



Dízimo. Dízimo era o que ele pedia ao bater na porta da rua 3. De casa em casa, da manhã ensolarada até a tarde chuvosa. Não aguentava mais se empanturrar com cafezinho preto que tomava nas residências maiores daquele vilarejo.
- Entre agora menino. Venha receber o dízimo – dizia a senhora que sentava no primeiro banco da igreja pequena, que recebia semanalmente o povo do vilarejo, sedentos de palavras de conforto, e de uma fofoca ou outra que sempre sobrava no final.
- Venha ver a minha santa ceia. Ganhei do meu sobrinho, que foi até Roma, levou a namorada, mas voltaram logo, o pai dela passou mal – ela não parava de falar. E continuou... - Mas, ele lembrou de mim. Menino bom, puxou a mãe. Porque o pai...
A mãe do sobrinho era a sua irmã mais velha. Uma mãe que não teve. Uma gorda feia e chata, daquelas que os vizinhos abominam e as crianças adoram irritar. Isso não vem ao caso.
Recebeu, finalmente, todo o dízimo da semana. Levou ao padre, que lhe deu umas moedinhas em troca, e completou dizendo: Deus o abençoe e lhe dê em dobro, meu caro. E virou-se a batina rumo a santa missa do domingo.
Missa que atraia fiéis que não seguiam em momento algum o título a eles concebido. Fiéis apenas nos olhares invejosos e nas frases maldosas que formulavam em suas cabeças, enquanto o sacerdote seguia as palavras bíblicas lá na frente.
A Maria adorava chegar cedo. A igreja era pequena. Não seguia as tradições daquelas catedrais milenares, com vitrais bonitos e bancos de madeira maciça, feitos a mão. Mas era aconchegante, e conseguia abrigar mendigos friorentos nas noites de julho.
O que realmente chamava atenção naquele santuário era a hora da missa. Um novo conceito de missa. Ninguém olhava para o padre. E ele falava...falava...Lia e folheava as folhas do livro sagrado. Mas, ninguém o escutava.
Era um burburinho aqui, outro ali. Umas mulheres com panos na cabeça, escondendo a vergonha, ajoelhavam e fechavam os olhos do início ao fim da celebração. Outras, angustiadas, fofocavam e riam alto o tempo todo. Os jovens trocavam mensagens nos celulares. Os mais fogosos se encontravam no lado de fora para namorar. As crianças, aquelas que não eram coroinhas, pintavam e bordavam pelos pilares da igreja.
Mas, ainda assim existiam aquelas pessoas que juravam de pés juntos, saber virgula por virgula todas as citações do pároco. Mas, se alguém as perguntasse, não saberiam responder. Na verdade, são duas ou três madames, que levam os filhos para brincar, pagam de santa, mas apenas prestam atenção nos mínimos detalhes das roupas das mulheres vizinhas, assunto elementar no próximo chá da tarde.
Certo domingo santo, todos os devotos desceram o vilarejo rumo aquela igreja, como sempre faziam...
As madames vestiram preto e sapato de salto alto, uma delas até colocou chapéu e óculos escuro, aproveitando o sol da tarde quente do último dia do horário de verão. Na verdade, era apenas para chamar a atenção.
Outras senhoras, da primeira fileira, se encontraram três esquinas antes, e desceram explanando sobre a filha da outra vizinha de baixo, que casou grávida com o namorado desempregado. Assunto pertinente, mas que ficaria apenas entre elas... Ou não.
Duas adolescentes chegariam atrasadas. Entrariam depois do padre. Horário calculado, afinal a chapinha no cabelo e a maquiagem na cara, eram produções demoradas. Tudo feito para impressionar os outros playboys que as encontrariam no lado de fora. Missa que nada!
Tradicionalmente a missa acontecia assim que os sinos da igrejinha dessem o sinal. Sete fortes batidas que faziam a vizinhança afastada despertar. E aí entravam pelo corredor: os coroinhas, a bíblia o dízimo e o padre.
Naquela fatídica última tarde do horário de verão, desciam todos os fiéis para a santa missa do domingo. Ao chegarem não viram as luzes da igreja acesas. O carro do padre não estava no lugar reservado, como sempre aconteceu. As janelas estavam fechadas. A rua estava escura. De um lado nada, do outro também.
As especulações do povo falastrão começaram por ali mesmo. Teorias mirabolantes eram expostas. Chegaram a falar que o padre sumiu com todo o dízimo da comunidade. Alguns, mais comedidos, diziam que ele morreu.
As meninas, que chegariam atrasadas, apareceram assustadas na hora que os sinos balançavam. As crianças choravam, queriam brincar. As mulheres de preto e salto alto já não conseguiam ver a roupa de ninguém. Escureceu, o sol se foi. As fofoqueiras eram as investigadoras mais assíduas, e inflamavam o povo com suas mirabolantes teorias.
O padre, coitado, era acusado de tudo. Era inadmissível aquela igreja estar fechada. Não estava certo. As pessoas deviam sentar, ajoelhar, rezar, era obrigação de cristão. Deus não os perdoaria por faltarem à missa. Coitado do padre.
Em um ato de desespero, uma das senhoras frequentes, percebeu que a porta do lado estava entreaberta.... Ação contínua: empurraram a porta e entraram todos, desesperados. As luzes se acenderam, os sinos fizeram ainda mais barulho. E mais alto, e mais alto...
Não havia ninguém. Tudo vazio. Um olhou para o outro. Cadê a santa missa?
Uma voz, lá no fundo, se destacou sob o silêncio ensurdecedor que afetava aquele lugar. Voz conhecida, do padre. Ufa! Ele não morreu e não nos roubou. Vai ter missa!
Voz de padre, representante de Deus, dono daquela casa santa. Que contou toda essa história sem ninguém o escutar... Coitado!
Ainda pairava no ambiente as risadas grosseiras de mulheres fofoqueiras. Os olhares invejosos das madames do chá da tarde. A inquietação descontrolada de crianças mal-educadas. A despretensiosa paixão das meninas pelos adolescentes folgados. E os coroinhas, que vira e mexe pescavam um grande peixe em seus sonhos enquanto a palavra santa era dita.
Ninguém ali escutou a história contata pelo sacerdote.
Na outra semana, a porta da igreja estava entreaberta. E o dízimo não estava mais no seu lugar.