3 de dez de 2015

O estranho prazer pela desgraça

Hoje um rapaz que estava na padaria da esquina pediu o seu café matinal, um pão na chapa com manteiga e um jornal. Enquanto o café preto esfriava, e depois da primeira mordida na metade do pão, o homem deixou de lado a maioria daquelas folhas e deu a sua atenção exclusivamente à página policial do periódico.
As notícias estavam espremidas, eram muitas para pouco espaço. Uma única página não dava conta de tantos fatos. Assassinatos em cima. Latrocínios embaixo. Sequestros no meio. Traficantes presos no canto.
Enquanto lia aquelas pautas, o cara de uns 30 anos ou mais, vestido de terno e gravata, com barba a fazer, algumas vezes mostrava indignação, balançando a cabeça de um lado para o outro, outras vezes, soltava um sorriso sem graça e comentava a notícia com a moça que estava ao lado, saboreando um cappuccino com morango. Uma bela mulher, que disse: “este País está perdido”.
Ele dobrou a página 5 e a colocou debaixo do braço, pegou a pasta preta que carregava, pagou a conta e saiu. O homem esqueceu mesmo das outras páginas do jornal. Deixou de lado, então, notícias que certamente são mais importantes do que prisões. Não ficou sabendo da greve dos caminhoneiros, do preço da gasolina e nem ao menos o que vai acontecer na novela das 21h.
Eu também fui embora. Cheguei em casa e liguei o rádio para ouvir o noticiário da manhã. O âncora falava do mato alto e do buraco na rua. Achei estranho quando ouvi o repórter incentivando o munícipe entrevistado a discordar de qualquer atitude dos responsáveis pela cidade, ele queria mesmo era polemizar. Nenhuma crítica construtiva para contar história. Aproveitei para sair daquela frequência... E não voltei mais!
Resolvi acessar as redes sociais e os sites de notícias. Percebi que a matéria que estava na página policial do jornal era a mesma que contava com ilustrações no noticiário virtual. A rede social denunciava que aquela era a principal notícia do dia. Homem morto, traficante preso. O jornal da TV, então, nem se fale. Era a mesma manchete do começo ao fim.

Percebi o que já estava explícito há muito tempo. A desgraça é a audiência. A população se acostumou a isso. A notícia de uma morte é maior do que a de uma vida. Há, aqui neste mundo, um estranho prazer pela desgraça alheia.

27 de out de 2015

Confusão



Há algumas coisas por aqui que não consigo entender. Talvez não preciso entender. Ou então, não quero. Mas deveria. Há algumas coisas por aqui que são incompreensíveis. Tangíveis, inatingíveis, eis que tem coisas por aqui que não entendo. Muitas coisas por aqui, aliás, não me entram na cabeça.
As coisas que não entendo, na verdade, não são entendíveis. Apenas aquelas pessoas que conseguem entender isso e aquilo sabem o real significado do que realmente significa você entender uma coisa que não entendo.
Eu não entendo isso e aquilo. Não entendo nada desse mundo. Você pode achar eu maluco, burro, ignorante, mas eu simplesmente não entendo. Não entendo o que, porque, não entendo você, não me entendo.
Não me entendo. Não entendo porque, então, eu não entendo nada, não sei nada. Não sei mesmo. E não vou saber.
Ou você entende?
Entende a jovem que morre mais cedo. A mãe que mata o filho. O filho que mata a mãe. A criança que usa drogas. O mendigo que implora perdão. O político desonesto. O dinheiro de seu imposto. As filas nos hospitais. O menino afogado. O assalto na avenida e no metrô. O abuso em cada esquina. O dia que não nasce como o que passou.

A verdade é que eu não entendo. E nem quero entender.

31 de ago de 2015

Vidraça



Muito ouço falar que o nosso país está passando por uma crise financeira de grandes proporções, e confirmo tal afirmação em atitudes cotidianas. Uma volta no comércio da cidade nunca foi tão solitária. Escuto o barulho de vendedores conversando. Vejo cartazes gritando promoções.
No mercado, o tomate estraga por ser caro. O vermelho chamativo se desmancha. Com o passar dos dias ele perde sua cor original e vai escurecendo pouco a pouco. Suas sementes são inutilizadas, e daquele fruto não sairão outros.
O arroz e o feijão frequentam mesas requintadas como há tempos não se via. A cesta básica nunca foi tão pobre e necessária. Três filhos, pai e mãe, se amontoam no combate à fome. A fome mata: o bolso. E mata de tristeza e desgosto os pais trabalhadores, assalariados pelo mínimo pago a eles.
No fim do mês não sobra nada. Ter energia elétrica não é mais tão vantajoso assim. Bandeiras coloridas indicam que aquela conta irá tirar metade da remuneração dos servidores. A água, escassa e rara (quem diria), tem a sua conta compensatória no fim do mês. Os últimos dias dos 30 mensais, aliás, são terríveis. Um pesadelo.
Estamos em meio a uma crise. Coincidentemente tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo em que escândalos políticos e partidários afrontam os brasileiros. As páginas dos jornais informam diariamente o que estamos cansados de saber, que por aqui se rouba até o que não têm.
A luz no fim do túnel indica que a mudança ainda pode acontecer. E não me lembro, em meus pouco mais de 24 anos, em ter presenciado tantas pessoas declarando nas ruas, de caras pintadas, as suas insatisfações com os governantes máximos do país. Nunca antes na história dessas duas décadas, um povo gritou tanto por seus direitos.
Há quem diga, ainda, que está tudo perfeito, lindo, fantástico. Já ouvi até dizerem na capital federal que estamos caminhando a passos largos ao primeiro mundo. Na realidade, já chegamos lá. O tão cobiçado primeiro lugar é sim frequentado pelo verde e amarelo! Afinal, somos os primeiros em corrupção, em tráfico de drogas, assassinatos, desigualdade. Estamos no topo. E no final da lista da educação, do desenvolvimento, da qualidade de vida.
Há ainda piadas de mal gosto no congresso federal. As últimas davam conta de que poderia ser aprovada a redução da maioridade penal, onde jovens a partir dos 16 anos poderiam ser presos e condenados como qualquer outro cidadão maior de idade. A ideia não é de se jogar fora, isso poderia reduzir sim os índices de criminalidade por aqui.
Mas, ideias boas devem ter argumentos melhores ainda. Hoje, o nosso sistema penitenciário é precário e não consegue se adequar nem ao menos à demanda existente, imagine, então, com um considerável aumento desse número de presos.
Além disso, também disseram que a maconha poderia ser liberada para consumo próprio. Para um país em que o consumo de drogas está diretamente ligado aos números alarmantes de diversos crimes, isso seria um ‘tiro no pé’. Eu diria para os nossos caros governantes que pensem em investimentos em Assistência Social, Educação, Informação...
Ao falarmos nas ideias, também repensamos em ações. Por exemplo, apesar de tudo que o Governo Federal arrecada em impostos, de tudo que pagamos em impostos por uma bala, pela conta de energia, pelo quilo de tomate e o pacote de feijão, ainda assim vivemos uma crise financeira.
Muitos municípios brasileiros já decretaram estado de falência, afinal, com os poucos recursos que recebem da União fica praticamente impossível de se administrar e investir em uma cidade. Os impostos que entram nos cofres municipais também são relativos e boa parte deve ser destinada a outras esferas de governo.
A situação é mais crítica do que se pinta por aí. Somos vidraças, refletimos o incorreto mundo a fora. Julgados por atrasar a conta de luz por um dia. Julgados por raça, cor e religião. Mas que não consigam quebrar o espirito de mudança e desmanchar o sorriso esperançoso característico dessa nação.
Há uma luz lá no fim do túnel, que ainda não conseguiram apagar.

17 de ago de 2015

Liberdade, liberdade...



Estendo as condolências aos meus parceiros de profissão

Se um dia me disseram ‘liberdade’, talvez eu não ouvi direito, ou então, não entendi o que tal palavra significava. Perguntei a outras linhas sábias: “Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, é a sensação de estar livre e não depender de ninguém...”
Sou jornalista e tenho minhas dúvidas quando o assunto é a senhora Liberdade. Você já deve imaginar a que tipo dela me refiro. Muitas vezes as linhas que aqui você lê, são algemas disfarçadas ou bombas prestes a incomodar alguém. Sim, me refiro a essas que virão logo abaixo. Não se assuste, caro leitor. Apenas irei expor neste espaço alguns argumentos relativos à minha profissão e sei que a carapuça vai servir para muita gente...
Estou cansado. Os ponteiros do relógio já se juntaram no escuro do quarto. Há por aqui apenas uma janela aberta, um som da meia noite e de meus dedos encontrando as teclas apagadas deste calejado teclado. E um café para me acompanhar.
Essa velha cadeira carcomida pelo tempo já me seguiu por entre histórias e histórias. Hoje ela canta a música de Chico, versando neste fatídico texto libertário: “Alô, liberdade...”
Dizem os mais experientes que a dor da ditadura jamais passará. Nem ao menos o gosto doce da mudança irá tirar o nó na garganta daqueles que enfrentaram os tempos em que falar era sinônimo de coragem.
Mas, poderão concordar os focas e dinossauros: pior que isso, e aqui não cabe qualquer comparação com o passado, é viver em um tempo onde expressão e liberdade se confundem em pré-julgamentos e em teorias que levantam a bandeira de que vivemos em um país onde qualquer cidadão tem o direito de se expressar, agarrados no conceito democrático, muitas vezes desconhecido e mal interpretado.
Não, não posso escrever aqui o que gostaria que você lesse. Isso prejudicaria a mim e a você que poderia deixar de acompanhar meus próximos textos. Digo isso, pois, já tive a dolorosa experiência de receber severas retaliações sobre minhas opiniões e meus contundentes argumentos sobre assuntos sociais, políticos e ideológicos.
Já me disseram que a sua liberdade, a de expressão que vem ao caso, acaba quando interfere na do próximo. Concordo, respondi. E disse, ainda, que minha opinião pode ser interpretada de diversas maneiras, gerar inimizades e cumprimentos, ser contestada e entendida, recortada ou amassada. Mas deve ser respeitada. RESPEITADA!
Existem por aqui alguns assuntos em que os nossos subconscientes engravatados nos aconselham a não falar, e como de praxe, a política está no meio. Cidade pequena sofre com isso. A inversão de valores é imoral: não falar é ter liberdade de expressão.
A confusão se dá quando suas opiniões não dialogam com a de outros, que são momentâneos ocupantes de cadeiras administrativas. O jogo político de nosso país chega a enojar as páginas de jornais e revistas compradas para falar bem desse ou daquele partidário. Isso também significa que qualquer um que ousar dizer o que não se quer ouvir será posto contra os muros da liberdade.
Compreender e respeitar é muito difícil para as pessoas. Culturalmente, talvez pela doutrina imposta por veículos de massa e por retaliações da opinião pública, abaixar a cabeça é a alternativa plausível para se livrar deste mundinho perdido. Eu gostaria de dizer aqui o que não concordo, sem que minutos depois alguém diga para eu rever as minhas argumentações.
Eu sigo em frente. Sei que é complicado lidar com conceitos e pré-conceitos. A senhora Liberdade existe aos cegos. A opinião é abafada. O negro é injustiçado. A mulher é desrespeitada.
No samba de roda que os jornais anunciaram, homens e mulheres jogavam capoeira. Era lá que, ao fundo, eu ouvia a música da moda: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós. E que a voz da igualdade, seja sempre a nossa voz...”

3 de jul de 2015

Um jantar à luz de Velas


Quando ela se cansou de esperar, levantou, pegou sua bolsa de grife preta com detalhes dourados, comprada no Braz, juntou o seu orgulho e decidiu ir embora. Havia tomado um copo d’agua gelada para aliviar a ansiedade. Seus dentes, meio sensíveis, chegaram a gemer. O calafrio subiu às espinhas, e a marca do batom avermelhado fixou-se naquela taça de um vidro caro qualquer.
As marcas de seus lábios denunciavam a insatisfação de estar ali, sozinha, perdida na ilusão da espera. Não aguentava mais. Olhou e desolhou o cardápio dezenas de vezes. Chamara a atenção alguns gourmets caros, em especial o denominado ‘Lagosta ao Thermidor’. Na descrição dizia que a lagosta viria gratinada na própria casca, com molho bechamel; um acompanhamento de purê de batatas, que na apresentação do prato serve de base para montar a lagosta.
Nunca havia comido uma lagosta, sequer uma casquinha de siri. No máximo uma sardinha gratinada na farinha de rosca e bem frita, que a fazia lamber os dedos no fim de semana, na casa da avó materna. Mas, naquele lugar o seu pedido era a ‘Lagosta ao Thermidor’.
Com o que tinha no bolso não pagava nem o serviço da cozinheira. Mas, não era ela o banco da noite. Pode ser que quando a Lagosta chegasse se transformaria em um bicho de sete cabeças, e ela não saberia nem por onde começar a degustação. Mas, daqueles pratos descritos no cardápio preto, com capa aveludada e linhas pratas finas, era o único nome que soava familiar.
Os casais iam chegando. Mulheres pomposas, com vestidos longos e chamativos, nariz empinado, salto alto de dar dor nas juntas no dia seguinte, e um ar de esnobe a qualquer cidadão comum que ousava cumprimenta-las com um boa noite. Eram seguidas por homens de barba feita, e velhos parecidos com políticos, de gravatas borboletas e terno espremido, lembrando um pinguim ao caminhar.
Os sorrisos falsos e as falsas conversas rodeavam por todo aquele ambiente caro. Ela ainda estava insatisfeita. Esqueceu o celular no táxi, como já havia feito outras três vezes, não tinha, então, contato com o mundo lá fora. Baseava sua paciência pelo relógio de ouro maciço que era embutido na parede de sua frente.
Já fazia meia hora e nada. Tudo bem. Uma garoa fina que caia pelas ruas da cidade atrapalhava o intenso trânsito. Ouvira no rádio do taxista que a greve do metrô continuava a toda, e apenas alguns ônibus ainda circulavam pela cidade. Era difícil chegar a qualquer lugar. É de se entender o atraso.
Talvez o seu celular esteja vibrando como um louco no banco do passageiro do carro amarelo. Ou então a associação dos taxistas já viu todas as fotos que ela costuma tirar depois de uma boa noite de prazer. Se aqueles homens sedentos conseguirem abrir a pasta de vídeos, então... sua reputação de mulher respeitada desceria a ladeira. Mas, ainda não era hora de pensar nisso.
Estava se sentindo mal. De todas as mesas do lugar apenas aquela servia uma pessoa. As mulheres estavam todas acompanhadas, e ela disfarçava com um sorriso amarelo, mentindo que seu parceiro foi ao toilet ou conversar com o gerente do restaurante. Na verdade, ela estava sozinha ali há uma hora.
Os garçons andavam a sua volta, esperando a decisão pelo jantar. Alguns deles já comentavam entre si que aquela bela foi passada para trás na noite fria e chuvosa, propícia para um jantar à dois. Ainda assim, ela conseguia manter a sua pose.
Agora, já enganava a si mesma. Percebeu, enfim, que terminaria a noite sozinha, no cachorro quente da esquina. A lagosta ficaria em seus sonhos, quem sabe um outro dia.
O batom paraguaio desbotava em seus carnudos lábios. Seus dentes brancos e seu sorriso largo se despediram por instantes. A mulher feliz e esperançosa por uma noite de amor sem fim entre quatro paredes, depois de um jantar à luz de velas com vinhos caros e pratos chiques, essa mulher se desfez.
Passeando sozinha pelas ruas da cidade grande, olhava as estrelas e ia embora andando até a sua casa. Não era tão longe assim. Cansou dos saltos, que já estavam em suas mãos. A garoa fina molhava seu corpo e os seus sentimentos apaixonados. Por vezes as gotas do céu se juntavam às do seu rosto, e unidas tocavam juntas o chão.
Deixou pra lá o cachorro quente. A tristeza matou a sua fome.
Abriu a porta da casa, que fazia um rangido chato e lento. Não acendeu as luzes. O silêncio daqueles cômodos quietos era ensurdecedor. Deixou os sapatos pelo chão, e o casaco vermelho também. De pés sujos e orgulho ferido, deitou na cama grande e abandonada.
Sentiu um cheiro familiar. O perfume que a encantava e aflorava seus desejos mais amorosos possíveis. Saiu da escuridão quando ligou a luz fraca do abajur, que iluminou a foto de cabeceira. Ela e seu amante, namorado, marido. Abraçados em um dia feliz numa hora qualquer. Hoje, ele a abandonou. Ontem também.
A mulher viva e contente, que dizia bom dia aos vizinhos e esbanjava carisma, agora está morta. Se foi com seu amor, que morreu de coração há alguns meses. A deixou sozinha, sem pudor, sem razão e sem alma.

Ela ainda não se acostumou com a ideia. Toda semana sentava na mesa do restaurante caro, aquele mesmo que ouviu o pedido de casamento, olhava o mesmo cardápio, gravava seus lábios no mesmo copo, acendia as mesmas velas. E ia embora para a solidão.

16 de jun de 2015

A porta da igreja está entreaberta



Dízimo. Dízimo era o que ele pedia ao bater na porta da rua 3. De casa em casa, da manhã ensolarada até a tarde chuvosa. Não aguentava mais se empanturrar com cafezinho preto que tomava nas residências maiores daquele vilarejo.
- Entre agora menino. Venha receber o dízimo – dizia a senhora que sentava no primeiro banco da igreja pequena, que recebia semanalmente o povo do vilarejo, sedentos de palavras de conforto, e de uma fofoca ou outra que sempre sobrava no final.
- Venha ver a minha santa ceia. Ganhei do meu sobrinho, que foi até Roma, levou a namorada, mas voltaram logo, o pai dela passou mal – ela não parava de falar. E continuou... - Mas, ele lembrou de mim. Menino bom, puxou a mãe. Porque o pai...
A mãe do sobrinho era a sua irmã mais velha. Uma mãe que não teve. Uma gorda feia e chata, daquelas que os vizinhos abominam e as crianças adoram irritar. Isso não vem ao caso.
Recebeu, finalmente, todo o dízimo da semana. Levou ao padre, que lhe deu umas moedinhas em troca, e completou dizendo: Deus o abençoe e lhe dê em dobro, meu caro. E virou-se a batina rumo a santa missa do domingo.
Missa que atraia fiéis que não seguiam em momento algum o título a eles concebido. Fiéis apenas nos olhares invejosos e nas frases maldosas que formulavam em suas cabeças, enquanto o sacerdote seguia as palavras bíblicas lá na frente.
A Maria adorava chegar cedo. A igreja era pequena. Não seguia as tradições daquelas catedrais milenares, com vitrais bonitos e bancos de madeira maciça, feitos a mão. Mas era aconchegante, e conseguia abrigar mendigos friorentos nas noites de julho.
O que realmente chamava atenção naquele santuário era a hora da missa. Um novo conceito de missa. Ninguém olhava para o padre. E ele falava...falava...Lia e folheava as folhas do livro sagrado. Mas, ninguém o escutava.
Era um burburinho aqui, outro ali. Umas mulheres com panos na cabeça, escondendo a vergonha, ajoelhavam e fechavam os olhos do início ao fim da celebração. Outras, angustiadas, fofocavam e riam alto o tempo todo. Os jovens trocavam mensagens nos celulares. Os mais fogosos se encontravam no lado de fora para namorar. As crianças, aquelas que não eram coroinhas, pintavam e bordavam pelos pilares da igreja.
Mas, ainda assim existiam aquelas pessoas que juravam de pés juntos, saber virgula por virgula todas as citações do pároco. Mas, se alguém as perguntasse, não saberiam responder. Na verdade, são duas ou três madames, que levam os filhos para brincar, pagam de santa, mas apenas prestam atenção nos mínimos detalhes das roupas das mulheres vizinhas, assunto elementar no próximo chá da tarde.
Certo domingo santo, todos os devotos desceram o vilarejo rumo aquela igreja, como sempre faziam...
As madames vestiram preto e sapato de salto alto, uma delas até colocou chapéu e óculos escuro, aproveitando o sol da tarde quente do último dia do horário de verão. Na verdade, era apenas para chamar a atenção.
Outras senhoras, da primeira fileira, se encontraram três esquinas antes, e desceram explanando sobre a filha da outra vizinha de baixo, que casou grávida com o namorado desempregado. Assunto pertinente, mas que ficaria apenas entre elas... Ou não.
Duas adolescentes chegariam atrasadas. Entrariam depois do padre. Horário calculado, afinal a chapinha no cabelo e a maquiagem na cara, eram produções demoradas. Tudo feito para impressionar os outros playboys que as encontrariam no lado de fora. Missa que nada!
Tradicionalmente a missa acontecia assim que os sinos da igrejinha dessem o sinal. Sete fortes batidas que faziam a vizinhança afastada despertar. E aí entravam pelo corredor: os coroinhas, a bíblia o dízimo e o padre.
Naquela fatídica última tarde do horário de verão, desciam todos os fiéis para a santa missa do domingo. Ao chegarem não viram as luzes da igreja acesas. O carro do padre não estava no lugar reservado, como sempre aconteceu. As janelas estavam fechadas. A rua estava escura. De um lado nada, do outro também.
As especulações do povo falastrão começaram por ali mesmo. Teorias mirabolantes eram expostas. Chegaram a falar que o padre sumiu com todo o dízimo da comunidade. Alguns, mais comedidos, diziam que ele morreu.
As meninas, que chegariam atrasadas, apareceram assustadas na hora que os sinos balançavam. As crianças choravam, queriam brincar. As mulheres de preto e salto alto já não conseguiam ver a roupa de ninguém. Escureceu, o sol se foi. As fofoqueiras eram as investigadoras mais assíduas, e inflamavam o povo com suas mirabolantes teorias.
O padre, coitado, era acusado de tudo. Era inadmissível aquela igreja estar fechada. Não estava certo. As pessoas deviam sentar, ajoelhar, rezar, era obrigação de cristão. Deus não os perdoaria por faltarem à missa. Coitado do padre.
Em um ato de desespero, uma das senhoras frequentes, percebeu que a porta do lado estava entreaberta.... Ação contínua: empurraram a porta e entraram todos, desesperados. As luzes se acenderam, os sinos fizeram ainda mais barulho. E mais alto, e mais alto...
Não havia ninguém. Tudo vazio. Um olhou para o outro. Cadê a santa missa?
Uma voz, lá no fundo, se destacou sob o silêncio ensurdecedor que afetava aquele lugar. Voz conhecida, do padre. Ufa! Ele não morreu e não nos roubou. Vai ter missa!
Voz de padre, representante de Deus, dono daquela casa santa. Que contou toda essa história sem ninguém o escutar... Coitado!
Ainda pairava no ambiente as risadas grosseiras de mulheres fofoqueiras. Os olhares invejosos das madames do chá da tarde. A inquietação descontrolada de crianças mal-educadas. A despretensiosa paixão das meninas pelos adolescentes folgados. E os coroinhas, que vira e mexe pescavam um grande peixe em seus sonhos enquanto a palavra santa era dita.
Ninguém ali escutou a história contata pelo sacerdote.
Na outra semana, a porta da igreja estava entreaberta. E o dízimo não estava mais no seu lugar.

9 de jan de 2015

Existem pessoas que são poesias

Não desconverso quando me perguntam o que acho de ser um escritor. Primeiro eu penso: será mesmo que este título me cabe, das linhas das mãos às do caderno? E respondo simploriamente: poesia.
Eu vi uma pessoa que não desistiu de ser feliz, e com todas aquelas pedras que apareceram em seu caminho, construiu um lindo castelo, onde hoje mora a alegria e a inteligência de um homem que soube dar valor às lágrimas. Essa pessoa é poesia.
Também me lembrei daquele Senhor que todos os dias pela manhã abria os olhos, agradecia aos céus, e no retrato envelhecido de sua amada, colocado ao lado da sua cama vazia, deixava um longo beijo, cheio de ternura. Dizendo ainda que espera ansioso ter de volta o teu sorriso. Esse velho é poesia!
Uma poesia desenfreada se apodera de todos aqueles que não cessam de vontade de enxergar que o seu vizinho merece um bom dia, e o padeiro também, assim como o garçom merece um obrigado, e aquela idosa que carrega sacolas de mercado, precisa de ajuda.
Alentos se espalham entre indivíduos que enxergam que as mudanças dependem de cada um de nós, e também sobre aqueles que confiam em seus sonhos, mesmo que o mundo tente te acordar.
A poesia é uma criança, que mesmo sem falar ou tentar se entender, transforma a rotina de marmanjos desgraçados com a vida que levava. As crianças são poesias do futuro e do presente.
Existem poesias feitas com um segundo de educação. Ou com uma vida inteira de sorrisos.
 Existem pessoas que, simplesmente, são poesias!