21 de out de 2014

A história do menino que queria ser lixeiro



Todos os dias, às 18 horas, passava pela rua de terra daquele bairro afastado o Caminhão de Lixo, fazendo um barulho que se ouvia do outro lado da vila. A dona de casa saia correndo com as sacolas nas mãos, e colocava no portão da casa, ou na esquina da rua, aqueles sacos fedidos. Dali a pouco passavam os homens em cima do caminhão, pegando tudo o que ali estava jogado.
Tinha um menino, menino pequeno de pernas magrelas e de sonhos de gente grande. Ele ficava encantado com todo aquele furdunço que no final da tarde se acontecia no bairro. Ficava cativado com aqueles homens em cima do caminhão, que detinham o poder de dez minutos depois das seis, deixar toda a rua limpinha.
Certo dia o moleque resolveu imitar os seus heróis da limpeza. Pegou duas almofadas, que mais pareciam com sacos de lixo; subiu no armário da sala, que mais parecia um caminhão, e fazia um barulho com a boca igual ao do motor daquele carro grande. Era a sua melhor brincadeira.
Enquanto fazia isso, a molecada vizinha batia bola na rua. Dois times formados, e os sem camisa foram campeões. Mas, brincar no caminhão de lixo era mais legal, muito mais interessante! E o menino, com toda sua inocência de criança, dizia a quem quisesse ouvir que aquela era a brincadeira de seus sonhos...
E o pior, ele não entendia o porquê tantas pessoas davam risada quando ele falava sobre suas pretensões. Afinal, ser lixeiro é tão digno: eles limpam, reciclam, e deixam qualquer cidade mais bonita. Mas, quando um amigo seu gritava que no futuro gostaria de ser jogador de futebol, os adultos todos aplaudiam. Não há de se entender!
Certa tarde, em um de seus jeitos de criança curiosa, conversou com aquele gari que limpava a rua de cima. E o garoto, que queria ser lixeiro, desistiu.
O homem de roupas reluzentes e boné na cabeça, que tinha o rosto cansado, com marcas do tempo, que tinha as mãos calejadas e o olhar despretensioso, mas que continha um sorriso mais brilhante do que o imensurável valor de sua profissão, disse boas verdades de realidade àquele menino.
Ele disse que depois de décadas e décadas de profissão, ainda não se acostumou com o preconceito. Não falou nada de sua cor. Mas, o preconceito das pessoas que não têm qualquer tipo de respeito com o ambiente onde vivem. Jogam na rua qualquer coisa. E pensam que a cidade é um imenso lixo.
O homem contou ao menino um pouco dos valores de sua profissão. E disse dos percalços e dos lixos humanos que se encontra no meio dos sacos pretos. Lembrou que trabalha para sustentar sua família, e que recebe pouco mais de um salário mínimo. Que enfrenta todos os dias a dura batalha de pegar do chão o papel de bala que o playboy jogou. E ainda ser avacalhado pelo motorista do carro da moda, que pede licença enquanto o gari limpa a rua que ele sujou.
E as ruas limpas iam ficando ainda mais limpas. Os lixeiros mudavam de rostos semanas em semanas. Os anos passavam.  As ruas limpas iam sendo ainda mais limpas. Passaram as estações; as páginas do livro; as ilusões do garoto...
O menino não entendeu nada mais, ficou perplexo. Percebeu que as almofadas não eram sacos de lixos, e que o armário não fazia barulho nenhum. Alias, o garoto aprendeu mais do que isso: ficou sabendo desde cedo o tamanho da desigualdade desse mundo, e continuou a ver o jogador de bola receber milhões, enquanto o gari luta para sobreviver.
E então, foi viver outro sonho...

Os anjos



Quem são os Anjos que me dominam? Onde estão seu tempo, suas invejas e emoções. Quem são os Anjos que fazem dessa terra um lugar para se viver. Minha luz e proteção, meu Anjo.
Eles, que são mensageiros de Deus, iluminam o nosso caminho. Mostram lá no final a luz que tanto faltava. “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou, a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa e me ilumina.” Amém!
São crianças, disfarçadas de Anjos, ou vice-versa. Mas, onde estão todos estes protetores de mim mesmo? Quando peço a eles que olhem para o lado, que levem minhas preces até Deus Pai, às vezes eles não me escutam. Pedi que eles acabassem com esse mundo ao contrário. Não consegui.
Descobri porque os Anjos não me ouviram. Eles desistiram. Estão lá fora, brincando de fazer brincar. Pulam corda, brincam no balanço, na gangorra, de pega-pega, pique esconde, e sorriem como se nada nesse mundo pudesse ainda ser iluminado.
No terreno das lendas que já vi e vivi, os Anjos estão disfarçados. Eles são o céu e o sol, o sorriso e a lágrima. Santo Anjo do Senhor. Parem um pouco com essa brincadeira. Saem do quintal, voltem para dentro de mim, e me escutem.
Vi, ontem, uma chacina que matou jovens sem qualquer motivo; eu vi o pai brigar com a mãe, o filho sair de casa. Vi por esses dias que a mulher grávida perdeu a vida, o seu marido a aniquilou. Anjos, sentem aqui e prestem atenção: eu vi crianças, como vocês, vendendo drogas, e vi no semáforo dessa cidade, outros meninos oferecendo balas. Não era para eles estarem ali. Eu estou vendo tantas e tantas barbáries.
Os Anjos, através de Renato Russo, me responderam: “Hoje não dá. Hoje não dá. Está um dia tão bonito lá fora e eu quero brincar. Mas hoje não dá. Hoje não dá. Vou consertar a minha asa quebrada e descansar”.
E assim, sem tendências, sem melhoras. Eu vejo no mundo daqui pra frente um enorme descaso. Um desafeto sobre-humano. Não temos as perspectivas que tínhamos na época de meus avós. Tenho medo! Medo de colocar meu filho nesse universo louco, ouvindo as canções da moda e se interessando pelos vícios da moda. Ah, essa juventude, que nem acredita nos Anjos...
Sentei-me para ouvir a resposta plausível que aqueles cabelinhos encaracolados me diziam. E cantaram, através de Renato:
“Gostaria de não saber destes crimes atrozes, é todo dia agora e o que vamos fazer? Quero voar pra bem longe, mas hoje não dá, não sei o que pensar e nem o que dizer. Só nos sobrou do amor, a falta que ficou”.