21 de ago de 2014

Minhas viagens em busca da sabedoria



Ao ler um bom livro no final da noite de todos os dias atrás, percebi que eu estava em outro lugar, que não era mais tão familiar quanto meu quarto. Eu estava longe. Lá pra lá de outro mundo. Perto de onde Zezinho estava ao apaixonar-se por Mônica, sua paixão desiludida. Eu estava próximo a eles no maravilhoso “Procurando Mônica” de José Trajano.
E depois de conhecer de cabo a rabo a história desses dois personagens, pulei pra outro canto e conheci outros papéis. Vi, então, uma rua escura, daquelas de dar medo em qualquer mocinha.
Nesta rua, estava parado, num canto escondido, o francês Jean-Baptiste Grenouille, um cara maluco e galanteador, que conta com uma imensa sensibilidade olfativa e parte em busca da essência perfeita, do perfume que lhe falta para seduzir e dominar qualquer pessoa. Grenouille é de dar medo, e vontade de conhecê-lo. Foi isso o que senti ao ler “O perfume, a história de um assassino” de Patrick Süskind.
Em algum desses dias me encontrei nas linhas que Brás Cubas decidiu narrar suas memórias, após a sua morte, e me vi diante dos comportamentos individuais e sociais de tempos atrás. Tudo genialmente explicado por Machado de Assis, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Quanta coisa boa tem em sua obra!
Cada coisa divina que conseguimos encontrar também em outros tantos autores. Sabedores do caminho que nos leva à sabedoria, o livro. Esse mundo ta cheio de bons autores, e também cheio de gente desinteressada em suas obras. Eu não ligo para essas pessoas!
Então, abri o espetacular “Capitães da Areia” de Jorge Amado, que me fez voltar lá para os anos 30, e conhecer um grupo de menores abandonados, ambientados em Salvador, que me remeteram a algumas das mais incríveis aventuras que já encontrei em um livro. Obra de arte!
Ufa! Quanta coisa boa em um só texto! Parece até um dos livros que li há tantos dias atrás. Então, me recordo de “O céu é de verdade”, um livro contemporâneo, do americano Todd Burpo, que relata, de maneira emocionante, a experiência que teve com seu filho, ao ver a criança quase falecer, e dias depois ilustrar ao pai o que havia visto no céu, em seu tempo de internação. Relato tão espontâneo e inocente como apenas uma criança consegue fazer.
E para quem me perguntar sobre as viagens mais lindas e inesquecíveis que já fiz, eu citarei algumas, e não me esquecerei das minhas ilustres companhias, como as de Paulo Coelho, Fernando Veríssimo, Felipe Pena, Rubem Braga, Moacyr Scliar e o meu favorito, Gabriel Garcia Márquez.
Alias, falando em ilustres e em companhias, não poderia me esquecer do tão admirável conselho que o mestre Mário Quintana me deu em “Para viver com poesia”, uma reunião de seus melhores poemas, quando ele disse: “Dupla delícia, o livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”.
Então, eu sigo o conselho do mestre. E sigo minha viagem, para onde qualquer livro deseja me levar.

12 de ago de 2014

Rugas



Há alguns dias conversei com amigos sobre o assunto “velhice”.  Dissemos que nos custa a nos acostumarmos com o tempo que passa depressa, sem pedir licença. Tempo que deixa suas marcas e desafios, e ainda lembranças de uma vida bem vivida. E então, nos perguntamos: como será de ser a nossa velhice? Não sei!
Desenterrei algumas fotos que estavam guardadas dentro da gaveta da estante velha da sala. Algumas delas, empoeiradas, me faziam espirrar, e todas elas me trouxeram recordações tristes e felizes. Sinceras e esquecidas. De todas elas, recordações. Algum tipo de lembrança.
Comecei a reparar nos personagens daquelas fotografias. E percebi que o tempo voa mesmo. E para todo mundo, não pergunta a sua classe social, ou seu time de coração, ele apenas passa, corre.
Algumas daquelas pessoas que encontrei na caixa de fotografias já partiram dessa vida. Outras partiram da minha vida. E muitas delas ficaram, e envelheceram comigo. Ao ver fotos da minha infância, ao lado de meus falecidos avós, e algumas no colo aconchegante de meus pais, eu sorri por não ter nada a fazer. As lembranças foram minhas amigas. Minha infância foi cheia de amor familiar (o melhor de todos).
Enfim, voltei a me dedicar a analise dos rostos daquelas pessoas. E me abismei ao comparar a pele macia de minha mãe, que ainda continha linhas tênues de expressão, definindo suas bochechas rosadas de maçã.
Me assustei, pois as linhas tênues cresceram. E por mais que ela lute com o tempo, como toda mulher vaidosa faz, minha mãe envelheceu. Suas mãos estão calejadas. Seus olhos cansados. Seu sorriso ainda é encantador, mas, não ilumina o mundo inteiro como fazia antigamente. O tempo passou. O tempo passa para qualquer um, não se preocupe mãe. Eu já tenho barbas.
Chico Buarque, por exemplo, galanteador em sua época, com seus olhos de poeta e palavras de namorador, está velho. Mentes brilhantes também envelhecem. E suas marcas de expressão são tão evidentes quanto os seus sinais de cansaço. Para ele o tempo também passou.
Não me imagino, ainda, na posição de avô. Mas espero que minha idade avançada evidencie apenas sinais de experiência, e eu deixe por onde eu passar algumas garantias de felicidade e lembranças.
Acredito que a velhice é coisa da nossa cabeça, mãos, pés, joelhos, braços... O tempo passa, nada por aqui é eterno. Fotos talvez sejam eternas, e não evidenciam as inevitáveis marcas que o tempo deixou.