8 de jan de 2014

Do amor e outras providências



Calafrios! Foi isso que eu senti: calafrios. Senti calafrios quando o defeito dela chegou ao meu lado. Não foi nada tão normal e bom como eu imaginei que seria, sonhando acordado na noite anterior. Mas, foi seco e fiquei perdido, me perdi do mundo e do tempo, e me perdi em seu perfume, em seu beijo: o meu primeiro beijo.

Acho que ela já era experiente, ao menos demonstrava ser, pois, me deixou sem jeito quando teve a iniciativa que toda mulher ou menina espera de um homem apaixonado. E eu era apaixonado, e mesmo sem saber o que era paixão, eu me cativei por ela. Alguns meses depois, eu a esqueci. Paixãozite aguda, que logo acaba e que nunca passa.

Talvez todas as pessoas desse mundo romântico saberão que o primeiro sentimento bom não dura tanto tempo assim, e é apenas a porta de entrada para o amor, que um dia irá durar para sempre.

Nunca mais a vi. A última notícia que tive daquela primeira paixão foi a de que se casou e se separou, mas casou novamente. Ela com certeza não se lembrará de mim. Mas não me importo, eu me lembro daquele dia em que ela abriu as portas da minha covardia.

Depois de então conheci outros lábios e outros defeitos. Confundi-me entre amizades e namoricos que não eram para acontecer. Suspirei e me entreguei a corações que não mereciam e até derrubei lágrimas por uma solidão desvairada e desesperada. Passou.

Até que encontrei o prometido sentimento eterno, aquele mesmo que ouvi dizer em histórias de contos de fadas e livros que ninguém lê. O amor acontece, e comigo aconteceu lá pelo século passado. Encontrei-a numa festa boba do meu coração, que acordou em um dia nublado e quis-te ter. Desde aquele dia meus conceitos mudaram, e os dela também se esqueceram.

Menina bela, tão bela e inteligente. Conhecia como ninguém os meus segredos, e revelou até as minhas doces artes de enfrentar o mundo sem medo algum. Ela me mostrou que é importante ter medo, pois, o medo te da uma sensação de liberdade, depois de enfrentá-los. Lembrei-me do meu primeiro beijo, na verdade o esqueci. Pois, com ela, eu realmente comecei a viver.

Juntamos os trapos, os corações, as nossas rotinas. Passamos um bom tempo planejando como seria a nossa longa estrada, cheia de flores, pedras, montanhas e pensamentos positivos. Talvez tenha sido esse o nosso combustível para ainda, depois de cinco décadas, conseguirmos nos cativar por nosso olhar.

Não conquistamos tudo o que planejamos, não. Mas, entre todos nossos mirabolantes planos, não constava viver tanto tempo ao lado de uma pessoa. Vivemos juntos. E ela partiu. Não faz muito tempo, talvez 2 ou 3 anos. Talvez 2 ou 3 séculos, ou meses, horas. Talvez ela ainda esteja aqui.

Me conforta saber que irei de encontrá-la em breve, em qualquer lugar por aí. Enquanto isso, eu tento decifrar os pensamentos da atual juventude, que, infelizmente, não sabe o que é ter medos e sentimentos.

Sentei-me na praça, no mesmo lugar onde meu coração festejou a chegada do eterno, ainda na época do preto e branco. Tenho vontade de mostrar registros daqueles dias ao casal de enamorados que está no outro banco, mas aqueles fatos estão guardados apenas em minhas memórias. Certamente o menino de 13 anos e a garota de 12 não irão ouvir um velho romancista do século passado.

Então, deixo que o tempo cure as minhas dores. Deixo que o tempo apresente ao mundo o medo, o primeiro beijo, a paixão, a solidão, a sensatez e o amor, que, para quem ainda acreditar, durará para sempre e depois da eternidade... E depois...E depois...

7 de jan de 2014

O tonto e o homem



Era o tonto e o homem, amigos de vidas vividas, e dessas vidas encontraram um coração. E então, nos tempos de hoje, o homem virou tonto e o tonto agora é homem:

O homem briga, o tonto elogia.
O homem faz chorar de dor, o tonto de amor.
O tonto é simpático, o homem é bruto.
O tonto é tonto, o homem é homem.
O homem não agrada, não orienta e não se preocupa
O tonto é romântico, até nas dificuldades.
O homem não liga para os sentimentos.
O tonto só pensa neles.
O tonto da uma aliança dourada e sorri.
O homem da uma aliança e tira, para não mostrar.
O homem é homem, o tonto não.
O tonto faz de tudo para ver um sorriso.
O homem sorri só por ele.
O tonto ama, o homem engana.
O tonto cuida, o homem nem liga.
O homem é fácil, o tonto é poético.
O tonto faz de tudo, o homem te deixa sozinha.
O homem é tonto, o tonto é homem.
E vice-versa.



6 de jan de 2014

O lado de cá



Olha cá, vem cá
Deixa eu te dizer um Oi
Talvez você melhore e comece a suspirar
Talvez você respire

Deixa que eu te diga um Oi
E te mostro as estrelas
Talvez assim você possa sorrir pra mim
E olhar pra outro canto e fazer amar
De novo, e de novo, te amar

Olá, olha aqui, deixa eu te pedir
Fale pra mim o teu sentimento e o teu pesar
Vou te dizer o tamanho do que eu sinto
Olhe para o mar
E conte comigo cada gota d’água dessa imensidão

Deixa eu te dizer um Oi em cada seu amanhecer
E que tudo se seduza e se transforme
E que tudo se alimente e se destrua
Por seu amor e seu sentimento em mim

Os brasileiros negros não são mais negros



O Brasil e suas muitas peculiaridades, porém, uma delas me chama a atenção: a soberba de boa parte da sociedade. Comprovamos isso quando nos atentamos às diferenças nos olhares entre os povos. “Sou negro e não sou branco. Sou amarelo, não sou branco e nem quero ser negro. Sou branco, olhem pra mim, vim lá de fora e não gosto de outras cores.” Quanta bobagem!

Mal sabem as Marias, os Joãos, os Josés da Silva e Silva, que todos esses, brasileiros legítimos, são de uma só cor e de uma única raça, chamada de diversidade. Distinção que não é fácil de encontrar por esse mundão a fora. Brasileiro não tem cor, tem?

Deve ter, pode ser que tenha. Brasileiro que é do Brasil é negro, negro sofrido, raça humana, imune, vítima da diferença. Brasileiro é fruto dos índios, é pardo, é sofredor, é vítima da injustiça. Brasileiro que é brasileiro, também é branco é descendente de outro canto, é apaixonado pela variedade.

Há alguns dias tive acesso ao estudo "Pesquisa das Características Étnico-Raciais da População”, e tive a certeza que a raça negra deixou de ser um dos cartões postais do Brasil, como já ouvi dizer.

O Estudo das Categorias de Classificação de Cor ou Raça, coletou informações em 2008, em uma amostra de cerca de 15 mil domicílios, no Amazonas, Paraíba, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Distrito Federal. Entre os resultados, destaca-se o reconhecimento, por 63,7% dos entrevistados, de que a cor ou raça tem influência em suas vidas.

Entre as situações nas quais a cor ou raça tem maior influência, o trabalho aparece em primeiro lugar, seguido pela relação com a polícia/justiça, o convívio social e a escola. Dos entrevistados, 96% afirmam saber a própria cor ou raça. As cinco categorias de classificação do IBGE (branca, preta, parda, amarela e indígena), além dos termos “morena” e “negra”, foram utilizadas.

Os negros, em proporção e emoção, são maioria. Outra pesquisa, realizada no mesmo ano pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) me deixou um pouco mais pensativo. A pesquisa dizia que os negros são 70% das vítimas de assassinatos no Brasil. Coincidência?

O estudo disse ainda que a possibilidade de o negro ser vítima de homicídio no Brasil é maior inclusive em grupos com escolaridade e características socioeconômicas semelhantes. A chance de um adolescente negro ser assassinado é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos. E essa questão é social ou racial? Não sei a resposta, mas tenho ela na ponta da língua.

Os negros são maioria e representam a nação em diversas culturas, levam o nome do país para todos os cantos. Mas, os brancos e pardos fazem isso também, não fazem? O mais difícil de toda essa situação é tentar fazer com que as pessoas saibam que somos todos iguais. E talvez, um dia, não se assustem ao ver um casal de namorados de cores diferentes. A cor do sentimento é a mesma.

Ah, sou descendente de outra terra, e me conforto ao saber que meus antepassados daqui eram negros. Eu tenho sangue mulato, tenho resistência ao desrespeito. E tenho em mim o ‘maior sentimento do mundo’, seja ele qual for: branco, pardo ou negro.