25 de nov de 2013

Enquanto a cidade dorme



Lá fora, entre os galhos secos de uma árvore velha e entre os gestos hipócritas de uma cidade quieta e infeliz, um homem sobrevive andando pelas ruas escuras, becos e calçadas estreitas. Chutando pedras e amassando flores, poetizando as suas decepções, procurando um bom motivo para começar a sua vida, assim que o dia nascer.

Ele não é capaz de fechar os olhos e apagar a luz de seu quarto, como todas as noites as pessoas normais fazem. Aquele nobre rapaz não tem quarto, e nem luz. Ele não fecha os olhos, com medo de deixar passar a oportunidade de sua vida. Quem sabe, numa dessas esquinas ele não encontra o fim do túnel? Acontece que ele já foi feliz e já adormeceu no aconchego de um abraço. Abraço apertado que se desfez.

Era tão contente que jamais imaginou que a sua grande e plena felicidade deixaria a sua vida. E mesmo com os olhos vidrados em um mundo desonesto, que consumia as suas vontades dia e noite, ele ainda pensava em presentear a sua alma com sorrisos, em vão.

Ele era grande, um enorme e formidável Senhor dos negócios. E vivia em sua vida ofertando mansões e aquisições ao seu ego. Se gabava, esbanjando seus bens da moda por toda a cidade pobre. Tinha ao seu lado pessoas bonitas por fora e pobres de alma, que sumiram do dia pra noite, depois que tudo adormeceu.

E o rapaz perdeu o que tinha, e ficou apenas com sua alma lavada, depois de viver apenas no consumo e esquecer o quão bom é viver em sentimentos. Arrependeu-se. E se partiu ao meio. Encontrou um tal de “sentimento bom” nos olhos de uma amada. Os olhos dela: eram jabuticabas, que o devoravam durante intermináveis segundos.
A noite caiu. Os olhos se abriram. O sentimento bom acordou daquele sonho. Sua vida se desfez. E por um segundo ele ouviu a voz da razão:

- Calma rapaz, calma. Não tente ignorar o mundo inteiro com o teu sorriso que não tem alento. Não tente me dizer para seguir os teus passos, sabendo que nem mesmo você sabe para onde eles vão te levar.

E enquanto a cidade dorme, ele continua procurando a luz no fim do túnel, ou um sentimento bom, capaz de deixar essa esquina da vida se perder por aí.

5 de nov de 2013

João-de-barro



Disse a ela.
Não vá embora.
Nem te atrevas com outros pensamentos.

Não vou deixar você partir, nem por um segundo sequer. Longe daqui não conseguirás viver, nem em pensamentos. E suas lágrimas serão frequentes em teu rosto, elas encontrarão brevemente o chão. Os teus sorrisos amarelos e esquecidos, as tuas felicidades serão raras. Quantas são as alegrias que te ofereço, mesmo sem eu merecer? Então fique, fique aqui.

Eu a supliquei que não partistes, por muitos e muitos anos, pois, maior em mim era o medo de perdê-la. E ela amava-me quieta, sem dizer a essa vida. Um dia ela me ensinou que de repente, o amor não merece a solidão. O amor em silêncio é como o medo. É defeituoso, é incoerente. Amar em silêncio é como perder um dom divino, é não ensinar ao infeliz como é bom viver em alegria.

Talvez por besteira de ser um garoto mimado, mal educado exatamente por você, eu a prendi em meus sentimentos e você ficou nessa casa pelo resto da vida, e a vida ainda não passou. Fiz em termos e em horas a sua felicidade resplandecer. 

Você sorria de manhã, ao pensar em meu bom dia, e dormia com a felicidade em teus sonhos, por estar ao meu lado. Era amor. Eu não sabia e nem você. Nem o mundo sabia o que era o amor: não passou! Nós o cultivamos, e o mundo ainda não aprendeu a amar.

Ainda pequenino e quieto, na contramão de todas as tentativas de acertar, eu fui incorreto com os teus trejeitos, pois, não os entendia. Quem me dera, agora, depois de velho, compreendesse tamanho sentimento que você demonstrava ao dizer que jamais me amou. As pétalas vazias da rosa que te dei e que foram jogadas ao vento, ainda me recordam a você.

Nunca se esqueça. Se um dia eu partir desse mundo e não te levar, compreenda tamanha generosidade, eu te prenderei dentro de mim, na casa do meu coração. Eu te cuidarei. Jamais vou te deixar, e nem ao menos deixar partir o teu amor. Em qualquer solidão sem fim, grite à tristeza o teu sentimento, e mude o teu semblante. Eu ainda estarei com você. Em teu esplendor, na tua face, em teus olhos, no teu futuro, na tua casa.