9 de dez de 2013

De onde vem a calma daquele cara?



Eu me esforcei a melhorar, e consegui, eu melhorei o meu humor, e como consequência a minha vida. Mas não me pergunte como consegui essa proeza, pois, a minha fórmula de felicidade não é a mesma do resto do mundo. Alias, parece que o mundo ainda não aprendeu nem a dar ‘Bom dia’, simples frase essa que para mim faz enorme diferença.

Existem pessoas que sofrem com a vida, e sofrem tanto, que teriam milhões de motivos para nem sequer gostar de viver, porém, surpreendem até a própria alma, e sorriem por qualquer situação. Digo isso, pois vi há alguns dias uma criança na cama de um hospital, com uma doença de nome impronunciável, respirando com a ajuda da tecnologia, e que sorria muito mais do que eu, que tenho uma saúde intocável.

Resisto à ideia de que criança não sabe o que está acontecendo ao seu redor e por isso consegue sorrir diante às adversidades. Tenho a opinião de que a criança, por ainda não ser moldada pelo mundo, consegue ter a verdadeira noção de tudo o que se acomete. Enfim, cheguei à conclusão de que o sorriso de uma criança doente, na cama de um hospital, com aparelhos ligados ao seu corpo, é a verdadeira resposta às dificuldades que imaginamos passar diariamente. A nossa dificuldade é a solução de muitos outros problemas.

E com essa perspectiva enxerguei a mudança, e fui atrás dela. Assim, de uns dias até aqui me senti melhor. É claro que me sentiria tão melhor mesmo se eu visse aquele garoto sair andando e pulando, quebrando todo aquele hospital, com peripécias de crianças não doentes. Mas me senti um tanto bem em saber que se ele pode sorrir, mesmo com um problema maior até que ele, eu também posso com os meus problemas inúteis.

Outro dia o sol me acordou, vazou a janela e deu de cara em mim. Levantei junto com o Galo, e liguei a televisão para um café matinal. Não deveria ter feito aquilo. O café, um tanto quanto doce, contrastava com a difícil notícia que a âncora do jornal noticiava, logo nas primeiras horas do dia.

Dizia a moça jornalista que na madrugada anterior três pessoas morreram em decorrência da chuva que em duas horas caiu sobre aquele lugar o previsto para todo o mês. As pessoas morreram soterradas, pois, a casa de madeira, carcomida pelo tempo, em que moravam, não aguentou a mais uma tempestade. E eu reclamei do sol que me acordou sem pedir licença...

E com essa notícia começou o meu dia. Dia comum que terminou numa cama aconchegante, dentro de uma casa segura de qualquer revolta da natureza. Como em tantos outros dias. Cama boa, comida boa, chuveiro quente, felicidade particular.

Não demorou muito para essa rotina boba e boa me mostrar a maior conclusão de meus dias até aqui: a felicidade não pode ser particular. E quando é assim todos os seres do mundo estão errados. E é por isso que esse nosso mundo está de cabeça para baixo. A felicidade de uma pessoa deve ser contagiante e um sorriso de uma criança deve ser o combustível para que possamos um dia mudar a nossa realidade.

É assustador perceber o consenso de qualquer roda de conversa ao surgir um assunto dizendo que esse nosso mundo está perdido. Não vejo ninguém defender a ideia de que todos nós somos tão pessimistas em achar tudo errado nesse universo.
Porém, ainda alimento a esperança de tudo mudar ao ver o também consenso da maioria em afirmar que existem perspectivas, e que um dia tudo pode ser diferente, nem que o mundo comece novamente.

Mas, efetivas razões por vezes me desanimam, e me deixam à vontade para jogar tudo pro alto, me abaixar ao mundo, e desistir de todas as minhas inspirações. Pois, recebi a notícia de que o garoto doente de cama, não se sustentou apenas por seu sorriso doce e encantador. Milhares de outras famílias morreram em tempestades, por não terem onde morar. E nas rodas de conversas o principal assunto é o mesmo, e as soluções as mesmas, porém, ninguém se meche para ser o salvador.

Então, eu mantenho a calma; a calma que não sei de onde vem. Talvez seja de um Ser superior, ou da lembrança de um sincero sorriso. Sorriso salvador que só poderia vir de uma criança que não estava nem aí pra esse mundo perdido.

25 de nov de 2013

Enquanto a cidade dorme



Lá fora, entre os galhos secos de uma árvore velha e entre os gestos hipócritas de uma cidade quieta e infeliz, um homem sobrevive andando pelas ruas escuras, becos e calçadas estreitas. Chutando pedras e amassando flores, poetizando as suas decepções, procurando um bom motivo para começar a sua vida, assim que o dia nascer.

Ele não é capaz de fechar os olhos e apagar a luz de seu quarto, como todas as noites as pessoas normais fazem. Aquele nobre rapaz não tem quarto, e nem luz. Ele não fecha os olhos, com medo de deixar passar a oportunidade de sua vida. Quem sabe, numa dessas esquinas ele não encontra o fim do túnel? Acontece que ele já foi feliz e já adormeceu no aconchego de um abraço. Abraço apertado que se desfez.

Era tão contente que jamais imaginou que a sua grande e plena felicidade deixaria a sua vida. E mesmo com os olhos vidrados em um mundo desonesto, que consumia as suas vontades dia e noite, ele ainda pensava em presentear a sua alma com sorrisos, em vão.

Ele era grande, um enorme e formidável Senhor dos negócios. E vivia em sua vida ofertando mansões e aquisições ao seu ego. Se gabava, esbanjando seus bens da moda por toda a cidade pobre. Tinha ao seu lado pessoas bonitas por fora e pobres de alma, que sumiram do dia pra noite, depois que tudo adormeceu.

E o rapaz perdeu o que tinha, e ficou apenas com sua alma lavada, depois de viver apenas no consumo e esquecer o quão bom é viver em sentimentos. Arrependeu-se. E se partiu ao meio. Encontrou um tal de “sentimento bom” nos olhos de uma amada. Os olhos dela: eram jabuticabas, que o devoravam durante intermináveis segundos.
A noite caiu. Os olhos se abriram. O sentimento bom acordou daquele sonho. Sua vida se desfez. E por um segundo ele ouviu a voz da razão:

- Calma rapaz, calma. Não tente ignorar o mundo inteiro com o teu sorriso que não tem alento. Não tente me dizer para seguir os teus passos, sabendo que nem mesmo você sabe para onde eles vão te levar.

E enquanto a cidade dorme, ele continua procurando a luz no fim do túnel, ou um sentimento bom, capaz de deixar essa esquina da vida se perder por aí.

5 de nov de 2013

João-de-barro



Disse a ela.
Não vá embora.
Nem te atrevas com outros pensamentos.

Não vou deixar você partir, nem por um segundo sequer. Longe daqui não conseguirás viver, nem em pensamentos. E suas lágrimas serão frequentes em teu rosto, elas encontrarão brevemente o chão. Os teus sorrisos amarelos e esquecidos, as tuas felicidades serão raras. Quantas são as alegrias que te ofereço, mesmo sem eu merecer? Então fique, fique aqui.

Eu a supliquei que não partistes, por muitos e muitos anos, pois, maior em mim era o medo de perdê-la. E ela amava-me quieta, sem dizer a essa vida. Um dia ela me ensinou que de repente, o amor não merece a solidão. O amor em silêncio é como o medo. É defeituoso, é incoerente. Amar em silêncio é como perder um dom divino, é não ensinar ao infeliz como é bom viver em alegria.

Talvez por besteira de ser um garoto mimado, mal educado exatamente por você, eu a prendi em meus sentimentos e você ficou nessa casa pelo resto da vida, e a vida ainda não passou. Fiz em termos e em horas a sua felicidade resplandecer. 

Você sorria de manhã, ao pensar em meu bom dia, e dormia com a felicidade em teus sonhos, por estar ao meu lado. Era amor. Eu não sabia e nem você. Nem o mundo sabia o que era o amor: não passou! Nós o cultivamos, e o mundo ainda não aprendeu a amar.

Ainda pequenino e quieto, na contramão de todas as tentativas de acertar, eu fui incorreto com os teus trejeitos, pois, não os entendia. Quem me dera, agora, depois de velho, compreendesse tamanho sentimento que você demonstrava ao dizer que jamais me amou. As pétalas vazias da rosa que te dei e que foram jogadas ao vento, ainda me recordam a você.

Nunca se esqueça. Se um dia eu partir desse mundo e não te levar, compreenda tamanha generosidade, eu te prenderei dentro de mim, na casa do meu coração. Eu te cuidarei. Jamais vou te deixar, e nem ao menos deixar partir o teu amor. Em qualquer solidão sem fim, grite à tristeza o teu sentimento, e mude o teu semblante. Eu ainda estarei com você. Em teu esplendor, na tua face, em teus olhos, no teu futuro, na tua casa.

30 de out de 2013

Uma canção para Iá Iá



Iá Iá
Perderia-a, lá-Iá
Por ser estranho ao esboço de teu mar
Desonesto eu seria, Iá
Se não fizesse a tua parte em meu céu
Sob a imensidão do teu nome
E de teus passos, Iá
Deixei um recado para teu retrato
Um sinal de nós dois
Iá-Iá
Eu mentiria-a você-Iá
Se fingisse ser a tua dor
E provar-te-iria-Iá
Se dissesse que sou o teu amor
Mas, Iá-Iá
Não saia jamais de minha história
E não diga nem ao teu Eu sobre mim
Pois, faz parte de minha canção, a tua memória
Iá-Iá-
Tão tolo seria
Por te esquecer, Iá.

17 de out de 2013

O Analfabetismo Funcional



Determina-se como um analfabeto funcional aquela pessoa que sabe escrever seu próprio nome, assim como lê e registra frases simples, porém, é incapaz de interpretar textos e de usar a leitura e a escrita em atividades cotidianas, impossibilitando seu desenvolvimento pessoal e profissional.
E esse tipo de questão envolve muitas outras, que estão ligadas claramente à educação, e não apenas a escolar, mas sim, e principalmente, à educação do mundo, pessoal, cotidiana, uma educação que hoje, infelizmente, sobrepõe os livros e conteúdos relevantes, deixando de lado as raízes culturais, fato inimaginável em outros tempos.

Interessante é pensar sobre o assunto, e a decadência em que vive as palavras de grandes pensadores e autores da nossa literatura. O analfabetismo funcional é o estopim de toda a ignorância desse mundo. É o motivo do voto errado e da palavra dita sem saber.

Durante uma aula de português pode-se constatar a ignorância dos jovens, e a falta que faz a leitura no cotidiano de todos. Enquanto a professora explicava sobre interpretação de texto, dando como exemplo uma crônica de Rubem Braga, alguns alunos não ligavam para o que estava sendo dito. E assim que a profissional pediu para um deles ler uma parte do texto que ilustrava o livro didático, o garoto se enrolou nas palavras e juntava letra por letra, levando alguns minutos para terminar, demorando a formar frases simples, como se fosse uma criança que acabara de aprender a ler.

Eu sei que isso não é nada comparado aos milhões de brasileiros que são analfabetos e sem qualquer ‘funcionalidade’. Porém, o que me indigna são as pessoas que têm a total condição de estudar e ao menos ler um livro ou um artigo no jornal, e não se preocupam com isso. Essa decadência da leitura e conhecimento em nosso país não é culpa do governo, não pode ser.

O governo disponibiliza cartilhas para estudo, aulas até de outros idiomas, e por vezes capacita professores, que com enorme dedicação, transmitem os maiores conhecimentos as crianças e adolescentes. O que falta mesmo é o empenho desses alunos, deixarem de lado o videogame e ler algo com certa relevância.
Porém, a conclusão para esse problema social não é simples e passa por várias questões, começando na educação dentro de casa, como quais os programas de televisão que são assistidos, jogos eletrônicos e acesso a informações pela internet.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o analfabetismo cresceu pela primeira vez desde 1998, onde foram identificadas 13,2 milhões de pessoas que não sabiam ler nem escrever, o equivalente a 8,7% da população total com 15 anos ou mais. Em 2011 eram 12,9 milhões de analfabetos, o equivalente a 8,6% do total. Em 2004, a taxa de analfabetismo brasileira chegava a 11,5%. (UOL educação, acesso em 27 de Setembro de 2013).

O questionamento se faz a partir da análise dos números, considerando o aumento do analfabetismo ao também crescimento da tecnologia e da desvalorização de professores. Talvez os adolescentes de hoje possam alterar essa estatística; talvez eles não consigam entender o tamanho absurdo de tais porcentagens, ou então, eles nem cheguem a ler o final deste artigo.

Kallil Dib – Jornalista


8 de out de 2013

A minha milésima poesia



Engana-se quem imagina que encontrará nas palavras expostas nas linhas deste texto um tom romântico. Mas entende-se, quem já leu ao menos um dos outros 999 textos de minha autoria, que eu não saberia escrever sem adequar às minhas palavras um bom tom de poesia. Pois, eu simplesmente entendo que a poesia deveria reger o mundo, e quem sabe, todas as escrituras expostas por aqui.

Hoje eu escrevi a minha milésima poesia, e afirmo que difícil não é escrever mil poesias, o difícil é ter para quem escrever apenas uma. Vivemos em uma absoluta e absurda comodidade com a leitura, com frases e mesmo com o diálogo cotidiano, o famoso olho no olho, que também não deixa de ser poético. As pessoas não mais se interessam por palavras ditas e nem por flores ganhadas, muito menos por um olhar sincero.

E por que escrever poesias? Não é apenas por mim e para acalmar a minha alma. Não é apenas para expressar o que sinto quando encontro o perfume de minha amada. Não escrevo poesias apenas para demonstrar o meu amor ao mundo. Mas também escrevo frases poéticas num papel qualquer, para fazer alguma pessoa sorrir, e continuo a escrever para fazê-la chorar.

Poesia! Não a encontramos apenas em palavras, mas ela se estende a tudo o que é de mais especial em nossa vida. O Alento se encontra na tempestade e no sol que chega pela manhã. No arco-íris no fim do dia, e no amanhecer da outra estação.

Eu desejo ao mundo metade de minha poesia. Uma parte de meus sentimentos bons e um pouco de meus defeitos. E espero, sinceramente, que todos os que aqui habitam consigam honrar com os meus sonhos e esperanças.

O mundo precisa de uma parte de cada um de nós. A parte boa e linda que vigora um sorriso sincero e um doce desejo de mudança. Somos o sentimento do mundo e um pouco mais que isso: somos poesia, mil e tantas poesias.

Eu não vou escrever mil poesias para ela.
Mas vou a sorrir mil vezes, enquanto ela precisar.

3 de out de 2013

O dia que clareou



Clareou o dia e você sorriu
E saboreou-se e não mais quis ver e ter a solidão
Mas invejou a quem disse ser feliz
Felicidade, onde será que se perdeu
Ela se foi, ela mudou de casa
O dia que clareou te trouxe um novo mundo

E fui embora, chamei a doçura
Grite a esperança
Convidei o amor a ficar
Ele me respondeu
E disse-me amar
Clareou o dia e o meu sorriso
E teus olhos também se afetaram

Nada te trouxe aqui
Foi você que se encontrou
Apenas gostaria que jamais escurecesse de novo
Nem mais um dia, nem mais um medo

E que a lua jogue a inveja lá pro nada
E deixa clarear
Todos os teus santos dias

Quando eu falei de Machado de Assis e José de Alencar



Fui a uma escola perguntar aos alunos se eles conheciam Machado de Assis e José de Alencar. Um dos meninos lá do fundo da sala me respondeu que José de Alencar é o nome do 'Seu Zé' da serralheria perto da escola. E ele não deixa de ter razão, é claro. Assim como a garota estudiosa sentada em frente a carteira da professora, que surpreendeu o resto da sala ao dizer que Machado de Assis era um importante autor brasileiro.

E então eu expliquei aos alunos o porque da minha indagação, em meio aquela aula de português. Apenas queria saber, em resposta ao meu consciente, se os autores literários tão reverenciados em uma estação, tinham caído em esquecimento.

Assim, eu disse a eles que Machado de Assis foi mais do que um 'simples' importante autor. Machado de Assis foi senão mais do que o exemplo de todos os livros didáticos que os seus mestres aplicam em sala de aula. O importante Machado, como descreveu a aluna, viveu em praticamente todos os gêneros literários. Foi poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário.  Ufa! Quem é esse Machado de Assis?!

Mais do que exemplos em livros didáticos, ele é o percussor de todos os outros romances que podem encantar a jovialidade dessa geração. Machado de Assis é pai dos poemas de 1800, é pai celestial de todas as Letras destes folhetins. É mais do que uma descrição.

Alguns meninos riram, outros dormiram. Algumas meninas desconversaram, outras mexeram em seus celulares. E a menina da frente fez outra indagação: "E o José de Alencar?".  E eu a respondi, esquecendo os outros alunos desinteressados.

Eu disse a ela que o José de Alencar é um livro a parte. É um capítulo inacabável na história da arte poética desse mundo. Esse era culto, tão quanto a sociedade daquela época. Foi jornalista, político, advogado, orador, crítico, cronista, polemista, romancista e dramaturgo. Ufa! Esse foi José de Alencar!

Certamente, ou não, serviu de inspiração para o batismo do 'Zé Serralheiro', citado pelo garoto que já não estava mais na sala de aula. O José de Alencar original foi o Pai de O Guarani, uma das mais belas obras literárias dessa humanidade, que foi desenvolvida em princípio em folhetim, entre os meses de fevereiro e abril de 1857, no Correio Mercantil (jornal daquela época).

Aquela garota da primeira carteira se animou. Perguntou mais e mais desses autores e de outros e outros, enquanto a professora sorria orgulhosa em sua direção e os seus colegas de sala se desesperavam, pois a hora do sinal de partida demorava a chegar.

Depois de pouco tempo ali eu já conseguia responder a meu consciente sobre a questão do esquecimento de autores consagrados em alguma época. E a resposta era a que eu esperava: Assis e Alencar não eram tão referenciados.

Mas saí daquela sala de aula com um sorriso no rosto, como o de um mero e pequeno jornalista desse mundo, que é tão animado quanto sonhador. Saí daquela escola com a esperança de que a garota da primeira carteira irá contagiar os seus colegas de sala com contos e prosas de tantos autores literários que infelizmente sumiram das bibliotecas.

1 de out de 2013

Velhos adoram gatos





Como é difícil o fim da vida. Permanecer sentado e a pensar em tudo o que já se passou durante os anos, tentando em vão mudar alguma cena, algumas palavras e tantas pessoas. Em certas histórias nada valeu à pena, as estações passaram como dias e noites, os anos voaram como os sorrisos sinceros, e já se planeja um lugar ao céu.

O fim da vida remete às mais honestas sensações de tranquilidade, esperando, numa cadeira de balanço na varanda daquela casa afastada da cidade, a luz do fim aparecer. Sensações que desaparecem em algum tipo de emoção. As mãos limitadas e calejadas, e os cabelos brancos que relatam experiência, são sensações de que a intensa vontade de viver não foi mero costume.

É perto do fim que se percebe onde aconteceram os erros e acertos, e define-se que bem aventurada é aquela pessoa que passa pelo mundo com maestria. E um sorriso solitário, em meio ao nada, significa um tempo a mais para viver. Os amores que passaram fazem falta, principalmente em dias frios.

No fim desse mundo é que se percebe onde residiram as suas amizades, e o quanto significa as suas ausências. Aquelas que moraram durante todo tempo em seu coração e outras que permaneceram apenas em certos momentos. Nessa vida, e no final dela, é que se entende o tanto de importância que uma amizade te representou. A amizade é tudo, inclusive lembrança, saudade.

Antes de perguntar a um Senhor sobre o que ele acha da vida, resolvi questioná-lo sobre a morte. Ele me disse que a morte tem dele apenas o perdão e a vida tem a sua eterna gratidão.
Eu, admirado com sua resposta e um tanto impressionado, aprofundei-me no tema. Ele então me explicou metade de sua existência, desde o primeiro minuto em que ele lembrou existir.

O Velho me ensinou sobre as amizades. Sobre livros e sobre flores. Me falou sobre os teus momentos felizes e as lágrimas que um dia insistiram em cair. O Senhor, de tantas décadas vividas, terminou a sua prosa acariciando um gato que considerava ser o seu melhor amigo.

O gato não tinha nome. E atendia a qualquer chamado. Curioso sobre a existência desse bichano eu perguntei ao Velho o porquê, depois de tanto tempo de amizades e amores, um gato se transformou em seu melhor amigo.

Ele meramente me respondeu:
- Velhos adoram gatos, eles não abandonam ninguém, muito menos no fim da vida.